CAPÍTULO 10

796 Words
Amara A chuva cessou ao amanhecer, mas o frio continuava colado na pele. O táxi velho que peguei na estrada balançava a cada curva, e o vidro embaçado me impedia de ver o que deixei para trás. Roma, Lorenzo, a casa dos De Santis tudo parecia um sonho r**m do qual eu ainda não havia despertado. Mas eu sabia a verdade. Não era um sonho. Era um jogo. E, pior, um jogo que eu mesma havia começado. O motorista não fez perguntas. Apenas dirigiu, calado, até o centro da cidade. Troquei de táxi, depois de roupas. Cortei parte do cabelo. Usei um nome diferente, Elena Costa. E me escondi em um pequeno apartamento alugado por dinheiro vivo, em um bairro velho de Nápoles onde até os fantasmas evitavam entrar. A cada noite, o som da rua se misturava ao dos meus próprios pensamentos. O rosto de Lorenzo voltava, nítido demais para esquecer. A forma como ele dizia meu nome. O toque dele mesmo quando me ameaçava, ainda queimava sob minha pele. Eu odiava isso. Odiava o que ele me fazia sentir. Mas, mais do que isso, odiava a mim mesma por saber que, em algum canto sombrio da alma, eu queria que ele me encontrasse. Lorenzo Três dias. Três dias malditos desde que ela desapareceu. Os homens estavam espalhados por toda a costa italiana. Mas ela era esperta, muito mais do que eu esperava. Nenhum registro, nenhum cartão, nenhum movimento. A mulher simplesmente evaporou. E ainda assim, eu sentia. Sabia que ela estava viva. E sabia que ainda me observava, de algum lugar. — Signore De Santis, encontramos algo — disse Matteo, entrando no escritório. Ele me entregou uma foto impressa. Grãos grossos, mas o suficiente para reconhecer o perfil dela. Amara ou Elena, como agora se fazia chamar em um mercado de Nápoles. Um lenço cobrindo parte do rosto, mas aqueles olhos, eu jamais confundiria. Meu sangue ferveu. — Quero todos os acessos cercados. Nenhuma distração. Eu mesmo vou até lá. Amara O mercado era meu único refúgio. Ali, eu podia ser invisível. O cheiro de pão fresco e especiarias mascaravam o medo. Mas, naquela manhã, algo mudou. Um arrepio percorreu minha espinha. Um pressentimento. Como se o ar tivesse ficado mais denso, mais pesado. E então o vi. Lorenzo. De terno escuro, passos firmes, os olhos varrendo a multidão como um predador. O coração disparou. Tentei me misturar entre as pessoas, mas o olhar dele me encontrou, preciso, cortante, inevitável. Por um instante, o tempo parou. E, no instante seguinte, comecei a correr. As ruas estreitas de Nápoles pareciam labirintos. Meus passos ecoavam, o som das botas dele atrás de mim. Virei uma esquina, depois outra, o coração martelando no peito. Mas ele era mais rápido. Sempre foi. Quando tentei atravessar um beco lateral, uma mão forte me puxou pelo braço, me prendendo contra a parede fria. — Pensou que poderia fugir de mim, Amara? — A voz dele era um sussurro rouco, colado ao meu ouvido. — Me solta! — tentei lutar, mas o corpo dele me cercava, o calor dele me queimava. — Três dias — continuou, o olhar preso no meu. — Três malditos dias me procurando, me perguntando por que eu não te matei quando tive a chance. — Talvez porque você não consegue — provoquei, o tom desafiador, mesmo tremendo. O sorriso dele foi lento, perigoso. — Ou talvez porque, de algum jeito, você se tornou a única coisa que eu ainda quero entender. O silêncio entre nós era elétrico. Os olhos dele desciam até minha boca, e por um instante, o mundo pareceu se dissolver. O toque dele não veio, mas a intenção estava ali, tão forte quanto um toque real. — Me diga a verdade, Amara — disse ele, a voz rouca. — Está me usando? Ou está fugindo de si mesma? Engoli em seco, lutando contra o tremor. — Estou fugindo de tudo o que você representa. — Então por que não consegue ficar longe? Ele estava perto demais. Perto o bastante para me fazer esquecer o que era certo, o que era vingança, o que era sobrevivência. E, quando finalmente ele me soltou, o espaço entre nós pareceu um vazio impossível de suportar. — Você pode fugir quantas vezes quiser — disse ele, recuando um passo. — Mas no fim, vai sempre voltar para o mesmo lugar. — E onde seria isso? — perguntei, tentando disfarçar o tremor na voz. Lorenzo inclinou o rosto, os olhos escurecendo. — Sob o meu controle. Ele se virou e foi embora antes que eu pudesse responder. Mas algo dentro de mim já sabia, ele estava certo. Por mais que eu tentasse escapar, parte de mim já pertencia àquele homem. E talvez esse fosse o começo da minha ruína.
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