— Não parecia miséria pra mim. — Ela deu um sorrisinho. — Parecia o mundo.
Adrian a observava em silêncio, tentando encontrar ali qualquer pista de calculo. Não achou.
— Você era feliz? — a pergunta saiu antes que ele pudesse cortá-la.
Ela piscou, surpresa.
— Com nada? Com uma mãe cansada, um fogão velho e meia dúzia de clientes chatos?
Ela pensou um pouco, girando uma mecha solta de cabelo entre os dedos.
— Era. — Assentiu. — A gente brigava com as contas todo mês, mas sempre tinha comida sobrando pra dividir com algum vizinho pior que a gente. E minha mãe ria por qualquer coisa. — Ela riu baixo, sozinha. — Um dia, ela queimou a panela inteira de feijão, virou carvão. A gente não tinha dinheiro pra outra. Sabe o que ela fez?
Ele negou com a cabeça, sem perceber que estava curioso.
— Pegou o fundo quase preto, raspou, cortou cebola, tomate, jogou em cima e diz que era “feijão defumado gourmet”. — Celine balançou a cabeça. — A gente riu a noite toda.
O canto da boca de Adrian ameaçou subir. Ele apagou o movimento antes que completasse.
— E agora ela tá morta numa cama de hospital porque você vendeu o corpo pra um estranho — rebateu, frio, puxando ela de volta à realidade.
Celine endureceu na cadeira, o rosto perdendo a cor por um segundo.
— Ela está viva — corrigiu, no automático, como quem repele uma praga. — E você sabe muito bem que foi por isso que eu—
Ela parou no meio da frase. Ele também parou. Os dois sabiam exatamente o final daquela linha.
Adrian desviou o olhar primeiro, voltando a cortar o pão.
— Você fala dela como se fosse santa — resmungou. — Mas todo mundo tem um preço.
— Nem todo mundo vende a própria família — ela devolveu, rápida.
Ele ergueu os olhos lentamente, e o ar entre os dois pareceu ficar mais pesado.
— Cuidado — avisou, sem elevar o tom.
— Você começou — ela retrucou, mas a voz já estava mais baixa.
Ficaram em silêncio alguns segundos. Ele terminou de comer, limpou a boca com o guardanapo, empurrou o prato.
Poderia mandá-la embora. Voltar pro conforto dos relatórios, dos números que não choram nem olham pra ele daquele jeito. Em vez disso, percebeu a pergunta saindo:
— Como ele era?
Ela franziu o cenho.
— Quem?
— Seu pai.
Ela se recostou um pouco na cadeira, surpresa com a curiosidade dele. Olhou para um ponto indefinido na mesa, como se buscasse a lembrança certa.
— Eu quase não lembro — admitiu. — Ele morreu quando eu era pequena. Lembro mais da sensação do que dele. — Fez uma careta leve. — Mãos grandes. Cheiro de cigarro. Riso alto. Minha mãe ficava brava porque ele dava doce escondido antes do almoço.
Sorriu de novo, melancólica.
— O resto é foto velha e história repetida.
Adrian assentiu, uma vez, devagar.
— Melhor assim.
As palavras saíram mais amargas do que ele planejava. Celine percebeu.
— E o seu? — devolveu, sem aviso. — Como ele era?
O olhar dele endureceu na hora, como se ela tivesse puxado uma arma invisível.
— Não é da sua conta.
— Você perguntou do meu — apontou. — Justo.
Ele respirou fundo, apoiou os cotovelos na cadeira, juntou as mãos diante da boca. Ficou alguns segundos assim, como se discutisse consigo mesmo. No fim, falou.
— Ele era um covarde — disse, seco, sem floreio. — Rico, bonito, carismático. Todo mundo achava que ele era o herói da história. Menos quem vivia dentro da casa.
Celine não interrompeu.
— Traiu minha mãe com uma mulher que só tava interessada no dinheiro. — O desprezo ferveu em cada palavra. — Deixou a família por causa de peito e sorriso falso. E quando essa mulher começou a puxar tudo o que podia, ele deixou. Viu a empresa virar brinquedo na mão dela. Deixou a minha mãe apodrecer de tristeza. — Fez uma pausa curta. — E depois morreu como se não tivesse culpa de nada.
Ele deu de ombros.
— Mais um macho fraco no mundo.
Celine sentiu o peito apertar pelos dois. Pela mãe dele. Pelo menino que ele devia ter sido.
— E a madrasta? — perguntou, devagar.
Os dedos dele apertaram um ao outro, os nós ficando brancos.
— A Maura? — O nome saiu como veneno. — Inteligente. Fria. Sabia exatamente o que fazer pra espremer até a última gota de dinheiro e orgulho. Passou anos me olhando como se eu fosse um estorvo caro. — Ele deu um riso sem humor. — E eu, i****a, achando que um dia ela ia querer ser mãe de verdade.
A frase parou no ar entre eles.