Ele me beija no pescoço, seus lábios quentes ficando um segundo a mais do que o necessário, a pressão suave sobre minha pele criando um arrepio que percorre minha espinha. Fecho os olhos por um instante, sentindo o calor de sua proximidade, a tensão no ar crescente, mas a voz rouca dele me tira do transe.
— É? Falando nisso, onde está minha pequena?
Dante aguça os ouvidos, seu olhar vasculhando o ambiente com aquela atenção predatória, como se estivesse caçando algo. Aproveito o momento, meu coração batendo descompassado, e me desvencilho rapidamente, escorregando para fora do abraço apertado, agachando-me com agilidade.
— Saíram todos. Seu irmão a levou para uma sorveteria com a namorada.
Ele solta uma risada baixa, algo entre surpresa e diversão, um som que me faz tremer por dentro, ainda que eu tente esconder.
— Rafael? Trouxe uma mulher para casa? As coisas mudaram na minha ausência.
Cruzo os braços, tentando disfarçar o desconforto que queima no meu pescoço, onde ele ainda deixou uma marca quente de seu toque.
— Por que diz isso?
— Ele nunca se firmou com ninguém.
Dou de ombros, tentando parecer indiferente. Não é da minha conta, mas Dante se aproxima de novo, reduzindo o espaço entre nós, seu corpo exalando uma pressão que me envolve, me aprisiona. O ar fica espesso, carregado de algo que me sufoca, mas ao mesmo tempo, me atrai. Sinto a urgência dentro de mim para sair dali, correr, escapar para o meu quarto... Mas, não. Eu não posso.
Seus olhos brilham com uma tranquilidade falsa. A escuridão dentro dele é evidente, mesmo que ele tente escondê-la. Ele é um monstro, e eu sei disso. Mas é um monstro que me atrai, que provoca cada centelha de nervosismo e desejo dentro de mim.
Ele coloca uma mão em minha cintura, os dedos deslizando devagar, provocando-me, como se estivesse testando os meus limites.
— Dante! Por favor.
Ele me encara com um sorriso torto, os olhos vazios de qualquer remorso. A voz dele sai rouca, como um convite silencioso, mas inegavelmente tentador.
— Só um beijo. Se soubesse o quanto pensei em você essa semana, não me negaria um beijo.
Meu coração acelera, uma mistura de desespero e desejo. Queria gritar, dizer que ele precisa pensar em sua filha, em sua vida, que esse caminho, esse abismo que ele segue, vai levá-lo à ruína. Mas as palavras morrem na minha garganta. Sua presença me desorienta, me faz perder o foco. O toque dele me paralisa. A proximidade... a intimidade... Tudo me enfraquece.
— Dante, por favor. Tome um banho, e eu preparo algo para nós.
Ele solta uma risada abafada, a voz cheia de intenções inconfessas.
— Minha linda Rebeca... Eu não costumo pedir, sabia? Tenho sido paciente com você. Percebeu? Quando te falei que pensei em você essa semana... foi sério. Minha cabeça está cheia, mas ainda houve um grande espaço para você nela.
— Eu sou a babá da sua filha. — a minha voz sai mais fraca do que eu gostaria, um sussurro que quase me trai. Não consigo dizer " a sua amiga" porque não sou mais. Nem sei quem sou perto dele.
Deus, eu sei o que sou: sou a policial que vai colocar esse homem atrás das grades.
Dante gargalha, o som quente e profundo, cheio de algo que me consume por dentro. Ele me solta, mas não antes de roçar os seus dedos pelo meu braço, provocando uma onda de arrepios.
— Tudo bem, linda Rebeca. Eu volto já.
Eu engulo em seco.
— Está certo!
Se ele fosse qualquer outra pessoa...!
Uma dor apertada se instala no meu peito, e, como um reflexo, me lembro de Heitor. Me lembro da missão, da razão pela qual estou ali. Dante precisa pagar pelos seus crimes.
Idiota! Canalha! Verme!
Ele sai, assobiando "Hey Jude", como se nada estivesse acontecendo. O som melancólico da música preenche a casa enquanto ele desaparece pelo corredor. Aproveito a chance e o sigo, como uma sombra. Quando o chuveiro começa a correr, entro no quarto dele. Minhas mãos vasculham suas roupas espalhadas pela cama. Nada! A frustração me consome.
Na cozinha, preparo dois sanduíches, as mãos tremendo levemente. Minutos depois, Dante surge, sem camisa, os cabelos molhados caindo sobre seu pescoço, gotas de água deslizando por seu peito musculoso. Meu coração dispara. Ele parece mais magro, mas ainda assim, há uma força visceral em seus movimentos. A tatuagem da águia no braço — suas asas abertas em um grito silencioso — parece ainda mais ameaçadora agora. E mais sedutora.
Eu me sinto vulnerável, como uma presa à mercê do caçador.
— Pronto. Me sinto novo em folha! — Ele sorri, a voz mais suave, mas seus olhos ainda carregados daquela intensidade que me corrói por dentro.
— Fiz para você. — Estendo o sanduíche, tentando manter a voz firme, mas meu corpo trai a mim mesma.
Ele pega o lanche e se senta, despreocupado, no banco da cozinha. Seus olhos, sempre em mim, me estudam, e eu não posso desviar. Não posso ser fraca. Preciso resistir.
Ele deve ser irresistível para qualquer mulher que não conheça o homem que ele realmente é. Mas eu conheço e o temo. A beleza dele, tão atraente, é só uma capa, uma fachada que esconde toda a podridão por dentro. Cada palavra que sai de sua boca, cada sorriso que ele me lança, é uma mentira que me desestabiliza. O medo se mistura com o desejo, e o desejo me empurra para frente, mesmo quando sei que devo recuar.
— Caprichou, hein?! — Ele sorri e pega uma cerveja na geladeira, bebe tudo de uma vez. O movimento bruto, quase animal, faz meu estômago se revirar.
Ele volta para a banqueta, sentando-se ao meu lado, os olhos fixos em mim, analisando cada reação minha.
Faço um sanduíche para mim, mas tento não me entregar. Preciso parecer natural. Dante me desconcerta, me faz perder o controle de mim mesma, e isso me incomoda.
Ele termina de comer e me olha com um sorriso lascivo. Algo que me faz apertar os punhos, mas eu me forço a ficar calma.
— Você pode parar de me olhar desse jeito? — Eu digo, a voz tremendo, mesmo que eu tente parecer firme.
Ele ri, a gargalhada baixa, cheia de intenção.
— De que jeito?
— Você sabe.
Ele finge inocência, levantando as sobrancelhas, e se levanta. O movimento é tão suave, quase como se estivesse se divertindo com a minha angústia.
— Tudo bem. Vou deixar você comer em paz. — Sua voz desce em um sussurro, suave como seda, mas com um peso que me faz estremecer. — Estarei na sala.
— Não me espere. Vou me deitar.
Ele me observa, como se estivesse avaliando a situação, o olhar tão penetrante que parece desfiar minha alma.
— É cedo para se deitar. Podemos conversar um pouco, o que acha?
A palavra "informação" ecoa na minha mente como um grito. Isso é o que eu preciso. O que eu estou buscando.
— Conversar? — Eu repito, tentando disfarçar a empolgação que se insinua no fundo da minha voz.
Ele sorri, e há algo diferente nesse sorriso, como se ele estivesse prestes a me oferecer algo que eu não posso recusar.
— Faz o seguinte: arrume a mala de Alice. Eu preciso fazer uma ligação. Depois nós conversamos.
Eu já arrumei, mas confirmo.
— Ok.
Engulo meu sanduíche, engolindo também o medo e a ansiedade que me consomem. Saio da cozinha, sentindo o peso do olhar de Dante sobre mim. Vou até o quarto de Alice, meu coração batendo rápido demais. O que ele vai dizer? Que ligação é essa? Isso deve ser importante!
Enquanto ele está ocupado, dou o melhor de mim para não ser descoberta.
Saio de lá e caminho silenciosamente pela casa. Vou até o quarto de Dante, abro a porta de leve. Ele não está lá. Me dirijo à sala e o vejo na sacada com o celular na mão. Ele está impaciente. Eu me escondo no corredor escuro e ouço:
— Merda de operadora!
Corro para o quarto de Alice, percebendo que ele saiu de lá. Ouço a porta do seu quarto se fechando.
Ele vai usar o telefone fixo!
Corro para a sala, espero um pouco, e então, devagar, pego a extensão.
— O carregamento chega amanhã às dez horas. — Alguém informa com um forte sotaque boliviano, arrastando as palavras e deixando claro que o português não é sua língua materna.
— Vou te passar o endereço da entrega. Anota aí. — Dante pergunta, direto. Na antiga estrada velha... aquela fábrica de tecidos abandonada.
—É seguro o lugar?— O boliviano hesita, o sotaque carregado, a voz baixa e apressada, como se quisesse despachar a conversa o mais rápido possível.
— Claro, tanto que amanhã estarei lá pessoalmente com o dinheiro.
Coloco o fone devagar e, com o coração acelerado, caminho sem fazer barulho até o quarto de Alice. Dante sai do quarto e me vê entrando.
Droga!
Fecho a porta. Fico encostada nela. Faço uma prece para ele não entrar agora. Eu preciso me acalmar, não posso dar bandeira. Se ele abrir a porta agora, eu não sei se conseguiria agir normalmente.
Depois de um tempo, me acalmo. Suspiro de alívio e me desencosto da porta. Parece que ele não desconfiou de nada.
Nessas horas, percebo que Leandro está certo. Eu tenho muito a aprender como policial.