Dia difícil.

1167 Words
Horas mais tarde... Dante A noite avança, e eu continuo afundado no sofá, o copo de uísque girando entre os dedos. Se eu não me anestesiar hoje com a bebida não conseguirei dormir. O peso do dia esmaga os meus ombros como uma marreta invisível. Perder oito homens em uma só emboscada não é apenas um golpe nos negócios, mas uma afronta direta ao meu nome. Eu sempre estive no controle. Sempre. Mas dessa vez, a sensação de que o chão foi arrancado debaixo dos meus pés me assombra. A música baixa ainda ressoa no ambiente, um fundo melancólico para a tempestade que ruge dentro de mim. "November Rain" toca, e eu fecho os olhos, sentindo a melodia cortar fundo. Sempre gostei dessa música, mas hoje ela pesa diferente. Hoje, cada nota parece ecoar a minha frustração, minha solidão. Então sinto a presença dela. Abro os olhos e vejo Isabela parada na entrada da sala. O seu olhar tenta ser neutro, mas percebo algo ali. Um lampejo de curiosidade, talvez? Ou será preocupação? Não sei ao certo, mas sei que a presença dela tem um efeito estranho em mim. Um efeito que eu odeio admitir. — Aconteceu alguma coisa? — ela pergunta. Solto um riso fraco, quase sem humor. Claro que aconteceu. O mundo que passei anos construindo sofreu um baque, e eu sei que não posso demonstrar fraqueza. Mas diante dela, por algum motivo que não entendo, a armadura parece mais pesada de carregar. — Dia difícil. — murmuro, tomando outro gole do uísque. Ela se aproxima, desliga o som e me encara. Os seus olhos verdes são intensos, perspicazes. Sinto como se ela pudesse enxergar além do que quero mostrar. Isso me irrita e me fascina ao mesmo tempo. — Dante, Alice dorme essa hora. — A voz dela é firme, mas não acusatória. Observo o jeito como ela fala sobre Alice. A naturalidade. A leveza. Como se a menina fosse parte do mundo dela. Um mundo ao qual eu nunca soube pertencer. — Tudo bem. — Assinto, passando a mão pelos cabelos bagunçados. — Eu já ia desligar. Mas a verdade é que eu não ia. Eu teria ficado aqui, afundado no sofá, remoendo a derrota. Sinto os olhos de Isabela sobre mim e me forço a erguer o olhar. O que ela vê quando me encara? Um desajustado? Ou algo além disso? Ela hesita por um segundo antes de dizer: — Você não está no seu normal. O que aconteceu? Solto um suspiro longo, pesado. — Tudo! Sabe quando você tem certeza de que dará tudo certo, que tem tudo sob controle e, de repente, as coisas fogem das suas mãos? E o mais intrigante de tudo é que você nem sabe como isso aconteceu! Não entendo por que estou dizendo isso. Não deveria. Não para ela. Mas, por alguma razão, a voz sai antes que eu possa conter. Isabela engole em seco, mas mantém a postura. — Vai descansar. Você está precisando. Observo seu rosto por um momento, estudando sua expressão. Há uma calma controlada ali, mas sei que é só aparência. Ela sempre parece estar no controle, mas já percebi os deslizes. Os momentos em que seu olhar vacila, quando seus dedos tremem levemente ao segurar um copo. Ela não é tão impenetrável quanto tenta parecer. — Eu vou. — Finalmente digo. Mas antes de me afastar, dou um passo na direção dela. Meus olhos correm pelo rosto de Isabela, buscando algo. Talvez um sinal de que ela me veja como mais do que um monstro. — Sabe por que eu vou? — murmuro, batendo o dedo indicador na têmpora. — Porque eu já tenho tudo aqui. — Dou um leve sorriso irônico. — E eu vou descobrir quem foi o X9. Os olhos dela se estreitam, mas não dou espaço para questionamentos. Me viro e caminho para meu quarto, mas a inquietação me acompanha. Há algo diferente nessa noite. Algo que não consigo nomear. E o pior de tudo? Pela primeira vez em muito tempo, não sei se gosto ou odeio essa sensação. Isabela Engulo em seco com o comentário dele sobre o x9, m*l sabe que fui eu que melei os seus planos. Nesse instante, ouço chaves na porta e Rafael surge por ela. Dante passa os dedos pelos cabelos e diz: — Boa noite. Acho que durmo até amanhã. Rafael olha com desagrado para o irmão, que se afasta em direção aos quartos. — E Alice? — Ele me questiona. — Estela está com ela. — Hoje vou levar um cliente na boate. Gostaria de ir comigo? Suspiro. Não, doce Rafael. O meu papel com você se foi. Não tem mais razão para eu sair com você. — Desculpe-me, mas, como te disse, não gosto muito do ambiente. — Nem para me fazer companhia? Por que pode sair com o meu irmão e comigo não? — Porque fui com o objetivo de tentar ser amiga dele, por causa de Alice. E tentar convencê-lo de que o melhor é ela estar com você. — As coisas mudaram, e até para mim as palavras soam falsas. Ele se aproxima de mim e diz pausadamente: — Esqueça o meu irmão. Se ele fosse uma pessoa diferente, eu mesmo te incentivaria. Mas ele não é uma boa companhia, entendeu? Eu sei e como eu sei! — Entendi. Ele solta o ar. — Vou tomar um banho, ficar um pouco com Alice e sair. Sorrio levemente para ele. — Boa noite. Ele me diz suavemente: — Boa noite. Vou até o meu quarto e fecho a porta. Meu coração ainda martela no peito, a tensão do dia pesando sobre mim. Estou com medo de Dante vir ao meu quarto. Mas sacudo esses pensamentos. Do jeito que ele está exausto, acho difícil. Ele dormirá até amanhã. Deitada na cama, só de calcinha e sutiã, encaro o teto, tentando esvaziar a mente. Mas falho miseravelmente. A imagem dele surge, perturbando meus pensamentos. Seu rosto, seus olhos verde-azulados tão intensos, a boca sexy e pecaminosa. Fecho os olhos, e o cheiro dele me invade—tabaco, roupa lavada, sabonete. É tão vívido que por um instante sinto como se ele estivesse aqui, ao meu lado, me observando no escuro. Respiro fundo e pego um livro que trouxe, tentando me distrair. Mas meus olhos deslizam pelas páginas sem absorver uma única palavra. Quando percebo, estou novamente imersa naquela lembrança, naquela presença esmagadora. A imagem de Dante ressurge, aquele miserável que me fascina e me atormenta ao mesmo tempo. Um d***o em forma de gente. O tempo passa, e quando o relógio marca dez horas da noite, decido me mexer. Vou até a mala, pego o celular e o seguro por um instante, hesitante. Quando finalmente desbloqueio a tela, uma mensagem pisca. Leandro tinha me mandado uma mensagem no momento exato em que desliguei o celular, cortando suas palavras. Meu peito aperta. "Detesto quando faz isso! Me liga a noite, não vou te cobrar nada, apenas conversar. "
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