CAPÍTULO 4 - O PREÇO DE UMA VISITA

1301 Words
O carro de Naomi cruzou a ponte principal da cidade enquanto o céu começava a escurecer. Ela manteve as mãos firmes no volante, tentando reorganizar os pensamentos depois do encontro com Luca. Tinha feito o que precisava. Tinha estabelecido limites. Tinha deixado claro que não queria envolvimento algum. Mas por que seu coração parecia ignorar tudo isso? Quando estacionou em frente ao seu prédio, respirou fundo. A chuva começava a cair, fina, silenciosa, mas suficiente para criar um reflexo turvo na calçada. — Controle-se, Naomi — murmurou para si mesma. Mas uma parte dela sabia que, desde o tribunal, nada mais estava sob controle. --- Do outro lado da cidade, dentro da casa Moretti, as paredes pareciam mais frias do que o normal. Entretanto, não era o clima — era Mateo. Ele entrou na sala principal como um vendaval, o rosto fechado, o corpo rígido. Alguns capangas e administradores da família estavam reunidos em torno de uma mesa longa, mas todos se calaram ao vê-lo aproximar-se. — Onde está Luca? — perguntou ele, sem rodeios. Um dos homens ajeitou a gravata. — No escritório dele, senhor. Ele não quis interrupções desde a manhã. Mateo não respondeu. Apenas se virou e atravessou o corredor com passos longos, firmes, determinados. Ele bateu a porta do escritório com força suficiente para ecoar pela casa inteira. Luca ergueu o olhar da mesa — e não se surpreendeu ao ver o irmão. — Eu estava esperando por isso — disse ele, calmamente. — Você recebeu uma visita. — Mateo cruzou os braços. — Quer falar sobre isso? Luca reclinou-se na cadeira. — Não há nada para falar. — Nada? — Mateo deu um passo à frente. — A advogada Carter esteve aqui. No nosso prédio. No coração das operações da família. Isso não é “nada”. — Ela veio devolver algo — respondeu Luca. — Apenas isso. — E por que ela recebeu algo seu? — Mateo rebateu. Silêncio. Um silêncio que dizia mais do que uma confissão. — Luca, você está brincando com fogo — a voz de Mateo era baixa, carregada de ameaça e preocupação. — E não é só sua vida que queima quando você toma decisões ruins. É a de todos nós. — Eu não fiz nada que comprometa a família — disse Luca. — Ainda — corrigiu Mateo. — Mas você está flertando com o limite. E sabe disso. Luca apertou o maxilar. — Naomi não é nossa inimiga. — Mas também não é nossa aliada. — Mateo inclinou-se sobre a mesa. — Ela é advogada criminal. Esperta. Independente. Observadora. É exatamente o tipo de mulher que nunca deve se aproximar de nós. — Eu não trouxe ela para perto — Luca rebateu. — Ela veio por vontade própria. — Isso é pior! — Mateo ergueu a voz. — Significa que você a afetou o suficiente para fazê-la atravessar a cidade e vir até aqui. Sabe o que isso significa para os que nos observam? Luca fechou os olhos por um instante. Ele sabia. Claro que sabia. Mas não conseguia afastar a sensação de que Naomi era uma força que nem mesmo a prudência de Mateo conseguia conter. — Eu fico de olho nela — disse Luca, a voz baixa. — Não vai sair do controle. Mateo bateu a mão sobre a mesa. — Você é exatamente o tipo de homem que perde o controle quando sente algo! — Ele respirou fundo, tentando se recompor. — Luca… ouça-me. Não é só sobre você gostar de alguém que não deve. É sobre o que esse alguém pode provocar ao seu redor. Os dois ficaram em silêncio por longos segundos. Mateo, então, deu um passo para trás. — Se essa mulher cruzou nosso caminho, ela já está em perigo. — A voz dele suavizou, o que era raro. — E talvez você também esteja. Luca encarou o irmão. — Eu cuido dela. Mateo suspirou, derrotado por algo que não conseguia controlar. — Esse é o problema. E saiu, batendo a porta atrás de si. --- Naomi entrou no apartamento com passos cansados. Tirou o casaco molhado, colocou a bolsa no sofá e foi direto até a cozinha. Preparou café, mesmo sendo tarde demais — precisava de algo para mantê-la acordada, ou talvez para acalmá-la. Sentou-se à mesa, as luzes da cidade entrando pela janela panorâmica. E, de repente, tudo veio à tona: O olhar de Luca. A honestidade desconcertante. O convite silencioso. A tensão impossível de negar. “Se você disser que eu devo ir, eu vou.” Ela quase dissera. Quase. Mas a palavra não veio. Por quê? Por que ele a desequilibrava tanto? Antes que pudesse pensar mais, ouviu três batidas secas na porta. Naomi congelou. Não esperava ninguém. Não estava esperando entrega. Não estava esperando visita. E três batidas assim não eram de um vizinho. Ela se levantou devagar, o coração disparado, cada passo pesado. Olhou pelo olho mágico. Vazio. — Estranho — murmurou. Mas quando olhou para baixo, viu um envelope simples, sem nada escrito. O mesmo tipo de envelope que encontrara dentro da pasta na manhã anterior. Seu peito apertou. Ela pegou o envelope com cuidado e voltou para a cozinha, onde o abriu com mãos tensas. Dentro havia apenas uma frase: “Você não deveria ter ido lá.” Sem assinatura. Sem inicial. Sem marca. E não era a letra de Luca. O ar pareceu sumir dos pulmões de Naomi. — Droga… — sussurrou. De repente, tudo fez sentido. “Se essa mulher cruzou nosso caminho, ela já está em perigo.” Ela sentiu a pele arrepiar. Sua visita ao edifício Moretti não passou despercebida. E alguém — alguém que não Luca — estava deixando claro que a estava observando. Naomi respirou fundo, tentando manter a calma. Poderia ignorar? Poderia denunciar? Poderia confrontar alguém? Ela pegou o celular, hesitando. E então, contra toda lógica profissional, instintivamente discou o número que tinha anotado sem perceber que guardara: Luca Moretti. O telefone chamou uma vez. Duas. Três. Ela estava prestes a desligar quando ouviu a voz dele. — Naomi? A forma como ele disse seu nome fez seu corpo inteiro reagir. — Recebi um envelope — disse ela, tentando manter a voz estável. — Um aviso. Ou ameaça. Não sei. Silêncio. Mas um silêncio muito diferente — carregado, intenso, perigoso. — O que dizia? — Luca perguntou. — Que eu não deveria ter ido ao seu prédio. Ele prendeu a respiração por um segundo — e Naomi percebeu que aquilo não o surpreendeu. — Onde você está? — a voz dele agora era puro aço. Ela engoliu. — No meu apartamento. — Tranque tudo. Não abra a porta para ninguém. Estou indo. — Luca, não—! Mas ele já tinha desligado. Naomi apoiou as mãos na mesa, sentindo o peso da mensagem e, agora, o peso da decisão. Ele estava vindo. E ela não sabia o que era pior: O perigo que batia à sua porta. Ou o que aconteceria quando Luca chegasse até ela. --- Luca desceu as escadas da mansão como um raio, ignorando perguntas, olhares, protocolos. Pegou o casaco, as chaves, passou por três membros da família sem olhar para nenhum. Quando entrou no carro, seus olhos estavam sombrios — sombrios como só ficavam quando ele era realmente ameaçado ou quando alguém que importava estava em risco. E Naomi… Ele nem ousava pensar no que sentira ao ouvir a voz dela tremendo. Luca apertou o volante com força. — Quem se atreveu…? — murmurou. Alguém tinha interferido. Alguém tinha vigiado. E alguém tinha enviado um recado que não era para ser ignorado. Ele acelerou, e as luzes da cidade se transformaram em traços borrados. — Eu cuido dela — havia dito a Mateo. E agora… agora isso não era mais promessa. Era necessidade.
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