05

1863 Words
05 -- Ethan Depois daquela ligação, a sensação foi de que o mundo tinha saído completamente do eixo. Eu levantei tão rápido da cadeira que ela caiu para trás batendo no chão do escritório, o barulho ecoando pelo apartamento silencioso enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo. Meu coração batia forte demais, minhas mãos tremiam e eu sentia como se estivesse correndo contra alguma coisa invisível que estava prestes a me alcançar. Passei pelo quarto da Lily e parei por um segundo na porta, olhando minha filha dormir profundamente, o rosto tranquilo, completamente alheia ao caos que tinha começado a destruir a nossa vida naquela madrugada. Aquela imagem me atingiu com força, porque em algum lugar dentro de mim eu já sabia que nada mais seria igual. Eu fui até o quarto da babá e bati na porta sem medir a força, sentindo o desespero tomar conta do meu corpo inteiro. Quando ela abriu, ainda assustada e sonolenta, eu falei rápido demais, tentando organizar as palavras enquanto passava a mão pelo rosto. — A Camila sofreu um acidente — disse, respirando pesado. — Eu preciso ir pro hospital agora. Fica com a Lily… não deixa ela acordar sozinha. A babá arregalou os olhos, claramente sem entender. — Senhor… ela tá bem? — perguntou, segurando a porta. Eu tentei responder, mas a voz simplesmente não saiu. Balancei a cabeça de um jeito confuso e saí andando antes que ela pudesse falar mais alguma coisa, sentindo o coração apertar a cada passo. A viagem até o hospital foi um inferno. A chuva caía forte no para-brisa, as luzes da cidade se misturavam em reflexos borrados e eu dirigia sem realmente perceber o caminho. Minha mente repetia a mesma frase o tempo inteiro: eu devia ter ido buscar ela. Eu devia ter insistido. Eu devia ter impedido. Quando finalmente cheguei ao NewYork-Presbyterian Hospital, praticamente abandonei o carro na entrada e corri para dentro, olhando em volta como se o lugar inteiro fosse um labirinto. Aproximei do balcão e apoiei as duas mãos nele, tentando controlar a respiração. — Minha esposa sofreu um acidente — falei, olhando diretamente para a recepcionista. — Camila Gates. Disseram que ela foi trazida pra cá. A mulher digitou rápido no computador e depois levantou os olhos para mim. — Senhor, por favor aguarde um instante. Aguardar era impossível. Eu comecei a andar de um lado para o outro, passando a mão pelo cabelo, sentindo o peito apertar cada vez mais. Cada porta que abria fazia meu coração parar por um segundo, cada pessoa de jaleco parecia carregar uma resposta que eu não queria ouvir. Até que um médico apareceu e veio na minha direção. — Mr. Gates? — perguntou, parando a poucos passos. — Sim — respondi imediatamente, aproximando. — Como ela está? Eu quero ver a minha esposa. Ele respirou fundo antes de falar, e aquele gesto já foi suficiente para me deixar em pânico. — O acidente foi extremamente grave — disse com calma. — O carro colidiu diretamente com a traseira de um caminhão. A estrutura ficou completamente comprometida. Eu balancei a cabeça, tentando entender. — Mas ela tá viva, não tá? — perguntei, sentindo a voz falhar. — Ela tá sendo atendida? O médico desviou o olhar por um segundo. — Nós fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. O mundo pareceu diminuir naquele instante. — Não… — murmurei, dando um passo para trás. — Não. Eu preciso ver ela. — Senhor… — ele começou, tentando manter o tom profissional — o impacto foi muito violento. Houve múltiplas lesões internas e externas. Ela infelizmente não resistiu. Eu fiquei olhando para ele como se ele tivesse falado em outra língua. — Não — repeti, agora mais alto. — Você tá errado. Eu falei com ela hoje. Eu discuti com ela hoje. Ela saiu de casa viva. Passei as mãos pelo rosto, sentindo o corpo inteiro começar a tremer. — Eu quero ver a minha esposa — falei novamente. O médico respirou fundo outra vez. — Eu não recomendo que o senhor faça isso. O corpo está… irreconhecível. Aquilo destruiu qualquer tentativa de manter o controle. — Irreconhecível? — repeti, sentindo as pernas enfraquecerem. — Você tá me dizendo que eu não posso nem ver a minha esposa? Ele manteve o silêncio por alguns segundos antes de responder. — O veículo foi praticamente esmagado pelo caminhão. Não seria uma imagem adequada para o senhor guardar. Eu sentei na primeira cadeira que encontrei, sentindo o ar faltar, sentindo a realidade cair sobre mim como um peso impossível de suportar. Algumas horas antes eu tinha mandado ela ir embora. Algumas horas antes eu tinha virado as costas. E agora… não existia mais volta. Eu não sei quanto tempo fiquei sentado ali olhando para o chão sem realmente enxergar nada. O barulho do hospital continuava acontecendo ao meu redor, pessoas andando, vozes baixas, telefones tocando, macas passando, mas para mim tudo parecia distante, como se eu estivesse dentro de um lugar onde o som não chegava direito. Em algum momento senti uma mão tocar meu ombro e quando levantei o rosto vi o mesmo médico me observando com uma expressão que misturava pena e cautela, como se ele estivesse tentando encontrar uma forma menos c***l de lidar comigo. — Mr. Gates, o senhor precisa vir comigo — ele disse, falando devagar, quase com medo da minha reação. Eu balancei a cabeça negativamente, sentindo a garganta fechar. — Eu quero ver ela — respondi, levantando da cadeira de forma desajeitada. — Eu preciso ver a minha esposa. Ele tentou manter a calma. — Eu entendo o senhor, mas não é possível neste momento. Aquilo me fez perder o pouco controle que ainda restava. — Como não é possível? — perguntei, a voz subindo. — Vocês estão me dizendo que ela morreu e eu não posso nem ver ela? Deixa eu ver ela… pelo amor de Deus. Algumas pessoas começaram a olhar na nossa direção. Eu passei a mão pelo rosto, sentindo as lágrimas começarem a cair sem que eu conseguisse impedir. — Eu só preciso ver ela… só isso. O médico respirou fundo outra vez. — O impacto foi extremamente violento. O corpo sofreu danos severos. Não seria algo que o senhor deveria guardar como última lembrança. Eu senti as pernas enfraquecerem novamente. — Não tem corpo? — falei quase sem voz. — Como assim não tem corpo direito? Ele não respondeu imediatamente, e aquele silêncio foi suficiente para me desesperar ainda mais. — Então como vocês sabem que é a minha esposa? — insisti, sentindo a revolta misturar com a dor. — Como vocês têm certeza? O médico fez um gesto discreto para uma enfermeira que estava próxima. Minutos depois ela voltou trazendo uma bandeja pequena com alguns objetos dentro de um saco plástico transparente. Quando colocou aquilo nas minhas mãos, o mundo pareceu girar. Era a bolsa dela, o celular e o relógio que eu tinha dado de presente no último aniversário. Eu segurei aquilo com força, sentindo o peito rasgar por dentro. — Os bombeiros identificaram rapidamente — explicou o médico com cuidado. — O veículo está no seu nome. Além disso, o senhor é uma figura pública conhecida. Foi possível confirmar a identidade no local. Eu não conseguia parar de olhar para aqueles pertences como se eles fossem a única prova de que tudo aquilo era real. Algumas horas antes aquela bolsa estava no ombro dela. Aquele celular estava na mão dela. Aquela mulher estava viva. Agora… só aquilo tinha sobrado. — Eu quero ver ela — repeti, quase implorando outra vez. Um segurança se aproximou discretamente, talvez com medo de que eu perdesse completamente o controle. O médico colocou a mão no meu ombro. — Mr. Gates, o senhor precisa ser forte agora. Há procedimentos legais. Precisamos que o senhor assine alguns documentos. Assinar. Como alguém assina um papel confirmando que a própria esposa morreu? Eu caminhei sendo praticamente conduzido por eles até uma sala pequena, fria, com uma mesa simples e algumas cadeiras. Um funcionário colocou alguns papéis na minha frente e começou a explicar coisas que eu não conseguia ouvir direito. Minha mente só conseguia pensar em uma única coisa. A Lily, minha filha estava em casa dormindo esperando a mãe voltar. Eu apertei a caneta entre os dedos, sentindo as mãos tremerem. — Como que eu vou falar pra ela? — perguntei de repente, olhando para o nada. — Como que eu vou dizer pra minha filha que a mãe dela morreu? Ninguém respondeu. Talvez porque não existisse resposta. — Ela é só um bebê… — continuei, a voz quebrando completamente. — Ela nem entende nada. Ela vai acordar amanhã… e a Camila não vai estar lá. As lágrimas começaram a cair de novo, pesadas, sem controle. — Como é que eu vou fazer isso sozinho? Pela primeira vez na minha vida… eu me senti completamente perdido. u só conseguia repetir para mim mesmo que precisava ver a Camila, precisava confirmar que aquilo não era um erro grotesco, que alguém iria aparecer dizendo que tinham confundido o nome, que ela estava em outra sala, viva, irritada comigo, reclamando da chuva ou da dor de cabeça depois de beber. A necessidade de olhar para ela era quase física, como se só assim eu conseguisse impedir que aquela realidade se tornasse definitiva. — Eu preciso ver a minha esposa. Minha própria voz soou estranha para mim, rouca, cansada, desesperada. O médico respirou fundo antes de responder. — Mr. Gates… eu posso mostrar ao senhor apenas uma parte. Não será fácil. Eu apenas assenti porque já não existia escolha possível. Fui seguindo ele por um corredor longo e frio, sentindo o coração bater forte demais, sentindo imagens da Camila invadirem a minha mente sem pedir permissão. Ela rindo na cozinha. Ela andando descalça pela sala com a Lily no colo. Ela me encarando horas antes no estacionamento, irritada, viva, cheia de movimento. Quando entramos na sala, o cheiro pesado do ambiente me fez engolir seco. Ela estava ali, coberta por um lençol branco, completamente imóvel, pequena demais dentro daquela situação absurda. — Eu vou levantar só um pouco. O médico disse isso com cuidado enquanto segurava o tecido. Eu não consegui responder. Ele puxou o lençol apenas o suficiente para revelar uma parte. E foi quando eu vi o pé dela. A pele branca demais, sem vida, a unha pintada de vermelho exatamente como ela sempre gostou de usar. Aquela visão simples, quase banal, foi suficiente para destruir qualquer resquício de negação que ainda existia dentro de mim. Era ela. Não havia mais dúvida. Não havia mais esperança escondida em algum canto. — Não… não pode ser… — Senhor, cuidado. Mas já era tarde demais. Eu caí ali mesmo, levando as mãos ao rosto e começando a chorar de um jeito descontrolado, alto, cru, como se algo estivesse sendo arrancado de dentro do meu peito. — Eu deixei você ir… As palavras saíram entre soluços. — Eu mandei você ir embora… O mundo inteiro parecia ter parado naquele ponto. E pela primeira vez na minha vida eu entendi o que era perder alguém para sempre.
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