Ponto de vista do narrador
O resto do dia passou naquele ritmo confortável e previsível da papelaria.
Natália ajudou estudantes com listas de materiais, separou cadernos, conferiu tintas de impressora, arrumou a prateleira de canetas que insistia em cair, tudo no automático, com a mente distante.
Às vezes, lembrava da menininha mais cedo, segurando a borracha como se fosse um tesouro. Outras, tentava ignorar a sensação estranha no peito sempre que o nome Carlos Eduardo aparecia na memória.
Quando o relógio finalmente bateu o fim do expediente, Natália respirou fundo. Guardou seu crachá, fechou a gaveta e deu o último tchau para a dona da papelaria — um aceno preguiçoso e simpático dela, como sempre.
O ar da noite estava fresco quando ela saiu. O campus ficava a alguns quarteirões dali, então foi caminhando devagar, apreciando a calma da rua iluminada pelos postes amarelos.
Conforme se aproximava da entrada da faculdade, o som surgiu primeiro.
Um ronco grave, forte, que fez alguns alunos virarem o rosto. O tipo de som que ninguém ignora.
Natália já sabia quem era antes mesmo de ver.
A moto preta apareceu na curva como se tivesse sido tirada de um comercial. Brilhante, imponente, polida ao ponto de refletir as luzes da rua. O piloto desacelerou com facilidade, como se o veículo fosse uma extensão dele.
Carlos Eduardo tirou o capacete com um movimento fluido. Seus cabelos crespos eram no estilo Black Power, ele gostava de usar assim, dava um ar charmoso e um ar levemente rebelde. Ele sorriu ao vê-la. Aquele sorriso meio torto, meio confiante, que tinha o dom de fazer o estômago dela virar.
— Boa noite, Natália — disse ele, descendo da moto. — Achei que já estava por aqui fazia tempo, você sempre chega cedo. Vamos entrar?
Ela ajeitou a alça da bolsa no ombro, tentando parecer indiferente, mesmo sentindo o coração acelerar como o motor da moto dele.
— Cheguei agora há pouco. O dia foi cheio.
— Muito cansativo? — Ele deu um passo à frente, aproximando-se o suficiente para que ela sentisse o calor que vinha dele, mesmo no vento frio da noite.
— Um pouco — respondeu, olhando para qualquer coisa que não fossem aqueles olhos.
Eles atravessaram o portão lado a lado, e Natália teve a sensação de que o movimento ao redor desacelerava. Era só a rotina típica — alunos conversando, passos apressados, mochilas arrastando — mas ao caminhar com Carlos, tudo parecia mais leve.
Ele carregava o capacete em uma mão e mantinha a outra perigosamente próxima da dela, quase tocando, mas sem ultrapassar o limite.
— Qual matéria você tem agora? — perguntou enquanto subiam as escadas.
— História da Educação — respondeu, fazendo uma careta. — Hoje é revisão.
— Então vai ser tranquilo. — Ele sorriu. — Quer que eu te acompanhe até a sala?
Ela hesitou apenas para não parecer ansiosa.
— Pode ser.
A sala já estava cheia quando chegaram, e algumas sobrancelhas se ergueram ao vê-los entrando juntos. Carlos não reagiu — ou fingiu muito bem que não ligou. Ele a acompanhou até a porta.
— Te vejo no intervalo — disse, com aquele brilho misterioso nos olhos.
Natália apenas assentiu, tentando esconder o quanto aquilo mexia com ela.
As aulas passaram devagar. Não porque fossem entediantes — ela até gostava da matéria — mas porque, pela primeira vez, sua cabeça não estava ali. Estava em alguém.
No intervalo, ele já a esperava, encostado no corrimão do pátio, mexendo no celular. Suas roupas impecáveis como sempre, postura relaxada, chamando atenção sem sequer tentar.
— Você sumiu — ele brincou quando ela se aproximou.
— A aula demorou — mentiu.
Demorou nada. Ela que se atrasou para não parecer ansiosa.
Conversaram por alguns minutos — sobre a professora, o trabalho da semana, bobagens — e Natália percebeu o quanto era fácil falar com ele. Carlos a olhava com atenção real, o tipo de olhar que fazia suas mãos esfriarem e a respiração encurtar.
- Você faz pedagogia né? Ele perguntou querendo saber mais sobre a jovem que chamava cada vez mais sua atenção.
- Sim. Quero me especializar em crianças com necessidades especiais.
Ele sorria para ela, e por algum motivo pensou em sua irmã, afinal ele sabia que a babá de sua irmã logo sairia de licença maternidade. E então deixou sua mente viajar na possibilidade. Seus pensamentos interrompidos pelo sinal que tocava. Eles se despediram ali, com a promessa de se verem após as aulas.
A última aula arrastou-se. Natália olhou para o quadro, para o relógio, para o caderno, até que finalmente o sino libertador ecoou. Guardou tudo depressa e saiu quase correndo.
Carlos já estava no final do corredor.
— Achei que ia ter que te buscar — disse ele, com o sorriso torto de sempre.
— Sou rápida — respondeu, tentando parecer no controle.
— Vamos? Te acompanho até a saída.
Eles caminharam devagar, como se nenhum dos dois tivesse real vontade de chegar ao portão. A conversa fluiu fácil, leve.
Ao chegarem ao fim das escadas, ele diminuiu o passo e ficou ainda mais perto.
— Sabe eu estava pensando que você poderia trabalhar com crianças ao invés de trabalhar na papelaria. — Murmurou.
Ela ficou curiosa com o assunto que surgiu do nada.
— Sem experiencia é quase impossível — Falou de forma meio desanimada.
— Hmmm. — Ele a encarou tão profundamente que ela podia ver seu próprio reflexo nos olhos dele. — Nem tudo se trata de experiência, o talento conta muito, e o amor também faz toda a diferença.
Ela maļ conseguiu respirar, ficou vermelha, algo naquela frase parecia ter um duplo sentido.
Carlos sorriu de novo, suave, compreensivo, quase perigoso.
— Vem. Te levo até o portão.
Já no estacionamento, ele caminhou até a moto, apoiou o capacete no banco e a encarou.
— Quer uma carona até em casa?
Natália hesitou. Só um segundo.
Mas suficiente para ele entender que aquela pergunta dizia muito mais do que parecia.
— Não mordo, prometo — brincou, levantando uma sobrancelha.
Ela riu baixinho.
— Eu sei…
E, por algum motivo que ela não ousou analisar, deu um passo em direção a ele.
Carlos entregou o capacete extra, colocando-o em suas mãos com um cuidado quase reverente, e disse:
— Então sobe.
O motor roncou, profundo, e eles partiram. Ao chegar até sua casa, Natália desceu, tirou o capacete e, corando de leve, perguntou o que já sabia a resposta:
— Obrigada pela carona. Você mora longe dessa área, não tem medo?
Carlos sorriu devagar.
— Eu tenho medo de ficar sem te ver ou te perder.
Ele deu um passo adiante, sedutor, firme.
— Eu quero cuidar de você, de todas as formas possíveis.
Natália já não raciocinava direito — o coração, o corpo, tudo reagia a ele — quando três vozinhas conhecidas romperam o encanto.
Os trigêmeos.
Correndo na direção dela, enquanto sua mãe caminhava atrás com sacolas do mercado do outro lado da rua.
A mãe parou, olhou os dois e disse:
— Filha, vamos entrar. Está tarde. Se despede do seu amigo.
Natália assentiu e despediu-se de Carlos rapidamente.
Ele subiu na moto e partiu enquanto ela corria para dentro de casa, fugindo das perguntas que sabia que viriam se desse tempo à própria mãe.
Logo que saiu do banho, seu telefone tocou, ela o atendeu. Seu futuro novamente mudado após uma ligação.