Leandro
A cobertura logo se enche de pessoas, principalmente casais acompanhados de suas esposas, enquanto poucos homens solitários, como eu, observam o cenário. Rafael parece à vontade com Isabela, apresentando-a a todos ao seu redor. Eu a vejo se perder na multidão e, irritado, me sirvo de mais uma dose de uísque.
— Ricardo? — A doce voz de Isabela chama minha atenção por trás dizendo o nome do meu disfarce — Você está bebendo demais.
Eu a encaro, e uma ideia ousada surge na minha mente. Ficará barato assim? Esse cara rondando-a como uma mosca na carniça?
Caminho até ela, meu sorriso se tornando diabólico. Puxo-a para meus braços sem aviso.
— Me solta! O que está fazendo? — Ela pergunta, ofegante.
Eu a observo, com os lindos olhos verdes dela arregalados, e respondo:
— Marcando território. Rafael está observando. Faça o favor de corresponder. Isso vai fazer com que as mãos dele fiquem longe de você.
Então, tomo seus lábios num beijo possessivo. Aperto a curva do seu corpo, e meu coração dispara no peito. Se eu não estivesse tão consciente de tudo ao meu redor, de cada olhar que poderia ser lançado em nossa direção, esqueceria facilmente o tempo, as pessoas e todo o meu espaço.
Quando me afasto, ambos estamos ofegantes. Ela ergue o rosto para mim, os olhos verdes brilhando, o rosto corado. A veia de seu pescoço pulsa intensamente.
—Bem, você conseguiu o que queria. Rafael está olhando para cá. Não sei o que dizer para ele agora. — Ela diz, fitando a distância por trás das minhas costas.
— Ótimo. Agora posso ir embora, ele pensará duas vezes antes de se envolver com você. Assim eu espero. Se comporte...
Me afasto de Isabela e me dirijo até Rafael Ferreira.
— Bem, preciso ir. Amanhã vou levantar cedo, tenho uma entrevista de trabalho. Obrigado pela festa.
Rafael me encara com uma expressão séria e acena com a cabeça. Saio dali com a alma lavada, mas deixando uma parte do meu coração com Isabela
Isabela
— O que foi aquilo que eu vi? — Rafael surge ao meu lado e me questiona, sua voz carregada de curiosidade.
Um rubor imediato tinge as minhas bochechas, mas tento manter a compostura.
— Ele me pegou de surpresa também — respondo, ainda ofegante.
Rafael me observa por um momento, sua expressão séria e intensa.
— Perdoe-me, sei que não tenho nada a ver com sua vida, mas esse cara parece ser um mau elemento.
Eu sorrio, tentando suavizar a situação.
— Ricardo? Não, está enganado. Ele é o sujeito mais correto que já conheci.
Senti seus olhos pesando sobre mim, ainda me avaliando, como se tentasse entender a dinâmica entre eu e Rafael.
— Você gosta desse rapaz? — A pergunta é direta, os olhos azuis de Rafael fixos nos meus.
Eu fico em silêncio por um momento, sem saber como responder. Então, decido ser sincera. Rafael parece o típico "mocinho" e não um bandido, e eu não quero magoar seu coração.
— Sim. — Digo, quase como um sussurro.
Ele dá um passo à frente, como se tentasse me entender, se aproximando um pouco mais de mim.
— Não senti essa ligação na boate. Ele te deixou sozinha.
Meu Deus! E agora?
— Verdade. É que namoramos no passado e nos reencontramos. Quando surgiu a oportunidade de ir à boate, fomos juntos, mas lá algumas coisas vieram à tona e brigamos. — A mentira sai sem que eu consiga pensar muito, e me sinto desconfortável com ela.
Rafael assente lentamente, mas não diz mais nada.
A conversa acaba e, a partir dali, percebo que ele muda comigo. Há uma distância maior, menos sorrisos. E eu fico aliviada. Leandro tinha acertado com sua atitude. Eu estou aqui para trabalhar, para ser a babá de Alice, e daria o melhor de mim. Claro, sem esquecer de manter os ouvidos bem atentos. Esse era meu maior objetivo.
As horas passam e as pessoas começam a se despedir, saindo da cobertura. Pouco depois, resta apenas Rafael e eu na sala. A governanta, Estela, uma senhora de uns sessenta anos com cabelos grisalhos e olhos bondosos, aparece.
— E Alice? — Rafael pergunta, sua voz mais calma agora.
— Foi difícil mantê-la no quarto, ela queria vir para cá. Agora está dormindo. — Respondo.
— Leve Rebeca para o quarto. Amanhã ela começa. — Ele diz, antes de se afastar.
Estela sorri para mim.
— Me acompanhe, por favor.
Eu assinto com a cabeça e, antes de seguir Estela, me viro para Rafael.
— Boa noite. — Digo, com um sorriso tenso.
— Boa noite. — Ele responde sem emoção, me deixando partir.
Sigo Estela pelo corredor, curiosa sobre o ambiente. Olho para as portas, uma das quais está aberta. Vejo uma calça jeans jogada descuidadamente sobre a cama, e em seguida, um homem de costas largas e corpo musculoso, passando de cueca, aparentemente recém-saído do banheiro.
Deus! Eu nem sabia que ele estava em casa. Engulo em seco e acelero o passo, evitando ser vista por ele. Quando entro no quarto que Estela abre para mim, sinto um alívio momentâneo. Mas a imagem daquele homem permanece na minha cabeça: costas largas, tatuagens, cabelos molhados e um olhar penetrante. A tensão cresce dentro de mim.
— Gostou? — Estela pergunta, interrompendo meus pensamentos.
Eu a encaro, um pouco atordoada.
— Como?
— Gostou do quarto? Lindo, não? — Ela insiste, sorrindo.
Eu olho ao redor. O quarto é grande, arejado, com predominância de tons de creme nas cortinas, tapetes e colcha. A cama de casal, com um dossel delicado, parece um refúgio acolhedor. Os abajures dourados de cada lado da cama, descansando sobre um criado-mudo branco e trabalhado, completam a cena.
— Realmente lindo. — Comento, tentando manter a compostura.
— Rafael tem muito bom gosto. — Ela afirma.
— Sim, verdade. — Concordo.
— Alice ficará muito feliz de ter alguém jovem para passar o tempo com ela. Ela é um doce de menina, mas muito assustada. Você terá que ter paciência com ela.
— Ela é filha do irmão de Rafael, não é? — Pergunto, tentando manter a conversa fluindo.
Ela fecha um pouco o rosto, como se relembrasse algo desagradável.
— Sim. Ela perdeu a mãe faz alguns meses atrás, e Dante quase não para em casa. Graças a Deus, a menina está conosco.
— Como ele é com a filha? — Pergunto, curiosa.
— É carinhoso. Ele gosta da menina, mas quase não fica em casa, cheio de asssuntos a resolver— Ela responde com um tom amargo.
— E como é a relação dele com Rafael? Eles se dão bem?
— Não para o meu gosto, mas Dante tem ficado na dele. A única pessoa que parece ter acesso àquele coração é Alice e Dante carrega muitos vícios, para o meu gosto.
— Que tipo? — Pergunto, meu interesse despertado.
Ela faz uma careta.
— Maconha, cigarro, e às vezes bebe além da conta.
Eu assinto, um pouco triste com o que ouço, mas já era para se esperar de um traficante de merda.
— Bem. Vou indo. Boa noite. — Ela diz, antes de se retirar.
— Boa noite. — Respondo.
Sigo Estela pelo corredor silencioso, e o clima parece mudar. O ambiente da casa é incrivelmente luxuoso, mas não é o brilho dos lustres ou a maciez do carpete que me prendem. É algo mais. Uma sensação estranha que se arrasta pela minha pele como eletricidade. Algo está fora do lugar.
— Aqui é o quarto de Alice — diz Estela, abrindo uma porta para me mostrar rapidamente o espaço infantil. Um mundo cor-de-rosa, repleto de bichinhos de pelúcia e livros. — E o seu é logo adiante.