Patrícia se afastou, os olhos fixos nos dela. “Estou abrindo meu próprio restaurante. Eu seria a chefe. Estou procurando alguém que tenha um pouco para investir, que ficaria como subchefe.”
Os olhos de Celine brilharam. Subchefe. O sonho. Mas o dinheiro… A mãe, a voz da razão gritou. O tratamento.
Patrícia percebeu a hesitação. “Com certeza vamos recuperar o investimento já na primeira semana. O ponto é realmente bom.”
Celine fez as contas. Duas semanas pagas no hospital. Duas semanas. Era o tempo que tinha. Ela respirou fundo, o risco era enorme, mas a oportunidade… Arriscar. Tirou o envelope amassado do bolso, o último resquício de sua vida. Entregou a Patrícia.
“Você pode dormir em um quartinho em cima do restaurante”, Patrícia disse, pegando o dinheiro com um sorriso vitorioso.
Celine, radiante, sentiu um alívio que a fez tremer. Fiz a coisa certa.
Patrícia a levou a um salão vazio, com cheiro de tinta fresca. Deu uma cópia da chave. “Pode dormir no andar de cima. Volto em dois dias com as provisões para a inauguração.” E, com todo o dinheiro de Celine, Patrícia se foi.
Quatro dias se passaram. Depois, cinco. Celine ligou. O celular de Patrícia estava desligado. Ela correu ao antigo restaurante. “Patrícia? Ela não trabalha mais aqui”, informou um colega, o olhar distante.
Celine voltou ao salão vazio. O verdadeiro dono, um homem de rosto cansado, a encontrou na porta. “A Patrícia pediu para eu deixar uma amiga ficar aqui por uns dias, mas agora não posso mais. Vou abrir em breve.”
O ar faltou nos pulmões de Celine. Ela tentou encontrar Patrícia, correu pelas ruas, ligou para todos os números que tinha. Mas era tarde demais. O golpe. A ficha caiu, pesada, esmagadora. Ela tinha perdido tudo, de novo.
Celine vagou por horas. As ruas da cidade grande, antes promessa, agora eram um labirinto de concreto e indiferença. Apenas a roupa do corpo, suja e amassada, e alguns trocados no bolso. A mãe. A imagem dela, frágil no leito do hospital, assombrava cada passo. Mais alguns dias de tratamento pago, e então… o nada. Ela tinha perdido tudo. Tinha se deixado enganar. A única alternativa era voltar para casa, encarar a mãe, dizer que falhou. Ver a mãe morrer aos poucos, dolorosamente, em casa. A ideia era um punhal no peito.
Ela não suportava. Uma ideia mais sombria, um sussurro frio, começou a tomar forma: acabar com a própria vida. Mas Celine não tinha tanta coragem assim. Não para isso. Então, para colocar o plano em prática, ela decidiu usar o pouco dinheiro que restou para se embebedar. Tinha ouvido em algum lugar que a bebida dava coragem.
Foi assim que ela foi parar em um bar escuro, com cheiro de álcool velho e fumaça. Pediu a dose da bebida mais barata. Um gole, dois, três. As horas se arrastaram, e a mente de Celine afundou em um torpor alcoólico. Completamente bêbada, sem um tostão no bolso, ela cambaleou para fora. O mundo girava. Agora, sim. Agora era a hora de procurar uma ponte, um lugar alto de onde se jogaria.
Naquele exato momento, Adrian cortava as ruas da cidade em seu carro de luxo, um monstro de metal polido que deslizava pelo asfalto. O volante parecia queimar em suas mãos. Ele estava irritado. Alguém estava bagunçando seu território, e ele queria os culpados. Na verdade, queria a cabeça dos culpados. Seus olhos, frios e calculistas, varriam a noite, buscando algo, qualquer coisa, para descarregar a fúria que o consumia.
Foi então que ela surgiu. Do nada. Uma silhueta cambaleante, jogando-se na frente do carro.
Adrian pisou no freio com uma força brutal. Os pneus guincharam, rasgando o silêncio da noite, e o carro parou a milímetros da mulher. Ela caiu no chão, um monte desajeitado de roupas e desespero.
“p**a que pariu!” Adrian rosnou, a irritação aumentando. Ele abriu a porta com um chute e desceu. Por que a doida tinha caído? O carro nem sequer a tocou.
Mas então ela se levantou. Lentamente, desajeitada, os olhos fixos nele. Apontou o dedo trêmulo para o rosto de Adrian. Um sotaque arrastado, que evidenciava sua embriaguez, rasgou o ar.
“Você… seu desgraçado! Quer me matar?!” A voz dela era um misto de raiva e choro. “Tá certo que eu já estava mesmo pensando em morrer, mas você não tinha o direito de interferir! Eu faria como quisesse!”
Adrian observou o monólogo estranho, a audácia daquela bêbada imprudente, mas linda. Um sorriso sutil, quase imperceptível, começou a brincar em seus lábios. Aquilo era… divertido.
Ela o encarou, os olhos turvos, mas desafiadores. “E você? Também está aqui para tirar algo de mim?”
Adrian inclinou a cabeça, o sarcasmo pingando em cada palavra. “E o que, exatamente, uma mulher como você poderia oferecer para mim?”
Para sua surpresa, a resposta veio, crua e direta, um sussurro desesperado que cortou o ar da noite.
“Minha virgindade.”