Os olhos de Rafael Ferreira se estreitam, a curiosidade brilhando neles. Ele inclina o corpo um pouco para frente, interessado.
— Então está procurando emprego?
Seguro o olhar dele, lutando contra o nervosismo que cresce dentro de mim.
— Sim. — Minto, a palavra saindo hesitante, mas firme o suficiente para não levantar suspeitas. Minhas mãos estão frias, e a tensão dentro de mim cresce a cada instante.
Ele observa por um momento, como se ponderasse sobre a resposta. Depois, com um leve movimento de cabeça, continua.
— O que sabe fazer?
— Eu me formei em secretariado. — Outra mentira que desliza com facilidade, embora minha garganta pareça mais seca a cada palavra.
Ele me encara, o silêncio entre nós estendendo-se. O ambiente parece diminuir, o som da música ao longe quase desaparecendo. É impossível decifrar o que se passa em sua mente, mas a sensação de estar sendo observada me deixa desconfortável. Rafael balança a cabeça devagar, como se estivesse refletindo sobre algo importante, e meu coração acelera.
— Posso te ajudar. Tenho uma vaga pra você. Se quiser, claro.
Minha respiração falha por um instante, e meu coração dispara. Não consigo esconder o misto de surpresa e incredulidade que toma conta de mim. Será que ele está falando sério? Meus pensamentos estão em um caos, mas tento manter a aparência tranquila.
— Sério?
Ele sorri, aquele sorriso confiante que parece ter sido desenhado para desarmar qualquer resistência. Meu nervosismo aumenta. É como se ele tivesse um poder inexplicável de me deixar vulnerável.
— Sim. Mas primeiro quero saber se você tem experiência com crianças?
— Sim, tenho. Quando era mais jovem, eu cuidava da filha do meu vizinhos, uma garotinha de três anos. Dava comida, colocava pra dormir, dava banho...
Ele me interrompe antes que eu continue, o que me faz engolir em seco.
— Ótimo. Você trabalharia como babá pra mim?
"Babá?", penso, surpresa. Pelo que sei, Rafael não tem filhos. Deve ser tio. Respiro fundo, tentando processar a ideia e controlar a empolgação que começa a crescer dentro de mim. Essa oportunidade é boa demais para ser verdade.
— Babá? Sério?
Ele ri de leve, com um tom levemente irônico, seus olhos brilhando com algo que não consigo identificar.
— Sim. Tenho uma sobrinha de cinco anos, Alice. Ela perdeu a mãe há alguns meses. Minha governanta não está dando conta do recado, e meu irmão é... bem, ele só aparece quando bem entende.
Meu coração acelera. Filha de Dante, penso imediatamente. Essa é a minha oportunidade! A peça que faltava nesse quebra-cabeça. Tento disfarçar minha excitação, mas é difícil esconder o brilho nos olhos.
— Eu adoraria.
— Só que você terá que dormir no emprego.
Isso é ainda melhor do que eu poderia imaginar. Meu peito se enche de esperança, mas também de uma adrenalina inquietante.
— Tudo bem.
Rafael sorri, um sorriso quase orgulhoso, e me puxa para mais perto, como se já tivéssemos feito um pacto silencioso. A proximidade me deixa desconcertada, e eu desvio o rosto, tentando manter o foco enquanto a música lenta nos envolve. Tudo isso parece surreal. Conheci Dante hoje, dancei com ele, e agora o irmão dele me oferece um emprego. É como se tudo estivesse acontecendo rápido demais, e a sensação de que isso pode dar errado me causa um frio na barriga.
Quando a música acaba, Rafael se afasta gentilmente e tira um cartão do bolso. Seus movimentos são suaves, mas carregados de confiança.
— Me ligue amanhã no escritório e peça pra minha secretária te passar o endereço da minha casa. Vou avisar que você vai ligar, Rebeca Silva.
O modo como ele pronuncia meu nome, quase saboreando cada sílaba, me faz corar levemente. É como se ele estivesse testando o peso das palavras, experimentando meu nome como algo precioso.
— Claro. — Olho para o relógio, sentindo que preciso ir. O mundo parece ter se acelerado. — Está ficando tarde. Eu vou indo.
Ele arqueia as sobrancelhas, parecendo um pouco desapontado. O ambiente ao nosso redor parece mais silencioso, como se as luzes e sons da festa tivessem diminuído para nos observar.
— Já? Tão cedo?
— Estou cansada. Passei o dia inteiro procurando emprego e quase desisti de vir.
Rafael sorri lentamente, o tipo de sorriso que parece carregar um convite perigoso. Meus instintos me alertam, mas eu permaneço ali, intrigada.
— Sente-se comigo só um pouco, então.
— Tudo bem, eu me sento. — Minha voz é firme, mas o nervosismo ainda pulsa em mim.
O olhar de Rafael se fixa na ponta do cigarro aceso antes de voltar a mim, os olhos azuis brilhando com algo entre a curiosidade e a dor. Há um abismo ali, um mistério que me atrai e me assusta ao mesmo tempo.
— O que houve com você e seu pai?
De repente, ele me questiona, e eu sinto um nó se formar na garganta, desconfortável com a direção que a conversa está tomando. Respiro fundo, mas acabo respondendo:
— Ele era uma pessoa difícil, muito turrão. Para ele, mulher só servia para molhar a barriga no tanque e secar no fogão.
Rafael solta uma risada curta, mas há algo mais profundo em seus olhos, um entendimento que me deixa inquieta.
— Você é filha única?
— Não. Tenho um irmão, dois anos mais velho, com 25.
Ele balança a cabeça, os pensamentos parecendo viajar para longe.
— E como ele reagiu quando você saiu da fazenda?
Desvio o olhar, lembrando da sensação de alívio ao deixar aquele ambiente monótono para trás.
— Ficou contrariado, mas não brigamos. Ele confiava na minha tia. Sabia que eu estaria em boas mãos.
Rafael me encara por um momento longo, a intensidade no olhar fazendo com que eu me mexa desconfortavelmente na cadeira.
— E sua mãe?
O ar ao meu redor parece mais pesado. Suspiro profundamente, tentando manter a compostura.
— Ela morreu quando eu tinha 15 anos.
— Sinto muito. — Ele abaixa os olhos, sua voz carregada de sinceridade. — Isso ainda te afeta, não é?
Dou de ombros, querendo mudar de assunto.
— Verdade, mas eu não quero falar sobre isso. E você? Qual é a sua história?