Um convite inesperado

1684 Words
📖 Capítulo 5 — Um Convite Inesperado Os dias foram passando um após o outro, parecendo correr mais depressa do que o normal. A rotina parecia sempre a mesma: o som do sinal, as salas cheias, as explicações das professoras, os intervalos, os trabalhos para entregar. Mas para Lucas, cada dia era diferente, cada hora trazia alguma coisa nova que ele guardava com todo o cuidado no fundo da memória: a forma como ela mexia no cabelo quando estava concentrada, o som da sua risada quando alguém contava uma piada, a maneira como ela virava o rosto para sorrir para ele. Para Nina, Lucas havia se tornado alguém muito especial: um colega confiável, muito inteligente, que sempre sabia explicar tudo com uma calma que a deixava mais tranquila. Ela ainda achava que ele era um pouco sério demais, que falava pouco e parecia viver num mundo só dele, mas nunca deixava de tratá-lo com toda a gentileza e alegria que faziam parte dela. Para Lucas... cada palavra que ela dizia era um acontecimento que ele repetia para si mesmo mil vezes antes de dormir. Cada sorriso era algo valioso que ele protegia como se fosse o seu maior tesouro. Nada era pequeno demais para ele notar, nada era sem importância. Naquela manhã de sexta-feira, o sol entrava forte pelas janelas da sala quando a professora entrou, segurando uma pilha grossa de folhas nas mãos. — Bom dia, turma! — Bom dia, professora! — responderam todos juntos. Ela colocou as folhas sobre a mesa e olhou para todos com um sorriso nos lábios. — Semana que vem teremos um trabalho em g***o valendo nota grande, mas antes quero avisar uma coisa muito importante. Os alunos ficaram logo atentos, parando de conversar. — Amanhã, sábado, a escola vai realizar um grande festival de integração para todos os estudantes e as suas famílias. Vai ser um dia muito divertido para todos nós. Imediatamente vários alunos começaram a comentar animados uns com os outros, batendo as mãos e sorrindo. — Vai ter barracas de doces e brincadeiras! — gritou uma menina no fundo. — Também vai ter apresentações de dança e música! — acrescentou outro. — Eu com certeza vou! — disse um terceiro. A professora riu um pouco e fez um sinal com a mão para que se acalmassem. — Todos estão convidados, tragam os vossos pais, irmãos ou quem quiserem. Vai ser um dia muito bom. Assim que o sinal do intervalo tocou, Nina guardou as coisas depressa e saiu da sala. Lucas saiu logo depois, caminhando devagar, mantendo sempre uma distância que não parecesse estranha, mas que nunca a deixasse sair do seu campo de visão. Ela foi até o jardim da escola, onde havia árvores grandes que davam muita sombra, e sentou-se num banco de madeira que ficava perto de um canteiro de flores. Abriu a lancheira e já ia tirar o seu lanche quando percebeu alguém parado ali perto, um pouco afastado, como se estivesse esperando permissão para chegar mais perto. Era Lucas. Ela sorriu imediatamente, batendo com a mão no espaço vazio ao seu lado. — Lucas! Olá! Podes sentar-te aqui, tem bastante espaço. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se estivesse certificando-se de que ela realmente queria a sua companhia. — Posso mesmo? — Claro que podes! Não precisas nem perguntar. Lucas sentou-se devagar, mantendo um pouco de distância, mas o suficiente para sentir o calor que vinha dela e cheirar o perfume suave que ela usava. Os dois ficaram alguns segundos em silêncio, ouvindo o som dos outros alunos a brincar ao fundo. Nina abriu a lancheira e fez uma careta de riso ao ver a quantidade de comida que havia ali. — Minha mãe exagerou de novo... ela sempre prepara comida para umas cinco pessoas como se eu fosse comer tudo sozinha! Ela começou a rir, mexendo nos pacotes e embrulhos. Lucas apenas observava cada movimento dela, sem tirar os olhos nem um instante. Nina pegou um pequeno pão doce coberto de açúcar, que parecia muito macio, e estendeu a mão para ele. — Tu queres? Acho que não vou conseguir comer metade disto tudo. Ele olhou para o pão doce na mão dela, depois olhou para o rosto dela. — Tens a certeza? Não queres tu? — Tenho toda a certeza! — disse ela pondo o pão na palma da mão dele, devagar, como se tivesse todo o cuidado do mundo. — Se eu comer tudo isto, vou explodir antes de chegar à sala de aula. Lucas ficou alguns segundos ali parado, segurando aquele simples pedaço de pão como se fosse a coisa mais valiosa do mundo. Sentiu o calor que ainda vinha dele, sentiu o lugar onde os dedos dela tinham tocado na sua mão. — Obrigado. — disse ele, com a voz mais baixa que o normal. — Não precisa agradecer nada! — respondeu ela sorrindo. — Amigos dividem as coisas, não é mesmo? A palavra "amigos" ecoou na sua mente como um som que ele não sabia bem se gostava ou se doía muito. Amigos... ela disse que somos amigos... Ele abaixou um pouco a cabeça para esconder o quanto aquelas palavras o tinham mexido por dentro, e deu uma pequena mordida no pão. Era o pão doce mais gostoso que ele já tinha comido na vida. Depois de alguns minutos conversando sobre as matérias da escola, sobre os livros que eles gostavam de ler e sobre as coisas que eles faziam nos tempos livres, Nina olhou para ele com uma expressão curiosa. — Posso te perguntar uma coisa? Se não quiseres responder, tudo bem. — Podes perguntar o que quiseres. Ela inclinou um pouco a cabeça para o lado, olhando para ele com aqueles olhos doces e atentos. — Tu quase sempre ficas sozinho... no intervalo, na hora de entrada e saída... tu não gostas muito de conversar com as outras pessoas? Lucas permaneceu em silêncio por uns instantes, mexendo devagar na ponta do seu caderno. — Não muito. É difícil para mim. — Ah... entendo. — disse ela sem julgar nada, apenas ouvindo. — Então fico muito feliz que tu gostes de conversar comigo. Sinto-me muito bem quando estamos a falar. Ele respondeu em voz muito baixa, quase num sussurro: — Eu também. Sinto-me muito bem contigo. Nina deu uma pequena risada, feliz por ter acertado no que sentia. — Sabia! Eu sabia que tu não eras assim tão fechado como todo mundo diz. — Dizem o quê? — perguntou ele, olhando para ela. — Dizem que tu és muito sério, que pareces até um pouco assustador, que nunca falas com ninguém. Mas eu já percebi que tu não és assim. Tu só és diferente, isso é tudo. Lucas não respondeu nada, mas guardou aquelas palavras com muito carinho. Ela continuou sorrindo, completamente alheia ao quanto aquilo significava para ele, ao quanto aquilo fazia crescer dentro dele algo que já não era só uma amizade. O sinal tocou anunciando o fim do intervalo e os dois se levantaram para voltar para a sala. Caminharam lado a lado pelo corredor cheio de gente, até que Nina parou de repente, batendo a mão na testa como se tivesse esquecido algo muito importante. — Ah! Espera um bocadinho! Quase me esqueci de te perguntar! Lucas virou-se imediatamente para ela, preocupado. — O que foi? Ela sorriu, um pouco envergonhada, brincando com a alça da mochila entre os dedos. — Tu vais ao festival da escola amanhã? Aquele que a professora falou? Lucas respondeu sem pensar nem um segundo, como se já tivesse a resposta pronta há muito tempo. — Vou. Os olhos dela brilharam de alegria. — A sério? Que bom! Ele apenas assentiu com a cabeça, sem tirar os olhos dela. Ela segurou a alça da mochila com as duas mãos, mexendo os pés devagar no chão, como se estivesse com medo de dizer o que ia dizer. — Então... se tu não tiveres ninguém para ir contigo... se tu quiseres... a gente pode passear juntos por lá, não é? Lucas ficou imóvel. Por alguns segundos, pareceu que todo o barulho do corredor desapareceu, que só existia ela e ele ali. Ele apenas a encarava, sem saber se estava a sonhar ou se aquilo estava mesmo a acontecer. Nina começou a ficar nervosa, baixando um pouco o olhar. — D-desculpa se eu fui muito à frente... eu só pensei que... como a gente se dá bem... Antes que ela terminasse de falar, Lucas respondeu com uma firmeza que surpreendeu até ele mesmo. — Eu gostaria muito. Gostaria mesmo. O sorriso dela ficou ainda maior, mais brilhante do que nunca, iluminando todo o seu rosto. — Que bom! Fiquei tão feliz em ouvir isso! Então está combinado: amanhã a gente se encontra na entrada da escola às nove horas da manhã, tá bem? — Certo. Às nove horas. — E não te atrasas, tá? Eu odeio esperar muito tempo! — brincou ela piscando um olho. — Não vou me atrasar. Prometo. Ela deu um pequeno aceno com a mão, ainda sorrindo de orelha a orelha. — Até amanhã, Lucas! Até amanhã! E saiu correndo pelo corredor, quase tropeçando nos próprios pés de tão feliz que estava. Lucas permaneceu ali parado por muito tempo, observando-a desaparecer entre os outros estudantes, até que já não conseguia mais ver ela. O seu rosto continuava calmo e impassível como sempre, mas por dentro a sua mente girava em torno de um único pensamento que não saía de lá: "Ela me convidou... ela quer passar o dia todo comigo... ela escolheu mim entre todos os outros." Pela primeira vez na sua vida, Lucas sentiu uma alegria e uma expectativa que nunca tinha experimentado antes. Ele já não conseguia pensar em mais nada a não ser no dia seguinte, no momento em que a veria outra vez. Sem perceber, Nina estava se tornando a pessoa mais importante da sua vida, o centro de todos os seus pensamentos e de todos os seus desejos — enquanto ela acreditava apenas estar a fazer uma nova amizade, uma amizade muito bonita e especial.
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