Leandro passa a mão pelos cabelos curtos, um gesto quase frenético que revela sua frustração. Seus olhos queimam com uma mistura de raiva e algo que não consigo decifrar completamente.
— Quero que no sábado você invente uma desculpa e desista desse emprego.
Meu coração dispara, e a indignação me faz reagir sem pensar.
— Não! — digo, minha voz firme, cortando o ar entre nós.
Leandro avança na minha direção, os olhos brilhando com algo entre desespero e furor contido. Por um momento, penso que ele vai me tocar, mas ele para a poucos centímetros de mim, sua presença tensa e esmagadora. O espaço que nos separa parece pequeno demais, e ainda assim, há um abismo de coisas não ditas entre nós.
— Você não percebe que está tirando minha paz de espírito?
Dou um passo à frente, recusando-me a recuar diante dele. Nossos olhares se encontram, e tento suavizar minha expressão, mesmo que por dentro minha mente esteja um caos. Seguro sua mão, apertando-a levemente.
— O que você viveu no passado não pode definir o seu presente. Eu sei que você ficou traumatizado, Leandro. Eu entendo. Mas não pode deixar isso te dominar para sempre.
Ele balança a cabeça, um suspiro pesado escapando de seus lábios. Sua voz sai angustiada, quase cortante.
— Confesso que isso pesa, sim. Mas é muito mais do que isso. Você não entende! — Seus olhos cravam nos meus, carregados de uma intensidade que quase me faz recuar.
Ele se vira abruptamente, as mãos se fechando em punhos ao lado do corpo. Seus ombros estão tensos, subindo e descendo ao ritmo de sua respiração acelerada. Leandro está lutando contra algo dentro de si, algo que não me permite acessar, algo que ele insiste em carregar sozinho.
Meu peito se aperta, mas não posso recuar agora.
— Então me explica, Leandro. Por que você está tão nervoso? Existe algo nesse caso que eu não saiba?
Ele se vira de repente, e seus olhos brilham com um misto de dor e algo mais... algo perigoso. Meu corpo se arrepia.
— Há uma explicação. Juro que tentei lutar contra isso, mas não consegui. — Ele faz uma pausa, as palavras parecendo um peso em sua língua. — Você está no meu sangue, Isabela.
Minha respiração trava.
— O que você quer dizer com isso? — murmuro, a voz trémula.
Leandro dá mais um passo, nos reduzindo a uma distância quase inexistente. Seu olhar me prende, e sua voz sai grave, carregada de algo profundo, quase bruto.
— Eu te amo. Com todas as letras. Se existir uma palavra mais forte que essa, eu usaria.
O ar some dos meus pulmões. Eu não esperava por isso. Leandro sempre foi uma figura intensa, mas nunca o vi por essa perspectiva. Sempre mantive nossos limites bem definidos. Nosso trabalho não permite envolvimentos, e essa é uma regra que nunca me permiti quebrar.
Minha mente está em caos. Eu deveria falar algo, mas nada me ocorre. Apenas o encaro, sentindo o peso esmagador da sua confissão.
— Pelo amor de Deus, Isabela! Fala alguma coisa! — ele implora, sua voz quase desesperada.
Eu respiro fundo, o coração batendo em um ritmo caótico.
— Desculpe-me, mas... eu não sei o que dizer. — Minha voz sai baixa, quase um sussurro.
Leandro não recua. Ele se aproxima ainda mais, e seu olhar se agarra ao meu, como se quisesse encontrar em mim a resposta que ele tanto precisa.
— Eu senti você vibrar nos meus braços, Isabela. Me diz que eu não sonhei com isso.
Meu corpo enrijece, meus olhos piscam rapidamente, como se tentar focar me ajudasse a organizar meus pensamentos. Mas é impossível. Ele me jogou no meio de uma tempestade sem aviso.
— Eu... eu não sei... — gaguejo, incapaz de conter a torrente de emoções que ameaça me dominar.
Ficamos ali, estáticos, imersos em um impasse denso e cortante. Leandro me observa como se minha próxima palavra pudesse definir seu destino. Mas eu não tenho as palavras que ele deseja. Porque, por mais que algo dentro de mim reconheça sua dor, eu sei que não posso me entregar.
Se eu o amar, ele me dominará. E isso é o que menos quero agora.
— Desculpe-me, mas eu não sei o que dizer.
A expressão dele endurece, mas não se move. Seu olhar continua preso ao meu, esperando, esperando... Mas tudo que consigo fazer é permanecer ali, estacada como um poste, ofegante, sentindo o peso desse momento gravar-se em minha pele.