E a madrasta?

802 Words
— Não parecia miséria pra mim. — Ela deu um sorrisinho. — Parecia o mundo. Adrian a observava em silêncio, tentando encontrar ali qualquer pista de calculo. Não achou. — Você era feliz? — a pergunta saiu antes que ele pudesse cortá-la. Ela piscou, surpresa. — Com nada? Com uma mãe cansada, um fogão velho e meia dúzia de clientes chatos? Ela pensou um pouco, girando uma mecha solta de cabelo entre os dedos. — Era. — Assentiu. — A gente brigava com as contas todo mês, mas sempre tinha comida sobrando pra dividir com algum vizinho pior que a gente. E minha mãe ria por qualquer coisa. — Ela riu baixo, sozinha. — Um dia, ela queimou a panela inteira de feijão, virou carvão. A gente não tinha dinheiro pra outra. Sabe o que ela fez? Ele negou com a cabeça, sem perceber que estava curioso. — Pegou o fundo quase preto, raspou, cortou cebola, tomate, jogou em cima e diz que era “feijão defumado gourmet”. — Celine balançou a cabeça. — A gente riu a noite toda. O canto da boca de Adrian ameaçou subir. Ele apagou o movimento antes que completasse. — E agora ela tá morta numa cama de hospital porque você vendeu o corpo pra um estranho — rebateu, frio, puxando ela de volta à realidade. Celine endureceu na cadeira, o rosto perdendo a cor por um segundo. — Ela está viva — corrigiu, no automático, como quem repele uma praga. — E você sabe muito bem que foi por isso que eu— Ela parou no meio da frase. Ele também parou. Os dois sabiam exatamente o final daquela linha. Adrian desviou o olhar primeiro, voltando a cortar o pão. — Você fala dela como se fosse santa — resmungou. — Mas todo mundo tem um preço. — Nem todo mundo vende a própria família — ela devolveu, rápida. Ele ergueu os olhos lentamente, e o ar entre os dois pareceu ficar mais pesado. — Cuidado — avisou, sem elevar o tom. — Você começou — ela retrucou, mas a voz já estava mais baixa. Ficaram em silêncio alguns segundos. Ele terminou de comer, limpou a boca com o guardanapo, empurrou o prato. Poderia mandá-la embora. Voltar pro conforto dos relatórios, dos números que não choram nem olham pra ele daquele jeito. Em vez disso, percebeu a pergunta saindo: — Como ele era? Ela franziu o cenho. — Quem? — Seu pai. Ela se recostou um pouco na cadeira, surpresa com a curiosidade dele. Olhou para um ponto indefinido na mesa, como se buscasse a lembrança certa. — Eu quase não lembro — admitiu. — Ele morreu quando eu era pequena. Lembro mais da sensação do que dele. — Fez uma careta leve. — Mãos grandes. Cheiro de cigarro. Riso alto. Minha mãe ficava brava porque ele dava doce escondido antes do almoço. Sorriu de novo, melancólica. — O resto é foto velha e história repetida. Adrian assentiu, uma vez, devagar. — Melhor assim. As palavras saíram mais amargas do que ele planejava. Celine percebeu. — E o seu? — devolveu, sem aviso. — Como ele era? O olhar dele endureceu na hora, como se ela tivesse puxado uma arma invisível. — Não é da sua conta. — Você perguntou do meu — apontou. — Justo. Ele respirou fundo, apoiou os cotovelos na cadeira, juntou as mãos diante da boca. Ficou alguns segundos assim, como se discutisse consigo mesmo. No fim, falou. — Ele era um covarde — disse, seco, sem floreio. — Rico, bonito, carismático. Todo mundo achava que ele era o herói da história. Menos quem vivia dentro da casa. Celine não interrompeu. — Traiu minha mãe com uma mulher que só tava interessada no dinheiro. — O desprezo ferveu em cada palavra. — Deixou a família por causa de peito e sorriso falso. E quando essa mulher começou a puxar tudo o que podia, ele deixou. Viu a empresa virar brinquedo na mão dela. Deixou a minha mãe apodrecer de tristeza. — Fez uma pausa curta. — E depois morreu como se não tivesse culpa de nada. Ele deu de ombros. — Mais um macho fraco no mundo. Celine sentiu o peito apertar pelos dois. Pela mãe dele. Pelo menino que ele devia ter sido. — E a madrasta? — perguntou, devagar. Os dedos dele apertaram um ao outro, os nós ficando brancos. — A Maura? — O nome saiu como veneno. — Inteligente. Fria. Sabia exatamente o que fazer pra espremer até a última gota de dinheiro e orgulho. Passou anos me olhando como se eu fosse um estorvo caro. — Ele deu um riso sem humor. — E eu, i****a, achando que um dia ela ia querer ser mãe de verdade. A frase parou no ar entre eles.
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