Marcando território.

1294 Words
Leandro A cobertura logo se enche de pessoas, principalmente casais acompanhados de suas esposas, enquanto poucos homens solitários, como eu, observam o cenário. Rafael parece à vontade com Isabela, apresentando-a a todos ao seu redor. Eu a vejo se perder na multidão e, irritado, me sirvo de mais uma dose de uísque. — Ricardo? — A doce voz de Isabela chama minha atenção por trás dizendo o nome do meu disfarce — Você está bebendo demais. Eu a encaro, e uma ideia ousada surge na minha mente. Ficará barato assim? Esse cara rondando-a como uma mosca na carniça? Caminho até ela, meu sorriso se tornando diabólico. Puxo-a para meus braços sem aviso. — Me solta! O que está fazendo? — Ela pergunta, ofegante. Eu a observo, com os lindos olhos verdes dela arregalados, e respondo: — Marcando território. Rafael está observando. Faça o favor de corresponder. Isso vai fazer com que as mãos dele fiquem longe de você. Então, tomo seus lábios num beijo possessivo. Aperto a curva do seu corpo, e meu coração dispara no peito. Se eu não estivesse tão consciente de tudo ao meu redor, de cada olhar que poderia ser lançado em nossa direção, esqueceria facilmente o tempo, as pessoas e todo o meu espaço. Quando me afasto, ambos estamos ofegantes. Ela ergue o rosto para mim, os olhos verdes brilhando, o rosto corado. A veia de seu pescoço pulsa intensamente. —Bem, você conseguiu o que queria. Rafael está olhando para cá. Não sei o que dizer para ele agora. — Ela diz, fitando a distância por trás das minhas costas. — Ótimo. Agora posso ir embora, ele pensará duas vezes antes de se envolver com você. Assim eu espero. Se comporte... Me afasto de Isabela e me dirijo até Rafael Ferreira. — Bem, preciso ir. Amanhã vou levantar cedo, tenho uma entrevista de trabalho. Obrigado pela festa. Rafael me encara com uma expressão séria e acena com a cabeça. Saio dali com a alma lavada, mas deixando uma parte do meu coração com Isabela Isabela — O que foi aquilo que eu vi? — Rafael surge ao meu lado e me questiona, sua voz carregada de curiosidade. Um rubor imediato tinge as minhas bochechas, mas tento manter a compostura. — Ele me pegou de surpresa também — respondo, ainda ofegante. Rafael me observa por um momento, sua expressão séria e intensa. — Perdoe-me, sei que não tenho nada a ver com sua vida, mas esse cara parece ser um mau elemento. Eu sorrio, tentando suavizar a situação. — Ricardo? Não, está enganado. Ele é o sujeito mais correto que já conheci. Senti seus olhos pesando sobre mim, ainda me avaliando, como se tentasse entender a dinâmica entre eu e Rafael. — Você gosta desse rapaz? — A pergunta é direta, os olhos azuis de Rafael fixos nos meus. Eu fico em silêncio por um momento, sem saber como responder. Então, decido ser sincera. Rafael parece o típico "mocinho" e não um bandido, e eu não quero magoar seu coração. — Sim. — Digo, quase como um sussurro. Ele dá um passo à frente, como se tentasse me entender, se aproximando um pouco mais de mim. — Não senti essa ligação na boate. Ele te deixou sozinha. Meu Deus! E agora? — Verdade. É que namoramos no passado e nos reencontramos. Quando surgiu a oportunidade de ir à boate, fomos juntos, mas lá algumas coisas vieram à tona e brigamos. — A mentira sai sem que eu consiga pensar muito, e me sinto desconfortável com ela. Rafael assente lentamente, mas não diz mais nada. A conversa acaba e, a partir dali, percebo que ele muda comigo. Há uma distância maior, menos sorrisos. E eu fico aliviada. Leandro tinha acertado com sua atitude. Eu estou aqui para trabalhar, para ser a babá de Alice, e daria o melhor de mim. Claro, sem esquecer de manter os ouvidos bem atentos. Esse era meu maior objetivo. As horas passam e as pessoas começam a se despedir, saindo da cobertura. Pouco depois, resta apenas Rafael e eu na sala. A governanta, Estela, uma senhora de uns sessenta anos com cabelos grisalhos e olhos bondosos, aparece. — E Alice? — Rafael pergunta, sua voz mais calma agora. — Foi difícil mantê-la no quarto, ela queria vir para cá. Agora está dormindo. — Respondo. — Leve Rebeca para o quarto. Amanhã ela começa. — Ele diz, antes de se afastar. Estela sorri para mim. — Me acompanhe, por favor. Eu assinto com a cabeça e, antes de seguir Estela, me viro para Rafael. — Boa noite. — Digo, com um sorriso tenso. — Boa noite. — Ele responde sem emoção, me deixando partir. Sigo Estela pelo corredor, curiosa sobre o ambiente. Olho para as portas, uma das quais está aberta. Vejo uma calça jeans jogada descuidadamente sobre a cama, e em seguida, um homem de costas largas e corpo musculoso, passando de cueca, aparentemente recém-saído do banheiro. Deus! Eu nem sabia que ele estava em casa. Engulo em seco e acelero o passo, evitando ser vista por ele. Quando entro no quarto que Estela abre para mim, sinto um alívio momentâneo. Mas a imagem daquele homem permanece na minha cabeça: costas largas, tatuagens, cabelos molhados e um olhar penetrante. A tensão cresce dentro de mim. — Gostou? — Estela pergunta, interrompendo meus pensamentos. Eu a encaro, um pouco atordoada. — Como? — Gostou do quarto? Lindo, não? — Ela insiste, sorrindo. Eu olho ao redor. O quarto é grande, arejado, com predominância de tons de creme nas cortinas, tapetes e colcha. A cama de casal, com um dossel delicado, parece um refúgio acolhedor. Os abajures dourados de cada lado da cama, descansando sobre um criado-mudo branco e trabalhado, completam a cena. — Realmente lindo. — Comento, tentando manter a compostura. — Rafael tem muito bom gosto. — Ela afirma. — Sim, verdade. — Concordo. — Alice ficará muito feliz de ter alguém jovem para passar o tempo com ela. Ela é um doce de menina, mas muito assustada. Você terá que ter paciência com ela. — Ela é filha do irmão de Rafael, não é? — Pergunto, tentando manter a conversa fluindo. Ela fecha um pouco o rosto, como se relembrasse algo desagradável. — Sim. Ela perdeu a mãe faz alguns meses atrás, e Dante quase não para em casa. Graças a Deus, a menina está conosco. — Como ele é com a filha? — Pergunto, curiosa. — É carinhoso. Ele gosta da menina, mas quase não fica em casa, cheio de asssuntos a resolver— Ela responde com um tom amargo. — E como é a relação dele com Rafael? Eles se dão bem? — Não para o meu gosto, mas Dante tem ficado na dele. A única pessoa que parece ter acesso àquele coração é Alice e Dante carrega muitos vícios, para o meu gosto. — Que tipo? — Pergunto, meu interesse despertado. Ela faz uma careta. — Maconha, cigarro, e às vezes bebe além da conta. Eu assinto, um pouco triste com o que ouço, mas já era para se esperar de um traficante de merda. — Bem. Vou indo. Boa noite. — Ela diz, antes de se retirar. — Boa noite. — Respondo. Sigo Estela pelo corredor silencioso, e o clima parece mudar. O ambiente da casa é incrivelmente luxuoso, mas não é o brilho dos lustres ou a maciez do carpete que me prendem. É algo mais. Uma sensação estranha que se arrasta pela minha pele como eletricidade. Algo está fora do lugar. — Aqui é o quarto de Alice — diz Estela, abrindo uma porta para me mostrar rapidamente o espaço infantil. Um mundo cor-de-rosa, repleto de bichinhos de pelúcia e livros. — E o seu é logo adiante.
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