Liam
Sete Anos Depois...
“Hey sou eu de novo... Eu estou no banheiro de um evento e eu estou p**a com você novamente e me sinto patética por está aqui falando com o seu correio de voz... Porque provavelmente você nunca ouviu nenhuma das minhas mensagens e depois de cinco anos duvido que esteja a fim de saber algo sobre o que você deixou para trás... Eu te odeio por me deixar aqui para resolver toda a bagunça e eu não estou sendo uma esposa carente e controladora, você sabe que não sou assim, mas eu me sinto desse jeito toda vez que ligo para essa merda de número. Apesar disso eu espero que você esteja bem, mesmo estando p**a da vida por você ter ido sem nenhuma consideração por mim, eu prefiro que você esteja se divertindo e curtindo tudo o que nosso dinheiro pode comprar do que morto em alguma vala rasa no deserto de nevada, mas confesso que todos os dias rezo para que você pegue uma DST que faça seu p*u cair de alguma prostituta de clube de streep que você esteja passando... Enfim fique bem, seus pais sentem sua falta e sua irmã quer te matar... Apenas continue vivo.”
Continue vivo...
Chloe sempre diz isso em cada mensagem de voz que ela deixa em meu celular, em todas as 1.135 desde que fui embora, e ela nunca vai entender o que apenas essas duas palavras fizeram por mim quando eu estava totalmente no fundo do poço. Sua voz todos esses anos em cada mensagem seja de atualização ou de pura fúria foi o fio que me fez continuar em pé quando a culpa me afogava. Talvez ela nunca saiba, mas é por suas mensagens que a faz se sentir patética e uma esposa carente e controladora que eu estou aqui e não em uma cova rasa em algum lugar.
Guardo meu celular no bolso da minha calça jeans surrada e olho a mansão vitoriana fria e imensa que se estende no fundo da propriedade á minha frente, é estranho pensar em morar nessa casa novamente quando eu vivi os últimos anos em uma cabana. Quando eu decidir que era hora de voltar para minha vida e pegar o que era meu de volta eu sabia que seria difícil me adaptar novamente a vida antiga que eu tinha, de um Liam que não existe mais, mas os barulhos incessantes, a correria da vida de Los Angeles, a superficialidade das pessoas, a dependência pelo dinheiro e o status eu não sabia que algo que antes nutria meu ego hoje me irritasse tanto.
Caminho até o portão e toco o botão do interfone, olhando diretamente para a câmera que se vira automaticamente para mim.
— Identificação — Uma voz que não reconheço ressoa quase em automático
— Liam Kingston — Meu nome sai com facilidade da minha boca mesmo que tenha anos que não fale ele.
— Como? — A voz pergunta quase em um grito, e eu tenho vontade de ri.
— Liam Kingston — Falo novamente — Essa é a minha casa e eu quero entrar...
Há um longo silêncio. Eu olho novamente para a câmera, então foco nas luzes dentro da propriedade, sei que Chloe não está em casa pela sua mensagem de voz alguns minutos atrás, provavelmente a demora é tentando contatá-la para lhe informar que um homem qualquer está afirmando ser seu marido em frente ao portão de sua casa.
— Senhor? — A voz retumba um pouco tremula de volta — O senhor pode olhar para a câmera novamente por alguns segundos?
Não me dou ao trabalho de responder sua pergunta apenas obedeço a seu comando esperando que Walter esteja trabalhando, ele será o único que me deixará entrar sem a liberação de Chloe, ou antes, que ela chegue em casa. Com a câmera apontada para mim esfrego minha barba que toma quase todo o meu rosto com um pouco de impaciência.
— p***a! — Ouço finalmente uma voz que reconheço e isso me faz contrair os lábios quase em um sorriso. — Senhor... Desculpe — Os portões se abrem automaticamente, eu pego minha mochila preta que está em meus pés e jogo em um ombro caminhando de volta para uma vida que deixei para trás há cinco anos.
O lugar me parece o mesmo desde que eu estive aqui, mas ao mesmo tempo parece tudo algo novo, caminho pela estrada de pedras iluminado em direção ao palacete ostentativo me causando algum tipo de náusea no estomago, não sei se pelo nervoso do que me espera ou porque eu realmente odeio esse lugar. Antes que eu alcance a entrada da minha casa Walter e Claire estão me esperando com olhares ansiosos e surpresos no rosto olhando um homem que á muito acharam que estava morto.
— Senhor! É mesmo você! — Claire choraminga e vejo as lágrimas que ela contém para não cair acumulando nos cantos de seus olhos. — Eu... Eu achei...
— Eu sei Claire — Lhe falo abraçando-a. Ela solta um soluço e então sinto suas lágrimas molharem minha blusa. Olho Walter ainda estático me vendo abraçar sua esposa e ele parece não acreditar nos seus próprios olhos — Eu sentir falta da sua comida — Me afasto delicadamente dela e alcanço seu rosto limpando as lágrimas que caem deliberadamente.
— E eu sentir sua falta mexendo em minhas panelas — Ela funga finalmente me soltando. — A senhora Chloe come como um passarinho... Não sei como consegue ter tanta energia para fazer tudo o que faz
Eu não sabia disso sobre Chloe, na verdade eu não sei quase nada da mulher que eu prometi passar minha vida isso nunca me incomodou antes, mas agora me deixa com um buraco no estomago.
Eu e Chloe nos casamos por um acordo e sempre nosso relacionamento visou às prioridades da empresa, nós vivemos nessa casa por dois anos e mesmo que fossemos bons amigos nunca houve um interesse genuíno de sabermos mais um do outro, as únicas coisas que eu sabia sobre ela quando casamos era que ela era uma fã enlouquecida de Game of Thrones, que seu livro preferido era The Great Gatsby e que ela amava a empresa da sua família mais que qualquer coisa. Eu pretendo mudar isso de agora em diante, um dos meus primeiros motivos para está aqui é merecer ter ela como esposa. Merecer a lealdade que ela vem demonstrando á mim por longos anos.
Caminho até Walter e ganho um abraço tão caloroso quanto o de Claire. Os dois trabalhavam para minha família desde que me entendo por gente e tê-los comigo quando me casei foi quase um presente de casamento dos meus pais, na verdade eles vieram em um combo com a mansão vitoriana.
— É bom ter você de novo rapaz... — Walter diz com a voz embargada dando tapinhas em minhas costas antes de se afastar
— É bom ver vocês...
O casal que me viu crescer me olha com expectativa provavelmente esperando algo do Liam que eles conheciam, mas o que eles não sabem é que existe muito pouco desse Liam em mim e eu não estou disposto falar sobre o que me fez matá-lo.
“Você é um monstro...”.
O fantasma que me atormenta ressoa em minha cabeça contrariando minha vontade, se eu fechar os olhos consigo ver seu rosto cheio de lágrimas e sua expressão de dor. Respiro fundo e escapo para um lugar seguro onde estou agarrando a mão delicada de Chloe enquanto eu recito meus votos para ela, isso sempre afasta os pensamentos ruins.
— Senhor... Você está bem?
— Sim Claire — Falo curto — Eu estou cansado, preciso de um banho e dormir um par de horas, estou na estrada há muito tempo.
— Claro — Ela fala com um leve sorriso escondendo a preocupação muito m*l — Vamos entrar, a senhora não está em casa, ela saiu com... — Ela para antes de terminar a frase e me olha parecendo ponderar se deve terminá-la ou não, eu não a pressiono mesmo querendo saber com quem minha mulher passa suas noites, prefiro resolver isso diretamente com ela.
— A senhora saiu para um evento — Walter é quem termina fazendo Claire suspirar — Mas tenho certeza que se ligarmos avisando que o senhor está aqui ela voltará rapidamente — Claire continua dessa vez com um sorriso esperançoso. Ela sempre gostou de Chloe, quando eu contei que me casaria com ela à mulher reagiu como se fosse um de seus filhos casando-se com a nora dos seus sonhos.
— Não precisa avisar a Chloe, quando ela chegar eu falo com ela pessoalmente... — Sou conduzido pelos dois para dentro da minha casa me sentindo mais como um estranho.
O lugar continua o mesmo, grande demais, luxuoso demais e impessoal demais. Lembro-me dos primeiros dias depois de chegarmos da lua de mel Chloe me perguntar se eu não me sentia perdido em estar em um lugar que não trazia nenhum conforto mesmo tendo todo o conforto do mundo, eu não entendi o que ela disse na época, na verdade fingir que não prestei atenção a sua pergunta, eu quase nunca ficava em casa então não importava se aquele lugar não remitia á um lar onde eu iria querer voltar, agora faz muito sentindo o que ela disse.
— O senhor precisa que eu arrume o quarto de hospedes ou... — Claire interrompe meus pensamentos enquanto meus olhos vagam pelo hall e a grande escada que segue majestosa para o segundo andar.
— Não, eu vou ficar no meu quarto — Afirmo — Vocês estão dispensados, eu não vou precisar de nada e se precisar posso me virar
Os dois se entre olham rapidamente procurando um no outro a resposta de como agir á um desconhecido que eles deviam conhecer, mas no final apenas assentem para mim e se despedem. Claire me abraçando mais uma vez dizendo o quão feliz está por eu estar de volta e Walter batendo de leve no meu ombro com um olhar preocupado e curioso. Espero os dois desaparecerem adentrando mansão que evitarei por hoje terminar de rever e me viro para a escada indo para o segundo andar e direto para a última porta no fim do corredor.
O maior quarto da casa é também o mais aconchegante, não me entenda m*l ele ainda continua frio e impessoal como o resto da casa, mas o cheiro doce de lavanda e pêssegos que é como minha mulher cheira faz do lugar o meu preferido. Quando sair não gostava de pensar muito na vida que deixei para trás primeiro porque eu estava enterrado em minha dor e culpa e isso era tudo o que eu queria sentir, depois é que lembrar a minha antiga vida era algo tão distante que não valia a pena, quando finalmente eu comecei a escutar as mensagens de voz de Chloe eu comecei a associar sua voz as minhas lembranças sobre ela, gostava de pensar em seu sorriso isso me acalmava, gostava de pensar em nosso casamento isso me tirava de pensamentos ruins, então pensar nela começou ser minha válvula de escape e cada dia que passava eu me tornava mais obsessivo em buscar nas memórias o único fio que me ligava há um lugar onde eu me sentia dormente e me livrava da culpa, seu cheiro era algo que nunca conseguir atingir em minha memória olfativa, sentir cada nota de sua fragrância dentro desse quarto me faz respirar melhor.
Deixo minha mochila no canto da porta com os únicos pertences que conseguir nesses cinco anos fora e caminho para o banheiro precisando de um banho de água quente, não mentir para Claire e Walter quando disse o quanto estou cansado, sair daqui foi fácil, voltar não chegou nem perto disso.
Tomo um longo banho, deixando a água morna relaxar meus músculos tensos e cansados, então me deixo usufruir dos produtos com cheiro doce de Chloe, há muito tempo meu corpo não chegava perto de algo tão caro, e quando saio do chuveiro me sinto renovado ou quase perto disso. Enrolo a toalha em minha cintura e abro a porta para pegar alguma roupa limpa dentro da minha mochila, estou prestes a me abaixar para pegar minhas coisas quando minhas costas retesam de repente e os pêlos da minha nuca eriçam isso é meu corpo me alertando que não estou sozinho, espero o segundo exato quando sinto que vou ser atacado para me virar e com um braço bloquear meu atacante pressionando-o contra a parede e evitar com o outro braço o objeto que provavelmente faria um estrago em minha cabeça. Ouço o grito estridente assim que o baque do pequeno corpo bate na parede e se prende contra mim, olho de relance para o braço estendido que eu prendo segurando um vaso de vidro preto e depois volto para o rosto assustado que me fita com olhos que misturam medo e raiva.
— Você é um i****a se acha que pode sair dessa casa ileso — A voz da minha esposa sai agressiva com um leve tremor no final, estou orgulhoso da sua coragem e um pouco bravo por ela se colocar em perigo assim.
— E quem disse que eu quero sair? — Pergunto forçando meu rosto em sua direção com os cabelos ainda pingando água
Chloe pisca uma vez e depois duas, sinto quando seu corpo tenciona e seus olhos se apertam olhando em direção á mim na penumbra da pequena luz que vem em fio de apenas um espaço pequeno nas cortinas grossas e escuras.
— Liam? — Ela fala enfim por cima do fôlego que ela solta devagar.
— Sentir sua falta Chloe.