Que história é essa de babá?

1135 Words
Dante estreita os olhos, e seu olhar pesado me prende como uma âncora. — Você é a garota com quem eu dancei outro dia. Sua voz é firme, carregada de algo que não sei decifrar. Não sei se é desconfiança, surpresa ou algo mais perigoso. Algo que me faz sentir como se estivesse sendo caçada. — Sim. Por incrível que pareça. — Dou um sorriso, tentando manter a compostura. Ele não retribui. Apenas me observa, seus olhos verdes correm por mim de um jeito que faz meu estômago apertar. Há algo nele que me desestrutura. Não é só o perigo que exala de cada parte de seu corpo, mas a maneira como parece me despir com um simples olhar. Seu cheiro amadeirado me envolve, e por um instante, odeio o quanto meu corpo reage à sua presença. — Como conhece meu irmão? — Ele questiona, a expressão dura. — Seu irmão me contratou. Sou a babá de Alice. Rebeca Silva. Digo isso com firmeza, mesmo sentindo o peso da tensão no ar. Mas antes que ele possa reagir, a porta da sala se abre, e Rafael surge vestindo roupas de corrida. O olhar de Dante se volta para ele, e sua expressão se fecha ainda mais. — Que história é essa de babá? — Ele pergunta, a hostilidade clara no tom. É exatamente por isso que estou nessa casa. Dante Ferreira não confia em ninguém. Ele é um homem escorregadio, impossível de ser alcançado de forma direta. Qualquer tentativa de aproximação sempre termina frustrada. Rafael mantém a calma. — Rebeca é uma pessoa de confiança. Ela começa hoje. Será um período de adaptação para as duas. Alice precisa de uma presença feminina, mais jovem. A empregada não está dando conta. Dante solta um riso seco, sem humor. — Pessoa de confiança? Essa garota estava na Eden Carioca outro dia. Sinto um frio percorrer minha espinha. Ele me viu. Lembrou de mim. — Sim, eu sei. Eu a conheci lá também. Conversamos, ela me disse que estava desempregada, que tinha experiência com crianças, e eu a contratei. E fim de papo. Alice aparece novamente, correndo até Rafael, que sorri e a pega no colo. Dante não hesita em se aproximar. — Vem com o papai! A voz dele muda quando fala com a filha, ganhando um tom mais suave. Um contraste brutal com sua postura imponente. Alice ergue os bracinhos, e Dante a toma nos braços com facilidade, seus músculos flexionando sob a camisa escura. Ele a beija na testa, e por um breve segundo, vejo algo ali... um vislumbre de afeto genuíno. Mas então ele fala. — Não sei por que a babá. Alice não vai ficar muito tempo aqui. Rafael endurece ao ouvir aquilo. Seu rosto fica tenso, como o de um animal ferido. Meu estômago revira com a cena. O peso daquelas palavras é evidente, e agora mais do que nunca, vejo que Rafael luta para dar a Alice um lar estável. Ele quer o melhor para a sobrinha. Quer que ela tenha segurança, atenção, carinho e amor. E Dante… bem, Dante parece ter outros planos. Preciso conquistá-lo. Preciso encontrar um jeito de ganhar sua confiança. Mas e se ele resolver levar Alice? Eu irei com ele? Sim. Eu irei. Agora mais do que nunca, por causa dela. Dante merece passar o resto da vida na cadeia. E eu quero ser a pessoa que fará isso acontecer. Só assim Alice poderá ser realmente feliz. Rafael a ama e é muito mais capacitado para cuidar dela. — Vamos dar um voto de confiança para Rebeca. — Rafael diz, tentando amenizar a tensão. Dante, ainda com a filha nos braços, me encara. O olhar dele é letal. Ele me estuda de cima a baixo, e seu olhar arrasta-se lentamente pelo meu corpo, como se avaliasse cada detalhe. O calor sobe pelo meu pescoço, e eu me forço a não desviar os olhos. Mas é difícil. Porque Dante Ferreira não é só intimidador. Ele é sexy como o inferno. Seu maxilar tenso, os olhos dourados ardendo em intensidade, o leve sorriso torto que ele dá para a filha quando ela toca seu rosto... tudo nele grita perigo e sedução ao mesmo tempo. E meu corpo, o traidor, sente. — Vamos ver. — Ele murmura, sem se comprometer. Meu coração bate forte quando ele se afasta e coloca Alice no chão. — Estela não está dando conta do recado. Outro dia Alice teve febre, vomitou. Estela passou a noite com ela e, no dia seguinte, estava exausta. Dante não responde de imediato. Ele apenas me encara por mais um longo segundo antes de dar um passo à frente, se aproximando de mim. Sinto meu corpo travar. — De onde você é, Rebeca? — Ela é do interior. O pai dela é fazendeiro. Será uma ótima influência para Alice. — Rafael se adianta. Mas Dante não tira os olhos de mim. — Eu perguntei para ela. — Ele diz, a voz carregada de irritação. O ambiente se torna elétrico. — O que é isso, Dante? Lembre-se que essa casa é minha, e eu a contratei. Portanto, ela fica. — Rafael rebate, já impaciente. Dante suspira pesadamente, visivelmente insatisfeito. Então, me encara de novo e avança. Meu coração dispara quando ele se aproxima mais, parecendo crescer diante de mim. Ele me olha como se quisesse arrancar qualquer segredo que eu pudesse ter. — Por que está aqui? Pelo trabalho mesmo? Minha garganta seca. Deus. Que pergunta é essa? Fica calma. Ele não lê mentes. Só não pode dar bandeira. — Preciso do emprego. — Que isso, Dante? Por que ela estaria aqui? — Rafael questiona, agora realmente impaciente. Dante me estuda por mais alguns segundos. E então, ri. Mas não é um riso leve. É um riso cínico, carregado de algo que me arrepia até a espinha. — Não sei… Alice abraça suas pernas, e por um instante, vejo o conflito em seus olhos. Ela o ama. E isso me comove. Porque sei exatamente que tipo de homem Dante Ferreira é. Sei do sangue em suas mãos, dos negócios sujos, do rastro de destruição que ele deixa. Mas ali, com a filha nos braços, ele é apenas um pai. Um pai que não merece o amor incondicional daquela menininha. Ele se abaixa para falar com a filha, sua voz voltando a ser suave. — Alice, está vendo essa moça bonita? Ela vai ficar com você. É um alívio ouvir isso. Significa que ele parou de implicar comigo? Alice me olha ainda receosa. Respiro fundo e sorrio para ela, tentando transmitir segurança. Mas o problema é que eu mesma não sinto segurança alguma. Porque Dante ainda está perto demais. Me sinto atordoada com seu perfume. Firmo minha voz: — Vem comigo! Vamos brincar? Você não quer me mostrar seus brinquedos?
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