1. WILLY JONES“Papai, já acordou?” Gritou Becky no chalé decrépito e escuro, enquanto fechava ruidosamente a porta de entrada atrás de si para o caso de ele nem mesmo ter acordado. Ela se perguntou imediatamente se não deveria tê-la deixado aberta. O cheiro era terrível.
“Papai, sou eu, Becky! Levante-se agora, por favor, papai!”. Abriu as cortinas da janela da sala, relativamente grande para uma casinha de campo galesa, mas que, no entanto, era pequena, levando-se em conta normas atuais. Ela a abriu o máximo que podia, aferrolhou-a a seus suportes à moda antiga e foi à cozinha nos fundos da casa. Imediatamente, a causa do mau cheiro lhe pareceu em parte evidente. Kiddy, a velha c****a galesa a quem se criava para vigiar os carneiros, estava encolhida perto da porta que dava para os fundos da casa parecendo também um carneiro muito cabisbaixo. “Não se preocupe, minha velha, não é culpa sua. Há muito ele deveria tê-la deixado sair”. Abriu a porta que dava para os fundos da casa e empurrou as porcarias deixadas pela c****a mais adiante no linóleo. “m***a!”, disse, contra a vontade, enquanto uma nova onda de fedor se erguera da pilha de excrementos que acabava de deslocar e de remexer. Quando a a******a ficou grande o bastante, Kiddy, grata, se esgueirou no jardim, feliz por se afastar do que havia causado seu incômodo. Becky pegou um balde e um esfregão que cheirava m*l debaixo da pia, mas lhe foi necessário primeiramente afastar a louça sobre a bancada para poder encher o balde na pia e limpar o chão. Não dispondo nem de água quente nem de um produto adequado para limpar, utilizou água fria e detergente. Não havia luvas de borracha; assim, acocorou-se e se pôs a limpar as porcarias que a c****a tinha deixado. “m***a, m***a, e mais m***a!”, murmurou para si mesma, mentalmente. “Esta casa é somente um monte de m***a!” Enquanto caminhava ao longo da faixa marrom de pouco mais de meio metro, as solas de suas sapatilhas se colavam ao chão. Pensou que toda a cozinha precisava ser limpa a fundo com água quente. Quando ficou satisfeita com aquele cantinho, Becky foi ao jardim situado na parte externa e jogou a água na privada. Em seguida, lavou as mãos e o balde na torneira de fora; ali jogou a água sanitária que estava no banheiro e novamente o encheu com água, deixando mergulhar o esfregão a fim de se limpar. Voltou à cozinha, colocou a tampa na pia, abriu a única torneira, a janela e também mergulhou a louça na água. O único utensílio de cozinha que havia sido utilizado desde a última vez que viera fora a frigideira, mas toda a louça estava suja, assim como inúmeras xícaras, copos de uísque e de cerveja. Sabia o que aquilo queria dizer. Uma fritura e chá pela manhã, tarde durante a manhã ou no começo da tarde; uma fritura e uma cerveja à noite e alguns uísques antes de se deitar. A situação começava a ficar intolerável e Becky logo ia perder a paciência com o pai, mas ela sentia uma piedade verdadeira por sua velha c****a, obrigada a viver em tal pocilga com ele, a quem o cheiro e a sujeira não pareciam incomodar. Enquanto lavava a louça, ergueu os olhos para a espécie de cadeia de montanhas que se erguia a alguns quilômetros do que se qualificava, por meio de um eufemismo, de jardim, mas que fora soberbo quando ela vivia na casa. As montanhas sempre suscitaram uma fascinação nela; desse ponto de vista, ela se parecia com a mãe. Sua mãe lavara louça duas ou três vezes por dia nesta janela e fixara estas montanhas durante quarenta e dois anos.
Seu pai e ela gostavam de pensar que era feliz brincando ou vagando não longe delas, agora que não estava mais com eles. Morrera de um câncer de útero há cinco anos. Fomos apanhados de surpresa, pois ela jamais fora às visitas organizadas no hospital. Haviam-na diagnosticado com a doença e ela morrera ao fim de três meses; fora um choque terrível.
Todavia, agora Becky estava mais informada acerca desta doença e pessoalmente se submetera a exames; desconfiava de que sua mãe, que trabalhara duro e fora estoica, sabia ter um problema, mas não desejara ser um peso e talvez tivesse sido seduzida pela ideia da morte e de escapar ao duro labor em uma fazendola isolada na montanha.
“Eu ia fazer isso quando tivesse descido!”
“Oh! Você me assustou! Gostaria que não chegasse pelas minhas costas desta maneira sem chamar a atenção. Eu já lhe disse, lembra-se, papai?”
“É realmente simpático receber seu velho pai assim, realmente. Além disso, eu não estava chegando sem chamar a atenção, e mesmo que este fosse o caso, tenho o direito de fazê-lo porque estou em minha casa”.
“Como está hoje, papai?” Às vezes, ela recorria ao velho jargão local e o chamava ‘Da’; às vezes eles até falavam galês, mas não com tanta frequência desde que Becky voltara de uma universidade hortícola e sua mãe morrera.
“Tudo bem. Só estou cansado e não vejo por que deveria acordar cedo quando faz frio. Por que não esperar na cama que o sol tivesse aquecido um pouco o cômodo? Tem chá? Estou morrendo de sede. Minha boca tem o mesmo gosto das cuecas de um operário”.
“Não vale a pena entrar em detalhes tão pouco agradáveis. Tenho apenas um par de braços, você sabe! Tive de limpar as sujeiras que a pobre e velha Kiddy deixara, porque você está ‘cansado’ demais para fazê-la sair, e este lugar estava sujo demais para que se pudesse comer qualquer coisa”.
“E você realmente deveria cuidar mais de si mesmo”, ela disse, voltando-se e o observando dos pés à cabeça. “Está com uma aparência de dar dó”.
William Jones mantinha-se à frente dela com calça de pijama e sem chinelos. Os cabelos brancos que recobriam metade de sua cabeça estavam completamente despenteados e os músculos de seu rosto davam a sensação de que ainda estava adormecido. Uma lufada de seu hálito enquanto ele falava lhe confirmou que não se enganara no que dizia respeito aos copinhos que ele tinha bebido antes de ir para a cama – era provavelmente o suficiente para justificar a maneira como estava penteado.
“Por que não escova os dentes e lava o rosto para acordar um pouco, em primeiro lugar?”
“Não preciso que me dê uma lição no que se refere a minha higiene pessoal, muito obrigado. Tenho minha própria rotina há mais de sessenta anos e ela sempre me bastou. Não tenho a intenção de modificá-la agora, nem por você nem por ninguém. Sua pobre e velha mãe jamais se queixou disso e o que ela estimava justo me basta”.
“De qualquer maneira, se quer saber, eu estava me preparando para ir ao banheiro. Então, se quiser me dar licença…”
Ele Saiu. Sempre se lavara debaixo da torneira situada na parte externa da casa, desde que não houvesse neve ou gelo no chão, e ainda não tomava uma ducha ou um banho senão uma vez por semana, em ocasiões especiais.
Ela enxugou as mãos em um pano, encheu a chaleira, acendeu o gás, colocou três saquinhos de chá no bule depois de ter verificado que estava vazio, e voltou a lavar a louça.
“Vá se vestir, Da”, incitou-o quando ele voltou e se apoderou de uma toalha que estava pendurada em um gancho atrás da porta. “Vou preparar torradas e enquanto isso o chá terá acabado de ficar pronto. Vá e não demore tempo demais”.
Ela aqueceu o bule e colocou os saquinhos de chá, derramando a água; em seguida, tirou a tampa da pia e acendeu a grelha. Trouxera sua própria comida como o fazia habitualmente, porque William raramente ia fazer compras, e ver o interior de sua geladeira era um espetáculo h******l. Ela ia ter de se ocupar disso mais tarde, mas queria primeiro tomar o café da manhã.
Enquanto esperava que a grelha estivesse quente, lembrou-se da c****a e colocou os pedaços de comida que havia trazido em sua tigela. Devia haver uma lata de comida para cachorros meio aberta, meio utilizada, ressecada na geladeira, mas ela esperaria, e Kiddy merecia um pequeno bônus de vez em quando.
Pouco antes de ouvir seu pai descer, ela sacudiu a toalha diante da porta de entrada, substituiu-a por uma nova e colocou a mesa para o café da manhã.
“Está vendo ? Você pode ficar bonito quando quer, Da”.
“Ninguém vai me ver, então de que serve isso? Você não colocou cerveja nesse queijo quente”.
“Não, você bebe bastantes cervejas durante o dia, não precisa dela no café da manhã”.
“Colocar cerveja no queijo não é como beber cerveja, é uma tradição. Os Welsh Rarebit2 são isso. É um costume galês que remonta à noite dos tempos, mas você gosta do seu queijo derretido sem cerveja, à inglesa”.
“Um dia você vai me agradecer, e será tamanho o choque para mim que irei me juntar a mamãe na montanha atrás da casa. Os pais se queixam do fato de que seus filhos são ingratos, mas as pessoas velhas, ou ao menos você, são muito piores”.
“Sinto muito, Becky”, disse, olhando-a. “Sou grato por tudo o que faz por mim, realmente sou… É só que as pessoas velhas funcionam à sua maneira. Minha mãe, que Deus a abençoe, sempre colocava cerveja no queijo quente de meu velho pai, e sua mãe sempre fazia a mesma coisa para mim. Ao fim de sessenta anos de queijo na cerveja em sua torrada, adquire-se o costume. Você percebe, não é?”
“Sim, Da, agora você vai parar com esta porcaria desta cerveja!”
“Ooh! Veja como fala, Becky! Sua mãe não teria tolerado essa linguagem imprópria em casa e eu jamais o farei em memória dela! É outro mau hábito que você adquiriu nesta universidade inglesa”.
“Não, não é verdade! Adquiri-o com você”.
William não estava certo de que fosse verdade, mas decidiu não replicar. “O chá estava muito bom, e era bom variar o queijo, se pudesse ser assim de vez em quando”, disse.
“A verdade é que eu sabia que provavelmente havia cerveja na geladeira, mas não tinha coragem de colocar o nariz dentro antes de ter comido”.
Seu pai desatou a rir. “Posso entendê-la! Também não gosto de olhar para dentro… Sobretudo quando está escuro. Nunca se sabe o que se pode estar à espreita lá dentro. Alguma coisa poderia lhe arrancar a mão a dentadas”, e ele tentou se apoderar de uma de suas mãos.
Ela a retirou justo a tempo, tomando parte na brincadeira.
“Por que vive assim, Da? Não tem nenhuma necessidade, não acha? Você fala de tradição, mas mamãe mantinha a casa impecável. Era seu orgulho e sua alegria, mas aposto que ela teria vergonha demais de entrar aqui agora”.
“Pois bem, está errada, Miss que-se-faz-de-grande e que recebeu educação em uma universidade inglesa. Sua mãe e eu com frequência nos sentamos um ao lado do outro e conversamos aqui mesmo”.
“Eu sei, papai, mas aposto que por vezes ela manifesta sua desaprovação ao ver o estado da casa. Essa manhã, o lugar fedia como uma cloaca… a cerveja, a uísque, às porcarias da c****a e a comida podre. Quase vomitei!»
“Sinto muito, bem sei que por vezes deixo este lugar se degradar. Mas não estou mais estimulado. Às vezes faço um esforço. Mas suponho que me falte vontade”.
“Por que não vem morar conosco? Seria um prazer ter você conosco e nós lhe propomos isso várias vezes. Aqui é grande demais para um homem sozinho, sobretudo para alguém como você, que nunca cuidou de uma casa. É demais para você, papai, com seus reumatismos, sua dor nas costas e os seus pés inchados”.
“A ouvi-la, estou pronto para o cemitério. Você sabe, sei que você, que todos vocês foram muito gentis, mas não posso deixar essa casa. Há gente demais e lembranças demais aqui para mim e para a velha Kiddy. Além disso, se partíssemos, sua mãe ficaria inteiramente sozinha aqui”.
“Sei que você acha isso, papai, mas acho que se houver fantasmas, e não vejo por que não deveria havê-los, então eles podem ir aonde quiserem. Não são obrigados a permanecer em um lugar em particular”.
“Pois bem, tenho certeza disso. Com frequência trata-se de um lugar ou de uma casa assombrada, não é? Dito isso, não gosto das palavras de conotação emocional como ‘assombrar’ e a coisa toda, mas acho que os fantasmas, como as pessoas, sentem apego por um lugar e aí permanecem”.
“Mas por que sentiriam apego? É absurdo”.
“Não, não o é, se refletirmos bem a respeito. Nós, que temos um corpo, sentimos apego por nossos amigos, nossa família e nossas propriedades. Se eu morresse amanhã, isso não quereria dizer que você viveria no Zimbábue, não é? Se um meteorito se abatesse sobre esta velha fazenda, eu não iria me instalar na Escócia, não acha? Não, é claro que não. Estou emocionalmente ligado a este lugar. É aqui que vivo e se me afasto algum tempo, volto. É o que fazem noventa por cento das outras pessoas. Não há senão esses estranhos expatriados que se afastam de casa durante longos períodos e a maior parte deles morre em casa. Acredite em mim, os fantasmas, ou as pessoas que não têm corpo fazem as coisas pelas mesmas razões daquelas que têm um corpo”.
“Você realmente viu mamãe e falou com ela ao vivo?”
“Não é fácil responder a sua pergunta, minha querida. Falei com você esta manhã, mas estava de costas para mim e não podia me ver. Mas isso não a impediu de saber que era eu quem estava atrás de você, não é? Todavia, para responder a sua pergunta, jamais a vi como olho para você neste momento ou tive uma conversa como esta. E no entanto, acho que a entrevi, como quando a televisão está louca e ouço sua voz em minha cabeça”.
“Você vê mamãe na televisão? Vi isso em filmes, mas jamais ouvi dizer que tenha acontecido na vida de verdade. Tem certeza a esse respeito?”
“Não, é tudo o que eu queria dizer! Acontece-me de ver uma imagem dela em uma janela, no vapor da chaleira ou na sombra da casa. Tenho uma teoria a respeito de tudo isso. Sua mãe ainda não aprendeu a se projetar, e eu não sei o que procuro. Compreende?”
“Não tenho certeza. Quando se está morto, se está morto, não é?”
“É o que as pessoas pensam, mas nenhum de nós o sabe realmente, não é? Vou dizê-lo de forma diferente… Ninguém pode provar que sabe. Há um homem que pretende ser a mão direita de Deus no planeta, mas Deus não o ajudou a prová-lo. E todavia isso foi difundido no mundo inteiro pelas mídias católicas como se se tratasse de uma verdade incontestada. Como pode ou como podemos nos livrar de tudo isso hoje e nesta época?”
“Se a reencarnação existe, já morremos, então o que há a aprender?”
“Da mesma forma, se a reencarnação existe, já nascemos, mas devemos mesmo assim reaprender a caminhar, a falar e a nos comportar. As pessoas que morreram talvez devam reaprender a tornar seus corpos mais luminosos ou mais densos de maneira a que possamos vê-los. E o mesmo acontece com suas vozes”.
“Então por que muitas pessoas não veem muitos fantasmas todo o tempo?”
“Acho que elas veem, mas que a gente não sabe. A Igreja católica é muito poderosa e em muitos casos sustenta o Estado, eis porque o Estado a sustenta. Eles se sustentam mutuamente e as personalidades que detêm a imprensa e as mídias têm grande participação na sociedade tal como a conhecemos, eis porque todos eles se sustentam mutuamente. Tenho certeza de que há dez milhões de índios que veem fantasmas e que falam com eles todos os dias. Aposto que há dez milhões de pessoas que fazem isso todos os dias por todo o país, mas eles prefeririam lhe falar de qualquer djihad ou lhe contar que o papa beijou um asfalto. É uma conspiração que dura há séculos ou mais ou menos desde a época em que se começou a perseguir as bruxas”.
“Está realmente convicto disso, papai? Parece-me um pouco rebuscado, não acha?”
“É exatamente o que eles querem que você pense! Se puderem destruir os seus argumentos ridicularizando-a, não necessariamente os seus argumentos enquanto tais, então triunfarão finalmente. Sei disso agora, é verdade, mas acabo de chegar a esta conclusão. Tenho muito tempo para pensar nesse momento, desde que sua mãe não tente mais me obrigar a tornar a pintar a porta ou a reparar o teto cada vez que tem a impressão de que vou repousar dez minutos”.
“Mamãe não era assim!”
“Pode acreditar que não era assim, sabe bem disso, mas agora ela morreu. Teve uma vida muito difícil, e nenhum de nós a ajudou como poderia ter feito, então ela queria que eu também trabalhasse duro. Sabe? Não digo que estivesse errada em fazer o que fazia. Isso tornava a vida de todos nós mais fácil, mas ela o fazia, e por vezes eu ia ao pub em lugar de me sentar aqui a me deixar aborrecer por ela porque repousava por algumas horas. Ela não suportava ver alguém que não estivesse trabalhando. Era antiquado… Era normal nesta época. Não me queixo. Eu passava algumas tardes no pub e isso me bastava, e era muito mais do que ela teve”.
“Por falar em trabalho, preciso ir. Vou lavar o chão da cozinha e a geladeira, mas vou precisar voltar para casa e me pôr a fazer a limpeza. Por que não coloca uma cadeira perto da porta da cozinha? Assim vamos poder conversar”.
“Sim, está certo. Não posso mais me inclinar para limpar o chão, do contrário, não conseguiria mais me levantar”.
“Você nunca lavou o chão na vida, mas se o quisesse poderia comprar um esfregão ou uma vassoura. Aliás, vou lhe dar uma pelo Natal, porque você o disse!”
“Você me conhece bem demais, esse é o problema. De qualquer maneira, tínhamos uma divisão muito estrita das tarefas, sua mãe e eu. Eu trabalhava na fazenda e ela se ocupava da casa”.
“Sim, exceto pelo fato de que devia se ocupar dos legumes e das ervas da horta”.
“É evidente, isso fazia parte da casa. Era lá que as velhas mulheres sábias, as feiticeiras, de que eu lhe falava há pouco, faziam brotar suas ervas para que a família fosse forte e saudável. Não era machismo, elas queriam e precisavam deste pedaço de terra. Então, se informe antes de criticar o que não conhece de forma alguma”.
“Ok, ok, desisto. Tudo bem, o chão está limpo, e levaria a metade do tempo com um esfregão, como deve ser. E agora a geladeira”. Ela olhou para o pai, fez o sinal da cruz e abriu a porta.
“Estou entrando”, ela disse. “Meu Deus, está terrível lá dentro!”
“Não exagere”, ele riu. “Me dê uma cerveja, deixe o resto dentro e jogue fora todo o resto, se quiser”, e foi o que ela fez.
“Ok, agora preciso realmente ir. Voltarei amanhã para trocar os seus lençóis e limpar a sala. O que vai fazer esta tarde? Posso levá-lo a algum lugar?”
“Vou precisar refletir… Vamos ver, o que tenho em minha agenda para este belo dia de verão? Oh, meu Deus, creio que a perdi. O que diabos vou fazer agora? Não me lembro de ter marcado nenhum encontro. Nesse caso, vou recorrer a minha boa e velha rotina, vou levar Kiddy para passear na colina até que tenhamos fome suficiente para comer de novo e voltar para contar nosso passeio a mamãe – quantos coelhos vimos, quantas serpentes e quantas pessoas, ou seja, em geral nenhuma”.
“É isso ou então você nos deixa no pub da cidade esperando que alguém queira nos acompanhar de volta a casa. Ah, as decisões, as decisões! Estamos sobrecarregados com elas, não é?”
“Não sei, mas preciso ir, e isso é certo. Quer que eu lhe traga sua pensão amanhã, papai, e a comida e cerveja?”
“Sim, por favor, minha querida. Vamos só fazer um passeio hoje. Talvez vamos ao pub amanhã. Obrigado por tudo o que você fez. Deixe-me acompanhá-la ao seu carro. Transmita meu afeto a sua família, não se esqueça. E agora, onde está meu cachorro?”
«Kiddy! Kiddy! Dewch yma3.» Ela o ouviu chamar enquanto se afastava devagar, observando-o com sua c****a fiel pelo retrovisor. Ela se perguntou por quanto tempo ele ainda iria poder se virar sozinho, isolado de tudo.
Quando Becky foi embora, William voltou a casa, aferrolhou a porta que dava para trás e pegou a bengala no lugar onde ele a guardava e um casaco leve pendurado em um gancho fixado na porta de entrada.
“Tchau, minha adorável Sarah. Logo estarei de volta”, murmurou, antes de também fechar a porta atrás de si.
Ele não precisava de coleira para a c****a, pois ela trabalhara a vida toda com as ovelhas e respondia ao dedo e ao olhar de William. Eles se amavam reciprocamente como duas espécies diferentes podem fazê-lo; saíram ao longo de um de seus percursos, que, cinco anos antes, os teria levado perto da maior parte de suas ovelhas, mas que agora não dava senão para campos vazios. Mais uma vez, ele controlou o céu, por hábito, mas concluiu que ia ser um dia muito bonito pela terceira vez essa manhã.