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4526 Words
Sentado sobre o banco de uma praça qualquer, Minjae observava a imagem mais uma vez de seu namorado confuso. ㅡ Então você não falou nada com ela? ㅡ Eu não consegui. ㅡ foi a resposta que recebeu. ㅡ eu olhei para ela, tive vontade de perguntar, mas não tive coragem. ㅡ Então você precisa parar de pensar tanto nisso, amor. ㅡ tocou as costas do outro, acariciando-o com leveza. ㅡ Eu também queria, mas não consigo. Minie, eu estou a um pouco de enlouquecer. ㅡ Sua mente deve estar lotada, precisa dar um tempo. ㅡ Eu sei que preciso, mas são tantas perguntas nascendo, que é impossível parar realmente. Ainda mais com a cafeteria, a casa nova… Acho que nem dormindo direito estou mais. ㅡ Ei… ㅡ com o tom baixo, rasteiro, se aproximou como um sussurro quando o corpo de Minjae colou sobre o do outro. Suas mãos se entrelaçaram. ㅡ Você precisa descansar, bebê. Calleo olhou nos olhos do outro, suspirando pesadamente antes de ceder e encostar a cabeça nos ombros do menor. Crianças brincavam mais além, corriam enquanto riam alto. Algumas pessoas estavam sentadas sobre a grama em grupos e outras estavam sozinhas, lendo livros ou apenas observando a noite tranquila. ㅡ O que me diz de irmos até o rio han? ㅡ Minjae sugeriu. ㅡ podemos caminhar um pouco, talvez ouvir música juntos e eu te deixo deitar nas minhas coxas enquanto te faço cafuné. Um sorriso de Calleo nasceu com suavidade. Assentiu com calma, estava exausto, mas gostava de gastar o pouco tempo que tinha depois de um longo dia de trabalho, com Minjae. Seguiram no carro do mais velho. Os pensamentos de Calleo ainda estavam longe demais, mas todas as vezes que ouvia a voz de Minjae soar, sorria e lhe respondia com prontidão. Desceram sentindo a brisa mais pesada e foi engraçado quando Calleo deu o sobretudo que usava para Minjae vestir. Não era de sentir tanto frio quanto o outro, mas o casaco que geralmente ficava no meio de suas coxas, havia ficado abaixo do joelho do loiro, o que o deixava adorável. Grupos de jovens dançando, se divertindo ou só matando o tempo, era comum naquela região de Seul, mas ele buscavam por tranquilidade, assim, foi Minjae quem segurou firme a mão de Calleo antes de caminharem para adiante, vendo a calma do rio, sentaram-se próximo à beirada. Minjae, como havia prometido, deixou que Calleo repousasse a cabeça em suas coxas, enquanto juntos, observavam a levidão das águas doce daquele rio. Calleo tinha o corpo deitado sobre o concreto frio. Minjae deixava com que suas pernas revoassem junto a brisa, enquanto deslizava com morosidade os fios longos e lisos do cabelo do outro. ㅡ Consigo ouvir o som da água. ㅡ Calleo falou num tom baixo. ㅡ é bom… Com os olhos fechados, o Hwang deixou que sua mente esvaziasse ao menos por aquela fração de tempo. Sentia o peito pesado, mas respirava fundo, tentando aliviar ainda mais as sensações. ㅡ Como foi seu dia? ㅡ perguntou ao loiro. Minjae ainda fitava o rio calmo, sentia a maciez dos cabelos alheios, mas tinha a mente vazia. Desviou os olhos para o namorado e sorriu, expulsando alguns fios que caiam sobre o rosto tão bonito. ㅡ Foi legal. Estava com saudade de dançar. ㅡ Você se divertiu? ㅡ Um bocado. Eu consegui treinar com as crianças, aquilo me renovou. ㅡ Fico feliz por você, meu bem. ㅡ o outro buscou pela mão que lhe acarinhava os fios, juntando-a a sua enquanto repousava sobre o próprio peito. ㅡ quero poder te ver dançando um dia. ㅡ Quer mesmo? ㅡ Com toda certeza. Deve ser lindo. ㅡ E quando irá me deixar te ver pintar? Você pensa mesmo que me esqueci da sua promessa? ㅡ Faz muito tempo desde que eu pintei alguma coisa. Me desculpe, tudo bem? Prometo que tentarei fazer algo bom para você. ㅡ Assim é fácil, tudo o que você faz é muito bom, bebê. Hwang deixou um tranquilo erguer de lábios surgir, ao mesmo tempo, em que seus olhos também tomaram o caminho para cima, encontrando com os tão belos e castanhos de seu Han. Não tinham tanto o que conversar, e seria ainda melhor daquele modo. Eram tantas coisas acontecendo em poucos dias, precisavam de silêncio. Precisavam sentir-se juntos, mas sozinhos com suas próprias almas para que ao menos um pouco de paz habitasse ali. Talvez passasse das dez quando um bocejo escapou da boca de Calleo. Minjae suspirou, deixando os olhos captarem cada um dos tantos detalhes que o namorado tinha de único e perfeito. Os traços asiáticos do Hwang não eram comuns como costumava ver por aí. Os olhos eram rasgados, mas não eram pequenos. Sempre que Calleo se surpreendia, ele os arregalava da forma mais fofa e impensada que poderia fazer. Seus lábios que não eram fartos, mas bem desenhados, se formavam em um bico para qualquer coisa, fosse confusão, irritação ou apenas birra. As bochechas constantemente estavam em carmim, sua timidez constante deixava-o parecendo um morango. Os cabelos longos, caindo sobre os ombros, mas com fios encurtados numa franja na parte da frente era o que poderia se chamar de “padrão”, mas até mesmo em Calleo, aquilo era visto como único aos olhos do Han. A pele, em seu tom amarelado natural, tinha uma pitada de sua descendência asiática mistura com a brasileira que vinha de sua mãe, Amélia. Um dourado tão encantador que a própria mulher exalava em sua pele parda também. Os cabelos, entretanto, não eram iguais aos de Amélia. Mas Minjae se encantou pelos cachos da sogra logo de cara. A mulher tinha um sorriso doce como o do filho, mas Calleo não se assemelhava a ela quanto na aparência. E talvez fosse isso. Talvez tenha sido isso que sua mãe viu em Calleo. Ele era mesmo parecido com o pai? Minjae não saberia dizer com certeza, nunca havia visto o homem, nunca havia ouvido histórias sobre ele ㅡ além da que Calleo deixou escapar enquanto sua amargura tomava-o por inteiro ㅡ e nem sequer sabia seu nome até ouvir Calleo falar. Curioso, Minjae buscou o celular. O namorado ainda parecia quieto, sonolento, mas sua curiosidade tão aflorada não o deixava descansar. Foi para a página do google, digitando “Hwang”. Uma avalanche de informações apareceu na tela, lhe dando páginas e mais páginas de pesquisa que não tinha relação nenhuma com o que realmente era o seu objetivo. Minjae mordeu o lábio inferior, digitando outra vez. “Hwang Doyun” foi a nova pesquisa. De início, o rosto do homem envelhecido apareceu junto a notícia de sua morte, há seis meses atrás. Minjae clicou naquela. Leu as primeiras linhas, contendo apenas notas de sentimentos a família e contando que era o homem. Pelo que lia, entendia Calleo estar tão assustado com aquilo. O homem era dono de uma farmacêutica multimilionária que estava indo à venda depois de seu falecimento. As linhas não contavam nada sobre um filho perdido, não existia nada sobre Hwang Junseo, mas deixava claro quanto a única herdeira daquela fortuna. Hwang Sora. A mulher de apenas trinta e seis anos, casada e mãe de três garotas, herdou tudo que seu pai deixou. ㅡ Acho melhor irmos. ㅡ Calleo se ergueu, fazendo o namorado se assustar. Estava concentrado no que lia. ㅡ o que foi? ㅡ Ah… ㅡ Minjae não gostava de mentir, tampouco para seu namorado. ㅡ você conhece alguma… Sora? ㅡ Sora? Acho que não. Por quê? ㅡ Bom… acho que… ㅡ e devagar, mostrou-lhe a tela do celular. ㅡ encontrei algo sobre sua suposta tia… Calleo buscou o celular, lendo as letras pequenas, forçando a visão quando leu com certa rapidez o que havia escrito ali. ㅡ Não fala nada sobre um filho perdido. ㅡ ele o olhou. ㅡ Talvez eles não só não saibam. Os lumes de Hwang Calleo voltaram para a foto. Seus dedos ampliaram a foto do idoso, em seguida a da mulher. ㅡ Eles nem se parecem comigo, hyung. ㅡ Deixa eu ver. ㅡ buscou o celular de volta. Analisando a foto enquanto desviava os olhos constantemente para Calleo, Minjae sorriu. ㅡ o nariz é igualzinho, bebê. ㅡ Claro que não. ㅡ Calleo também riu. ㅡ olha só, Minie, o dela é bonito. ㅡ E quem disse que o seu nariz é feio? ㅡ arqueou as sobrancelhas. ㅡ você é todo bonito, então seu nariz também é. ㅡ Seu elogio só é assim porque você é meu namorado. ㅡ Claro que não. Se fosse assim, eu não acharia que você tem o dedo mindinho do pé, um pouco torto. ㅡ Eu tenho? ㅡ a preocupação no rosto do mais novo foi exata. Minjae riu, negando. ㅡ Claro que não. ㅡ Está mentindo, não é? ㅡ Talvez só um pouco. Minjae riu junto ao namorado, mas percebeu quando os olhos atentos juntos as sobrancelhas franzidas voltaram para o celular. ㅡ Podemos pesquisar mais depois. ㅡ falou, também se erguendo. ㅡ mas só depois. ㅡ e buscou o celular. ㅡ vou te ajudar nisso, bebê. Assim você não precisa ficar pensando demais em tudo, tudo bem? ㅡ Obrigado. ㅡ pediu, enlaçando a cintura pequena do menor. Minjae sorriu antes de tocar os lábios de Calleo com suavidade, deixando um selar casto ali antes de voltar a juntar as mãos para caminhar. ㅡ Eu te deixo em casa? ㅡ perguntou. ㅡ Pode ficar comigo? As sobrancelhas do Han se ergueram, junto ao seu sorriso. ㅡ Eu juro que estava louquinho para pedir para ficarmos juntos por hoje também, mas estava com medo de parecer chiclete demais. ㅡ Você não é chiclete, mas se fosse, seria um chiclete muito bom. ㅡ Yejun está em casa? ㅡ Minjae perguntou, destravando o carro. ㅡ Acho que sim. ㅡ Calleo respondeu abrindo a porta do passageiro. ㅡ há problemas? ㅡ Não. ㅡ o mais velho adentrou o carro, buscando o cinto de segurança quando o namorado sentou-se ao lado. ㅡ mas a gente não vai namorar daquele jeito. Calleo negou, sorrindo. Adorava o modo em como Minjae ia de zero a cem com tanta facilidade. ㅡ Tudo bem, assim a gente pode pesquisar mais sobre essa suposta família. ㅡ riu. ㅡ Sua suposta família. ㅡ o loiro reformulou. Calleo, entretanto, não conseguia ver nada daquela forma ainda. ㅡ o que fará se eles forem mesmo? ㅡ Acho que nada, Minie. Vivi uma vida inteira sem essas pessoas, o que mudaria agora? ㅡ O fato de você ser herdeiro? A notícia falava que o homem havia morrido, então, basicamente, se isso for verdade, seu pai é o sucessor. ㅡ Você não conheceu meu pai, Minie, ele jamais seria uma pessoa capaz de largar dinheiro desse jeito. Por isso digo com convicção, isso é só um erro. Minjae observou o rosto do namorado, antes de seguir com o carro pelo trânsito bastante movimentado. Talvez aquele assunto deixasse a mente já tão cansada de Calleo ainda mais bagunçada, por tanto, mantiveram o silêncio durante o trajeto, apenas murmurando a letra baixa da canção que escolheram juntos para tocar ali. Quando chegaram ao apartamento, encontraram com Yejun concentrado em seu notebook. Não quiseram atrapalhar, mas o cumprimentaram. Calleo largou os sapatos para o lado, buscando seu próprio notebook enquanto Minjae sentava sobre sua cama. Estavam dispostos a utilizar bastante de suas horas livres em prol de mais informações sobre aquela tal família, mas nem precisava muito, era simples de achar quando eles estavam em diversas notícias. ㅡ Você nunca pesquisou seu sobrenome no google? ㅡ Minjae perguntou, curioso. ㅡ Nunca vi um porquê de fazer isso. ㅡ Mas e aqueles trabalhos de escola onde a gente sempre precisa anotar de onde vieram nossos nomes? Você nunca fez também? Calleo negou, sentado ao lado do namorado. ㅡ O que mais você encontrou? ㅡ perguntou, buscando um travesseiro para se agarrar a ele. ㅡ Não tem nada sobre o tal filho fujão. ㅡ riu. ㅡ mas essa família é muito famosa. Me espanta eu não lembrar dela quando você me disse o seu nome. ㅡ Será que seu avô não conhecia eles? ㅡ O que minha mãe falou exatamente? ㅡ Só que já foi apaixonada pelo meu pai. ㅡ o mais novo riu, recordando-se. ㅡ mas ela se casou com outro. ㅡ O meu pai, certo? ㅡ Uhum. ㅡ Será que ela casou sem amor? ㅡ o menor pensou. ㅡ será que eu fui feito sem amor? ㅡ Não pira. ㅡ Calleo riu, empurrando-o levemente com o ombro. ㅡ seria impossível fazer algo tão bonito como você, se não tivesse amor. ㅡ Bobo… ㅡ Mas então, ela me disse que aparentemente, meu pai fugiu após se apaixonar por uma estrangeira. ㅡ E a sua mãe é brasileira! ㅡ Por isso estou tão encucado… Eu sei que o relacionamento deles houveram proibições, mas eu acho que era apenas porque minha mãe era muito jovem. Ela basicamente era uma criança quando engravidou. ㅡ Isso aos olhos da lei e de quase todo mundo, é errado, sabe disso, não é? ㅡ É, eu sei bem. E penso comigo, será que foi por isso que meu avô… quer dizer, esse suposto avô quis dar um fim no relacionamento dos meus pais mesmo depois deles casados? Sua mãe falou que ele tentou, por isso meu pai nunca disse realmente onde estaríamos. ㅡ Talvez. Pensando assim, seu pai poderia ser preso, além do mais, você sabe como são essas famílias ricas com nomes poderosos, eles evitam tudo o que podem gerar manchetes escandalosas. E se o seu pai for mesmo filho desse homem, ele mandou pra marte a parte de se importar com isso. Ele realmente escolheu ficar com sua mãe e amá-la. ㅡ E é nesse ponto que eu já não consigo acreditar que isso seja real. Eles não tinham amor. ㅡ Vai ver tinha, ele só… se perdeu. ㅡ E você acha mesmo que amor se perde assim? ㅡ olhou com sinceridade os olhos do outro. ㅡ Amor verdadeiro não deixa de existir. ㅡ Mas eu não falei que ele deixou de existir. Só quis dizer que ele possa ter se perdido por alguma coisa… ㅡ Talvez por mim? ㅡ O maior sentiu o coração estremecer. ㅡ Não fale bobagens. ㅡ Eu falo sério. Pensa, eles não puderam ficar juntos, mas quando a mamãe engravidou, eles foram forçados a ficarem. ㅡ Então você seria algo bom, não r**m, Calleo. ㅡ Não, Minie. Eles se queriam. Em dois, não três. Um bebê pode mudar muita coisa, sabia? ㅡ Mas isso não faz sentido. O que um bebê teria a ver com um homem deixar de amar sua mulher? De não amá-la mais ao ponto de machucá-la? ㅡ Talvez porque ela tenha se apaixonado pelo seu bebê? Não foi sempre, mas eu tinha um relacionamento ainda melhor do que hoje eu tenho com a minha mãe. Ela era boa, era bonita, e adorava cantar para eu dormir. Eu tinha só sete anos, mas consigo me lembrar da última vez em que ela segurou a minha mão e me disse palavras bonitas para eu conseguir entrar na nova sala de aula. Eu estava com medo, mas ela sempre sabia como me acalmar. Só depois que eles começaram a brigar, nossas vidas mudaram… ㅡ Sua mãe parece ser um doce. ㅡ Ela era. ㅡ suspirou. ㅡ mas eu sinto que ela foi roubada de certa forma. Vendo agora, assim, talvez ela nem quisesse ter um bebê antes de finalizar os estudos. Ela nunca finalizou, Minie… Teve a infância roubada pela maternidade e o amor ceifado pelo ódio. Minjae desviou os olhos para os do namorado, deixando o notebook repousado sobre suas coxas quando virou-se com sutileza e abraçou o Hwang da forma como podia. ㅡ Eu sinto muito, Calleonie… ㅡ Eu também. ㅡ falou com pesar. ㅡ Tudo bem, eu não quero ser intrometido. ㅡ a voz de Yejun, fez ambos olharem em sua direção. O Min se ergueu, caminhando até a cama e sentou-se na beirada. ㅡ o que tá pegando? ㅡ Acho que estamos prestes a descobrir algo muito grande. ㅡ Como o quê? ㅡ Minha família. ㅡ Como assim? Minjae virou para ele a tela do computador, apontando para as pessoas que apareciam ali. ㅡ O avô e a tia do Calleo. ㅡ Supostos avô e tia. ㅡ o Hwang reformulou. Yejun franziu o cenho, lendo as letrinhas daquela notícia com atenção. ㅡ Herdeiro da farmacêutica Takewan? ㅡ Yejun estava com os olhos arregalados. ㅡ Você é herdeiro da farmacêutica TAKEWAN?! Calleo riu alto, negando com o modo surpreso do amigo. ㅡ Claro que não! ㅡ jogou o travesseiro que antes estava abraçado. ㅡ é só uma suposição. ㅡ Caramba, como assim? ㅡ Yejun se arrastou pela cama, sentando ao lado de Minjae. ㅡ Ah, hyung, é uma história tão longa… ㅡ Espera aí, eu vou pegar um salgadinho. ㅡ Quê? ㅡ Calleo fitou o Min se erguer, correndo até o armário da cozinha. ㅡ Salgadinho, ué. Você disse que vai ser longa, e eu tô com fome. Minjae riu, negando, mas olhou para Calleo. ㅡ Eu quero um também. ㅡ o Hwang falou alto. ㅡ Tem com cebola? ㅡ Minjae também quis saber. Se iria ter salgadinhos, ele também iria querer um. ㅡ Vocês deram sorte que eu comprei um bocado hoje. ㅡ Yejun falou, retornando para a cama. Entregou um a cada um e sentou-se outra vez ao lado de Minjae. ㅡ então, como é essa história? ㅡ Então, hyung. Eu estava na casa do Minie e a mãe dele… E contando a história mais uma vez, Calleo se pegava já habituado a contar aquela trajetória ㅡ e tragédia ㅡ e via como a cada vez, aquele se tornava ainda mais absurdo e realista. [...] Dez dias após a cirurgia de transplante de fígado que Amélia, mãe de Calleo, havia realizado, tudo já parecia bem melhor. Caminhando vagarosamente ㅡ ainda sob o olhar cuidadoso do filho ㅡ a mulher já conseguia se banhar, comer e até pentear seus cabelos cacheados sozinha. Calleo tinha a dúvida ainda sobre o assunto “Hwang” em sua mente, mas temia como a mulher reagiria, por isso, mantinha-o ainda entre si e os amigos. Sorriu quando a mulher mostrou-lhe o vestido que havia escolhido pela internet e que havia sido entregue ainda ali, no hospital. Era a sua roupa para alta. ㅡ O que acha dele? ㅡ perguntou, erguendo-o e colocando-o sobre o corpo. ㅡ É bonito. ㅡ falou apreciando a peça. Era um vestido comum a todo ver, mas era realmente bonito. Ia até os tornozelos da mulher pequena e tinha mangas fofinhas, que mais tarde, Calleo descobriu se chamar bufantes, coisa que sua mãe adorava como detalhes. Seu corte era reto, mas havia uma parte que deixaria a cintura tão pequena marcada. Era em momentos assim que Calleo notava como sua mãe ainda era tão jovem e cuidadosa. A mulher bonita, de pele parda e cabelos encaracolados, parecia feliz vendo seu novo vestido amarelo. ㅡ O que irá calçar? ㅡ perguntou, sentando-se ao lado. ㅡ Minhas sandálias. ㅡ respondeu simples, desviando os olhos para a porta do quarto quando essa se abriu. Minjae passou por lá, segurando dois copos grandes de café, e, ainda fitando a sogra com aquele vestido nas mãos, entregou um dos copos a Calleo. ㅡ Que lindo. ㅡ falou, sentando-se na poltrona ao lado da cama. ㅡ Você achou? ㅡ e o sorriso de Amélia somente aumentou. Era bonito, mesmo que não fosse idêntico a quase nada ao de Calleo. Quase, pois, os dois dentes da frente um pouco maiores do que os outros e que davam um toque a mais no sorriso tão apaixonante que Calleo exalava, haviam sido herdados dela. ㅡ Muito. Vai ficar lindo na senhora. ㅡ Minjae, além de educado, estava sendo verdadeiro. ㅡ Mas ela não tem sandálias que combinam. ㅡ Calleo falou. ㅡ e eu sei que a senhora só tem uma sandália aqui. ㅡ Tenho mais em casa. ㅡ Amélia falou. ㅡ Não tem não. Se esqueceu que me deu a chave de lá e eu e Hajun-hyung fomos organizar algumas coisas? O máximo que eu achei foi um sapatinho branco bastante gasto. ㅡ Não seja t**o, eles me servem bem. Não preciso de mais sandálias quando só tenho dois pés. ㅡ Ela tem um ponto. ㅡ Minjae riu, olhando o namorado enquanto bebia seu café quente com leite. ㅡ Eu sei, mas não acha que um vestido tão bonito precise de sandálias bonitas também? ㅡ Aish, não seja bobo… ㅡ Amélia resmungou, mas olhou para o próprio vestido e depois para suas sandálias surradas. ㅡ agora você me deixou triste. ㅡ riu, voltando a fitar o filho. ㅡ não tenho como comprar sandálias agora… ㅡ Não se preocupe com isso. ㅡ Calleo sorriu, bebendo o próprio café antes de ficar de pé. ㅡ Eu e Minjae compramos uma novinha. ㅡ Nós dois? ㅡ Minjae animou-se. ㅡ eu conheço uma loja muito boa. ㅡ Não, não, nada de comprar coisas caras e desnecessária. ㅡ Amélia negou, guardando o vestido na caixa que havia sido entregue e depois na sacola. ㅡ não gastem com nada para mim. ㅡ Mas a senhora não pode ditar com o que vamos gastar. ㅡ Calleo respondeu um pouco receoso. Amélia lhe olhou, mas Minjae que estava do lado assentia, concordando com o namorado. ㅡ Ele também tem um ponto, senhora Holf. ㅡ Aish, vocês dois… não podem gastar assim. ㅡ Podemos sim. ㅡ Minjae deu-lhe outra sorriso. ㅡ É só uma sandália, mãe. E se a senhora quiser, pode aceitar como seu presente de aniversário. Estamos a algumas poucas semanas da data tão esperada. ㅡ Esperada? ㅡ Amélia riu, negando. ㅡ Nós vamos fazer uma festa? ㅡ Minjae perguntou curioso. ㅡ Com certeza. ㅡ Calleo respondeu com convicção. ㅡ e já será na casa nova. ㅡ E por falar em casa nova, vocês disseram que estavam aqui para mostrar as que gostaram, não foi? ㅡ Ah sim! Minjae foi rápido ao buscar a própria mochila, retirando seu computador dali. Sentou a frente do namorado, vendo Amélia sentar ao lado quando abriu a tela. ㅡ Calleo disse que a senhora gosta de flores, então todas as casas tem jardins. ㅡ Mesmo? ㅡ A Holf olhou-o. No fundo dos olhos castanhos dela, havia um pontinho de luz. ㅡ Sim, foi uma exigência. ㅡ Calleo a respondeu. A mulher fitou o genro buscar pelas residências que haviam escolhido com ainda mais animação. A foto da primeira abriu e ambos olharam-na para perceber qual a sua reação. ㅡ Eu gostei muito dessa, mãe. ㅡ Calleo falou. ㅡ Você gostou de todas, bebê. ㅡ Minjae sorriu para ele. A mulher desviou os olhos para os dois jovens brevemente, principalmente pelo modo em como o loiro chamou seu filho. Riu, baixinho, mas voltou a olhar as fotos, vendo Minjae passar uma a uma. A primeira casa tinha uma fachada simples, em tons marrons. O muro era bastante alto e o jardim não era tão grande. As flores ficavam na lateral, mais fazendo a ornamentação do início da casa. Era espaçosa, havia os três quartos como era o necessário, mas não agradou muito à mulher. ㅡ O que achou? ㅡ ambos perguntaram-na quando chegaram ao fim daquelas fotos. ㅡ É boa, mas… Tem muitos corredores, não achou? Cada parte da casa é fechada demais… ㅡ Eu te disse isso. ㅡ Minjae olhou para o namorado. ㅡ eu tive a mesma sensação, senhora Holf. ㅡ Mostre a próxima, Minie. Minjae passou para a próxima casa. O muro daquela era menor, o portão não era bonito, mas o jardim ficava atrás e era de certo modo, maior. A casa não tinha muitas janelas, era num lugar mais complicado e não acessível para carros irem até à porta, mas era num valor bastante bom, já que Calleo e Yejun se dividiriam para pagar pelo lugar. ㅡ Agora é a última. ㅡ Minjae falou, indo enfim à residência. De imediato, Amélia se surpreendeu pela arquitetura rústica, dando a parecer até mesmo com as casas existentes na dinastia. O muro, antecedendo a entrada de madeira, era completo em pedras. A aparência era boa, parecia algo feito com carinho. As paredes eram de madeiras, mas Calleo assegurava que eram resistentes e quentes para o tempo frio, já que o aquecedor as mantinham assim. O telhado, com sua ponta curvada no fim, dava a característica das construções tradicionais, e não foi preciso sequer olhar as fotos de como o lugar era por dentro, para saber qual seria aquela casa. Mas Amélia continuou vendo os detalhes que Minjae lhe mostrava. Por dentro, a casa era completamente outra, tinha uma arquitetura moderna, e os quartos ficavam distantes um dos outros, dando-lhes privacidade. ㅡ Eu gostei muito dessa. ㅡ falou, olhando para ambos. ㅡ Mesmo? ㅡ Minjae perguntou. ㅡ Sim, onde fica? ㅡ A localização dela é um pouco distante de onde moro agora, mas ela é perto de onde será a nova cafeteria. Eu conseguiria ainda ir caminhando. ㅡ Mesmo? Não quero que te atrapalhe, querido. ㅡ Falo mesmo a verdade. Não atrapalha. ㅡ Então podemos fazer assim. Eu e Calleo vamos olhar o lugar pessoalmente, acho que até mesmo Yejun pode ir conosco, e fazemos uma chamada de vídeo com a senhora. Assim, poderá ver o lugar conosco também. ㅡ E se a senhora e Yejun aprovarem, eu já faço o depósito dos três meses adiantados que precisa para liberarem a chave para nós. ㅡ Qual o valor dela? ㅡ a mulher buscou na tela, mas não encontrou. ㅡ Calleo disse que a senhora não podia saber agora. ㅡ Minjae sussurrou para a sogra. ㅡ Oras, mas porque? ㅡ a mulher olhou para o filho. ㅡ Porque eu sei que a senhora vai se preocupar. ㅡ Então é um valor muito alto? Calleo! ㅡ Não, claro que não é. Mas vai ser um dinheiro bem pago. ㅡ Estou confiando em você, entendeu? Eu te disse, não se importe com nada muito caro. ㅡ Eu sei, mas o que a senhora achou do jardim dessa daí? Os olhos da mulher retornaram para o notebook, seu sorriso parcialmente voltando a ganhar vida. ㅡ É lindo. ㅡ Calleonie disse que podemos plantar mais flores por aqui. ㅡ Minjae apontou, mostrando a lateral que apenas havia terra. ㅡ Ele disse que a senhora adora girassóis, e como é uma flor grande, ficaria muito bonitas caso plantássemos algumas por aqui. Amelia imaginou alguns girassóis pintando aquele quintal no seu tom tão vibrante. ㅡ Obrigada, meninos. ㅡ Não agradeça. ㅡ O Hwang pediu. ㅡ Não, querido, eu preciso agradecer. Estou me sentindo feliz. Estou viva e agora tenho o que eu posso chamar de família outra vez. Então obrigada por estarem comigo. Minjae sorriu, sentindo a sogra apoiar a cabeça em seu ombro, ainda olhando as fotos. ㅡ Me mostre a primeira foto outra vez, por favor. É uma linda casa. Calleo sorriu. Não havia dúvidas de que aquela era a casa certa para ambos voltarem ao convívio que antes foi rompido com tamanha tristeza. Ali seria o ponto importante onde a família se reconstruiria.
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