Minha vida tinha mudado completamente, os três primeiros meses foram de completo desespero da minha parte, eu morria de medo de ser um m***a como pai, de não ser suficiente, de ser odiado pelo meu filho se ele soubesse que eu praticamente fugi sem o outro pai dele saber, os enjôos eram constantes, perdi tanto peso que precisei ficar internado até completar o quinto mês, depois de uma bronca dos meus pais passei a me cuidar melhor, me alimentava melhor também, nessa época meus pais praticamente haviam se mudado para a minha casa, eles me ajudavam em tudo e quando meu bebê nasceu eu deixei meu pai escolher o nome, Kayin, vem do iorubá de origem nigeriana e significa criança muito aguardada, e ele realmente foi muito aguardado, a primeira vez que o peguei nos meus braços foi como tocar o céu, foi saber o que era amar verdadeiramente, e foi o dia mais feliz da minha vida.
Cinco anos haviam se passado, Kayin cresceu saudável e feliz, ele era extremamente apegado aos avós, com cinco anos ele estava na fase de perguntar sobre tudo, e eu morria de medo dele perguntar algo sobre o outro pai, esse que nunca me fez falta, poucas notícias suas eu havia recebido, quando o Kay fez um ano eu lembro de ter lido algo em uma revista sobre o seu casamento, eu nunca o procurei para nada.
Havia conseguido um novo trabalho, na minha área dessa vez, era responsável pelo setor financeiro de uma das maiores empresas do ramo industrial, eu era bastante respeitado, meu chefe era um senhorzinho muito maravilhoso, se chama Marcos e ele tinha total confiança em mim, tanto que por diversas vezes eu representava a empresa em várias reuniões.
Minha vida era em prol do meu filho e meu trabalho, não havia tempo para mais nada, nas minhas horas livres conseguia me aventurar em uma academia, mas fora isso nada mais, nenhum relacionamento, depois que eu Kay nasceu eu me dediquei a procurar um emprego e quando achei foquei.
— Arin, vou precisar que você vá a reunião com a empresa que vai construir a nossa nova cede. — disse Marcos entrando na minha sala — Eles estão jurando que encontraram erros nas planilhas de orçamento que você montou, eles também querem revisar com você.
Eu apenas revirei os olhos antes de responder.
— Se a gente não paga o que eles querem sempre encontram erros. — respirei fundo, eu realmente tinha muito trabalho a fazer, não queria me preocupar com essa m***a. — Eu preciso mesmo ir? Consigo mandar a planilha detalhada para eles ainda hoje por email!
— Foi um pedido do próprio CEO da empresa, você deve conhecer, é a Hernandes Cts.
Parei de digitar na mesma hora, essa era um dos únicos projetos que eu não estava envolvido, o Marcos queria cuidar de tudo pessoalmente, então apenas me pediu para fazer o orçamento, e agora é a empresa do Hernandes, eu não queria encontrar ele, provavelmente nem lembraria de mim, já faz tanto tempo meu deus.
— Marcos... Você não poderia mandar outra pessoa? — me recuperei rapidamente
— Qual outra pessoa? Você que fez a planilha, você que é o chefe do setor! — ele riu logo em seguida e eu o acompanhei, que ideia i****a a minha.
Talvez ele nem se lembrasse de mim, e se ele lembrasse talvez nem significasse nada.
— Que horas é essa reunião?
— As 8, o seu secretário disse que ele só teria esse horário disponível hoje, e como eu quero adiantar as coisas concordei.
— Mas eu tenho que ir buscar o Kay as 8, meus pais ainda não voltaram da viagem! — falei nervoso
— Você inicia a reunião e eu mando o motorista buscar o Kay, e ele fica te esperando na minha sala. — ele sempre tinha um plano, e com aquele rostinho enrugado e aquele sorriso eu não poderia negar.
— Tudo bem então, vou ligar na creche que está com ele e mandar prepararem a sala de reuniões.
Ele concordou com um sorriso e saiu praticamente saltitando.
Eu não consegui me concentrar em mais nada, passei a tarde inteira com as memórias dos nossos encontros na cabeça, as nossas conversas, nossas risadas, o s**o, o toque, o beijo. Eu não estava errado em ter me apaixonado, aquele homem era o caminho da perdição.
Qual seria sua reação ao saber que teria um filho? Me odiaria? Ficaria aliviado de não ter sujado seu nome?
Mas que inferno, se eu tivesse nesse projeto com toda certeza teria escolhido outra empresa, e o Kay vindo para cá também, ele saberia que o Kay era seu filho se o visse? Obviamente o Kay é preto como eu, mas ele tem os olhos dele, uma mistura de verde com amarelo, bem clarinho.
Kay era a personificação de miscigenação, ele era preto, mas tinha os olhos claros e o cabelo cacheados, visto que os meus são crespos.
Vivemos "juntos" por quase cinco anos quando eu simplesmente sumi, não deixei recado nem nada, ele é um homem inteligente, com toda certeza notou algo de errado, e com toda certeza viu minha assinatura nos relatórios, mas esse seria o motivo dessa reunião?
— Eles estão no elevador Arin. — disse minha secretária.
— Já estou indo. — respondi nervoso, minhas mãos tremiam.
Quando ele saiu do elevador seu olhar parecia procurar alguma coisa e com toda certeza achou porque ele não desviou de mim por momento nenhum.
Trocamos cumprimentos e quando apertei sua mão apenas ficamos nos encarando sem dizer uma única palavra, aquilo parecia que tinha durado tempo demais, já que alguém atrás de nós pigarreou.
— Quando li seu nome naquele relatório... — começou dizendo ignorando todos a nossa volta . — Queria ter certeza, ver com meus próprios olhos.
— Sr Hernandes, não acho apropriado...
— Eu gostaria de falar com o Sr Arin a sós. — ele nem esperou eu terminar, sua voz foi firme e todo mundo apenas concordou com a cabeça e eu me vi sem saber oque fazer.
— É mesmo necessário? — Perguntei cautelosamente
— Ou podemos discutir nossos problemas pessoais aqui na frente de todo mundo! — ele respondeu calmamente.
— E quais problemas pessoais você acha que temos? — rebati enquanto seguia para a sala que estava preparada e ele vinha logo atrás.
— Talvez o fato de você ter sumido sem dizer nada, ter pedido demissão pelas minhas costas, por ter me feito pensar que foi algo que eu disse... — ele bateu a porta com força e se sentou. — Eu sofri tanto, passei dias no seu antigo apartamento pensando no que poderia ter acontecido!
— Já faz Cinco anos, isso é sério? — sentamos um de frente para o outro — Você tem que parar de fingir que achou erros nos meus relatórios, fazia isso desde quando eu era sua p**a particular.
— Era isso que você achava que era? — ele definitivamente estava com raiva, mas não chegava a estar descontrolado
— Você ia na minha casa apenas depois do expediente, poucas foram as vezes que conversamos! — respondi exasperado — Que conclusão você queria que eu tirasse?
— Eu te amava, eu estava disposto a terminar a m***a do noivado por você! — ele estava gritando e aquilo estava indo longe demais. — Eu só tinha medo de te assustar por isso era daquele jeito! — ele se levantou e começou a andar de um lado pro outro — Foram quatro anos m***a, você acha possível ficar com uma pessoa nesse período de tempo e não sentir nada?
— Amava? Você chama aquilo de amor? Quantas vezes você dormiu comigo? E quando falo dormir é dormir mesmo! — eu me levantei com raiva — Quem é você pra me cobrar alguma coisa? Eu assistia o homem que eu estava apaixonado ir embora pra sua noiva perfeita depois de passar a noite me fodendo! — Eu jurava que nossas vozes poderiam ser ouvidas por todo o andar — Você fez as regras, Hernandes! Deixou bem claro que não passava de s**o!
— Isso foi no começo, Arin...
— Sabe aonde eu estava? — a minha raiva estava no ápice — Na casa dos meus pais, e sabe porque você nunca me encontrou?? Porque você nunca se interessou em nada além da sua satisfação s****l!
Fomos interrompidos quando alguém bateu na porta e logo ouvimos uma voz.
— Papai? — e então meu coração gelou.
— Você tinha outro? — ele perguntou incrédulo
— Óbvio que não seu i****a, agora tire suas próprias conclusões. — respondi abrindo a porta e logo Kay entrou correndo de encontro a mim.
— Você tá triste papai? — ele perguntou alisando meu rosto — o Vovô Marcos disse que você estava gritando porque estava triste, eu vim tirar sua tristeza papai.
— Tá tudo bem meu amor, o papai não tá mais triste. — respondi beijando seu narizinho
— Kay!!! — disse Marcos aparecendo ofegante na porta — Eu falei pra você ficar lá na sala.
— Tá Tudo bem, Marcos. — respondi carregando o meu filho — Já terminamos aqui.
— Arin... — Ele ainda estava espantado
— Oi, você fez meu papai triste? — Perguntou Kay com o rostinho contorcido
— O...Oi... — ele ficou ainda mais branco depois que reparou nos olhos do garotinho que o encarava com tanta antipatia.
— Até nunca mais, Hernandes, passar bem.
E sem esperar mais nenhuma palavra sai da sala praticamente correndo.
Todo mundo me encarava pelo corredor, todo mundo deve ter ouvido a discussão, que eu era amante daquele desgraçado, ele era um homem famoso e eu tinha medo disso vazar e meu nome ir a lama.
Coloquei o Kay na cadeirinha e acelerei para sair daquele lugar.