Dante está na casa. Dante Ferreira em pessoa.

1106 Words
Quando a governanta o ouve, pede licença e sai. Rafael me encara com um olhar intenso, como se tentasse decifrar algo em mim. Eu me sento na cama, e Rafael se senta à minha frente. — Não quero que Alice se apegue muito a você. Esse é o motivo de eu não tê-la chamado. Caso um dia você vá embora, ela sentirá muito. A sensação de vazio surge no meu peito, pois me faz lembrar de quando minha mãe morreu. Eu o encaro com compreensão. — Eu te entendo. — Desde que Alice veio para cá, eu me sinto diferente. Mais com os pés no chão. Nunca pensei em formar uma família. Acho que não tive um bom exemplo para que me fizesse desejar uma. Mas hoje percebo que isso será necessário, pelo bem de Alice. Meu Deus! Ele estava fazendo planos com a sobrinha. m*l sabe ele que Dante já fala em levá-la daqui. — O que você quer dizer com isso? — pergunto para confirmar o que estou pensando. — Que vou parar com essa minha vida patética, descompromissada, e vou começar a pensar em me casar. Gostaria que Alice tivesse uma família de verdade. Suspiro infeliz. Deus! Eu preciso prepará-lo: — Rafael, não faça isso. Não gere expectativas. Dante quer levar Alice. Ele é o pai. — Isso é uma coisa que eu não posso permitir. Eu engulo em seco. — Infelizmente, a lei está a favor dele. — Lei? Você não tem ideia do que Dante representa. Ele é a semente do m*l, e eu pensei que fosse esperta o suficiente para ficar longe dele. Um longo suspiro escapa da minha boca. — Rafael, ele me perguntou se eu iria com ele caso levasse Alice. Eu disse que irei. Rafael se levanta da cama como se tivesse levado um choque. — Eu não acredito! Meu peito se aperta. — Eu juro que tentei convencê-lo, mas ele parece resoluto. Ele me encara com sangue nos olhos. — Você trabalha para mim, não para ele. Com essa sua atitude, você traiu minha confiança. Meu coração dispara ao ouvir sua voz grave, exaltada, e eu me levanto. Rafael me encara, demonstrando seu desgosto. — Rafael, não percebe que ele a levará, eu indo ou não? Pelo menos, eu estarei com ela. — Você poderia ter negado. — Eu argumentei. Quem sabe ele desistirá? Vou tentar conversar com ele. Estou dividida, essa é a verdade. Meu objetivo é prender Dante. Definitivamente. Será uma oportunidade, estarei de ouvidos atentos, e cuidaria de Alice, mas Rafael não sabe disso. Ele balança a cabeça, cético. — Espero que consiga. Boa noite para você, mas saiba que estragou a minha. Quando Rafael sai, imediatamente fecho a porta e a tranco com chave. Vou até minha mala e pego meu celular. Droga! O celular está descarregado! Coloco-o para carregar e ligo. Na hora, o visor aponta três mensagens. Às oito horas: "Quando puder, me liga!" Às nove e dez: "Espero que esteja tudo bem. Por que a demora em me ligar?" Dez horas: "Me liga ainda hoje ou eu juro que vou aí." Leandro Estou no bar, sentado ao redor de uma mesa redonda com o pessoal do trabalho. Estou quieto e inquieto. À minha direita está Tânia e, do outro lado, Heitor. No fundo, vejo Helena, dona do bar, me olhando com um ligeiro olhar preocupado no rosto. Desvio os olhos dela e, com um suspiro, pego meu celular novamente e vejo as mensagens debaixo da mesa. — O que tanto você olha no celular? — Heitor me pergunta. Eu o ignoro e me levanto da mesa, indo até a bancada. Sento-me, irritado. — Tenho te observado, você não está bem — a voz de Helena sopra em meu ouvido. Eu encaro minha amiga. — Estou preocupado. Assuntos de trabalho. O barman se aproxima de mim. — Me vê um uísque. — Trabalho mesmo? — ela me pergunta, sua voz soa mais vulnerável. Eu a encaro, sem mover um músculo do rosto, e pego um cigarro. Estou irritado. Não sou uma boa companhia hoje. Sinto-me doente. A boca dela treme quando ignoro sua pergunta. Droga! — Desculpe, mas eu não estou bem. Não sou uma boa companhia hoje. Seus olhos estão fixos no meu rosto, suas sobrancelhas levantadas. Meu celular vibra e meu coração dispara. Bebo num gole só a dose do meu uísque e jogo o dinheiro no balcão. Há explosões de riso em outras mesas, gemidos, mas tudo isso desaparece. — Meu Deus, Isabela! Por que está me ligando só essa hora? Isabela Meu coração se aperta quando ouço a voz de Leandro. A saudade da minha vida sem aquele turbilhão de emoções se intensifica. Eu me sento no chão, perto da tomada, para que o celular continue carregando. — Me perdoe. Eu acabei pegando no sono. — Digo baixo. — Droga! Você sabe que me preocupo. — Eu podia escutar a respiração dele acelerada no bocal. — Você continua segura? Está tudo bem? Bem até demais. Não queria ainda falar de Dante e da possibilidade de me mudar para a casa dele. Só falaria da presença dele na casa. — Isabela, você está me ouvindo? — Sim, Dante está na casa. Dante Ferreira em pessoa. Há silêncio do outro lado da linha. — Mas que p***a! Você não vai se envolver com esse cara. Está me ouvindo? Não se arrisque. — Eu ouvi. — Acho melhor você abortar a missão. — Nunca! — Deus, Isabela, você está se arriscando. — Eu vou até o fim. Leandro geme. — Fique de ouvidos abertos e só. Você ouviu o que eu disse? — Sim. — Como ele tem visto você na casa? Foi bem aceita? Você acha que ele desconfiou de algo? — Não. Está tudo bem. Escuto o sopro abafado do outro lado da linha. — Qualquer coisa, me liga. — Eu sei. Pode deixar, eu ligo. Obrigada! — Isso não é tudo. Agora que ele está aí, tome mais cuidado com o celular. Você está me entendendo? — Pode deixar. — Você consegue manter sua porta trancada à noite? — Sim, eu passo a chave. — Ótimo. Então não se esqueça de sempre trancá-la. Eu fecho os olhos e imagino Leandro. Ele deve estar com a barba de um dia por fazer, as ruguinhas envoltas dos olhos preocupados. Suspiro. — Estou com saudades. — Ele diz num tom sofrível. Eu sorrio. — Eu também. — Mesmo? Verdade mesmo? Imagino seu sorriso do outro lado da linha. — Verdade. Ele suspira. Resolvo encerrar logo a conversa. — Boa noite. — Digo e desligo o celular.
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