Missão

1078 Words
Dante Eu estou agitado. O carregamento que receberei amanhã é muito importante. Tanto que irei pessoalmente ao local. Me deito na cama com a imagem de Rebeca. Mas que merda! Digo quando me vem a mesma angústia e frustração por ela me resistir. Eu não gostaria de estar me sentindo assim, preso nessa gaiola. Gostaria de poder confiar a ela todos os meus demônios interiores. Mas sei que é exigir muito de uma jovem como Rebeca. Ela é tão certinha e não aceitaria o que eu faço. Eu mesmo tenho consciência que meu lado obscuro afasta as pessoas quando revelado. Por isso eu me escondo. Oculto o que sou das pessoas que eu amo. Esse lado tenebroso só meus homens sabem. Tudo isso tem um preço: a solidão. Eu posso estar cercado de pessoas, mas as que eu realmente amo, jamais poderei me abrir. Se Rafael tem tudo o que tem hoje, foi porque eu dei o primeiro empurrão. Quando ele não era nada, quando m*l conseguia se virar, fui eu quem arranjou dinheiro e ajudou a montar a imobiliária. Eu já estava envolvido com gente perigosa, e consegui um empréstimo que não veio de banco nenhum. Dinheiro sujo, que virou investimento limpo no nome dele. Ele sempre foi mais cauteloso, mais correto, mas eu sabia que, sem esse impulso, ele ia ficar para trás. No fundo, Rafael sabe que deve a vida confortável dele a mim. Pode não querer admitir, mas sem minha ajuda, ele ainda estaria contando moedas. Eu sou o cérebro por trás do abastecimento do Morro de Ouro. Cuido da conexão direta com os fornecedores bolivianos, garantindo que a mercadoria chegue sem falhas. Uso intermediários de confiança, caras que sabem negociar sem chamar atenção. Meu bar e minha oficina são apenas fachadas, pontos estratégicos para manter o fluxo de dinheiro parecendo limpo. O trabalho sujo de legalizar essa grana fica por conta do meu contador e advogado, especialistas em apagar rastros e despistar qualquer investigação. Já passei na malha fina da Receita Federal diversas vezes, e eles nunca conseguiram me pegar. Eu sou cuidadoso, sempre um passo à frente. Cada centavo que entra e sai tem um propósito, e eu garanto que ninguém consegue ligar os pontos diretamente a mim. Sempre fui comedido. Por causa da minha vida, nunca pude viver a plenitude com ninguém. Foi assim com Selma, a mãe de Alice. Consegui manter nossa relação na superficialidade. Eu saía com ela por uma boa transa, mas não me deixava prender. Isso até que ela ficou grávida. Lembro-me de quando ela me deu a notícia. Eu fiquei forte ali, mas por dentro estava um turbilhão. Disse que assumiria, mas saí de lá transtornado, arrasado. A ideia de ser pai me dava mais medo do que o mundo em que eu vivia. Depois disso, me afastei de Selma, sempre com uma desculpa. Comecei a vê-la poucas vezes. A barriga dela me incomodava. Os pais dela nunca gostaram de mim, e eu via isso como uma vantagem. Quanto mais me detestassem, menos iam me cobrar alguma atitude. Eu fomentava essa aversão, deixava claro que casamento não estava nos meus planos. E na época, eu não tinha nada a oferecer. Ainda estava me reerguendo, consolidando minha posição no jogo. Ela acabou morrendo depois de ter Alice, por complicações do parto. Tinha diabetes e pressão alta. Os pais dela quiseram a guarda da criança. Mas quando vi minha filha, eu soube que ninguém tiraria ela de mim. Fiz o que precisava ser feito. Mostrei a eles meu verdadeiro eu, e eles desistiram de lutar. Alice era minha, e ponto final. Minha filha hoje é a minha vida. Eu a amo. Sei que a vida que levo me afasta dela. Às vezes, eu temo que ela se apegue demais a mim. Mas, ao mesmo tempo, não quero que Rafael a assuma, que a tire de mim. Ela é a única coisa pura que eu fiz na vida. Rebeca, Rebeca... Tenho tido um pressentimento r**m em relação a ela e sinto que preciso ficar atento. Seus olhos são muito expressivos, receptivos demais aos meus, e me intriga o fato de ela ter me rejeitado como se eu fosse o último homem na Terra com quem se envolveria. Fez isso como se soubesse de algo. Como se soubesse quem eu sou. E isso está começando a me preocupar. Isabela Acordo cedo. Vou sair de casa sem explicações. Aproveitarei a viagem de Rafael e irei embora. Depois ligarei para ele e darei alguma desculpa. Espero no quarto até o momento certo de sair. Ouço todos os movimentos da casa até ela se silenciar. Isso acontece lá pelas nove e meia. Dante já deve ter saído. Afinal, o carregamento chegará às dez horas. Deus! É hoje que ele será preso. É hoje que ele será surpreendido. Meu coração se aperta em desgosto. Rejeito isso e enxugo uma lágrima que caiu. Resolvo dar uma olhadinha na casa antes de ir embora. Não vou me arriscar a sair com as malas sem checar tudo primeiro. Quando coloco os meus pés na sala, Dante sai do corredor. Droga! Ele veste uma jaqueta de couro, por baixo uma camisa branca e uma calça preta. Seus ombros largos estão bem destacados pelo corte bonito da jaqueta, que também revela seus quadris estreitos. — Bom dia. — Ele diz de um jeito seco. E, mesmo assim, cada polegada de mim fica em chamas. Ele então passa os olhos pelo meu vestido e se detém por um momento no meu decote. Então eles sobem e procuram a minha boca. Seu rosto se transtorna, seus olhos antes hostis ficam quentes. [...] Deus! Eu me sinto uma traíra, mas ele que está no mau caminho e eu apenas estou fazendo meu trabalho. Dante me olha de maneira ilegível e sai. Sento-me no sofá e abaixo a cabeça, infeliz. Limpo as lágrimas dos meus olhos. Passam-se dez minutos até que eu consiga me levantar e chamar um táxi para mim. [...] Dante Passo pela portaria e alcanço a calçada. Leleco e Ronilson me esperam. Eles me cumprimentam com um aceno de cabeça. — Ronilson, tenho uma missão para você. Lembra da moça que levei no bar? Você se lembra bem dela? Lembra da fisionomia dela? — Sim, chefe. — Você não irá conosco nessa entrega. Quero que fique aqui. Sem escoltas. Leleco vai comigo. Eu vou com meu carro. Você ficará atento. Se ela sair, quero que a siga. — Ok, chefe.
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