O resto do dia correu como se a casa quisesse fingir que aquela conversa no escritório nunca tinha acontecido. Adrian se enterrou em relatórios, ligações, reuniões por vídeo com homens que falavam em cifras e armas como se estivessem discutindo clima. Celine se enfiou na cozinha, fugindo de pensamentos que teimavam em voltar.
Só que, por mais que cada um tentasse se esconder no próprio canto, as coisas começaram a escorregar pelas frestas.
Ele notou a primeira fissura no mesmo fim de tarde.
Saiu do escritório mais tarde que o habitual, o estômago avisando que tinha passado horas demais sem comer. Foi até a sala de jantar pronto pra engolir o que quer que Rosa tivesse deixado coberto, mas parou ao ver o que o esperava.
Havia um prato montado só pra ele, ainda quente. Nada de banquete. Um prato. Simples, bem servido, com o mesmo cuidado que ele lembrava do almoço. Ao lado, um bilhete dobrado.
Ele pegou o papel com dois dedos, pronto pra rasgar se fosse alguma ousadia.
“Rosa já foi embora. Esqueci que chefes não lembram de comer. Celine.”
Ele leu uma vez. Leu de novo. O “chefes” no plural o irritou. O “não lembram de comer” o irritou mais. Mas o que incomodava de verdade era o fato de alguém naquela casa ter pensado nisso sem estar na folha de pagamento pra isso.
Ele comeu tudo. Não comentou com ninguém.
No dia seguinte, a segunda fissura veio sem aviso.
Adrian estava pronto pra sair, terno impecável, pasta na mão, quando se viu lutar com a gravata em frente ao espelho do hall. O nó não queria fechar do jeito certo. Era um detalhe i****a, mas ele já estava irritado com um cliente que o tinha feito perder tempo.
— Deixa eu arrumar — a voz dela veio tão natural que ele nem ouviu a aproximação.
Quando deu por si, Celine já estava à frente dele, erguendo as mãos até o colarinho. O cheiro dela subiu de novo, familiar agora: sabonete simples, café e alguma erva que ela sempre usava na cozinha.
Os dedos dela trabalharam no tecido com segurança, como se já tivesse feito aquilo mil vezes na vida. Provavelmente tinha, de outro jeito, no restaurante, na mãe, em algum ex-namorado pobre qualquer. Pensar nisso o incomodou sem sentido.
Ela apertou o nó, ajeitou a gravata, deu um passo pra trás.
— Agora sim — murmurou.
O gesto foi tão doméstico, tão de “esposa que ajeita o marido antes dele sair”, que algo nele recuou na hora.
Ele segurou o pulso dela antes que ela se afastasse completamente.
— Não encosta em mim como se tivesse direito — falou, frio, os olhos presos nos dela.
Ela arregalou um pouco os olhos, mais surpresa do que assustada.
— Eu só arrumei uma gravata torta — retrucou, num tom calmo demais pra alguém na posição dela. — Não te pedi a certidão de casamento.
Ele demorou um segundo a mais segurando o pulso dela, como se testasse o próprio controle, e só então soltou.
— Da próxima vez, manda Marco — cortou, virando de costas.
Saiu como se nada tivesse acontecido. Mas, no carro, a lembrança dos dedos dela no colarinho, do jeito automático como tinha se aproximado, voltou mais de uma vez. Ele praguejou em silêncio e se enterrou no celular.
A terceira fissura veio em forma de briga.
Dois dias depois, Adrian atravessava o corredor a caminho da cozinha quando ouviu a voz de uma das faxineiras, aflita, e a de Celine, firme, cortando por cima. Acelerou o passo sem nem perceber.
— Eu… eu derrubei o vaso da sala principal, senhorita — a moça dizia, quase chorando. — Foi sem querer, eu tropecei no tapete…
— É só um vaso — Celine respondeu. — Você tá bem? Se cortou?
— Ele vai me mandar embora — a menina estava pálida. — Dizem que ele não perdoa erro, ainda mais em coisa cara…
Adrian dobrou a esquina a tempo de ver a cena completa. No chão, pedaços de um vaso que ele sabia que tinha custado caro. A faxineira tremendo. Celine de braços cruzados, entre a menina e o corredor, como uma barreira humana absurda pra posição dela.
— Ele quem? — Celine perguntou, e foi nesse momento que avistou Adrian aproximando. — Ele já chegou, por sinal.
A faxineira quase desabou.
— Sen-senhor Adrian, me desculpa, eu juro que foi—
— Fui eu — Celine entrou na frente, sem pensar. — Esbarrei no vaso.