05

2668 Words
DULCE Eu não achei que uma pessoa precisasse de tantas coisas, mas Christopher me surpreendeu de verdade. O pior era que eu nem sequer havia começado o trabalho como sua secretária na empresa e só o cargo de assistente pessoal foi capaz de arrancar todas as minhas energias naquele dia. Eu tive até mesmo que fechar as cortinas da sala dele depois que seu expediente acabou. Sério, qual a dificuldade em levantar e fazer isso sozinho? E vale frisar que ele foi um dos últimos a deixar a empresa, então eu saí de lá bem tarde. Pelo menos eu pude ver a embalagem vazia dos cupcakes na lixeira. Ele disse que não gostava de doces, mas deixou apenas as migalhas.  Quando cheguei em casa, Blanca estava meditando sobre um tapete de ioga no chão.  — Chegou tarde. — ela disse. — Como foi o seu primeiro dia?  — A palavra mimado não parece ser um termo bom o suficiente pra descrever o meu chefe. — bufei, me jogando no sofá.  — Suas calças estão sujas de terra. — apontou para minhas pernas. — Ah, desculpe. — deslizei pelo sofá até chegar no chão. — E ele poderia ter me mandado vir pra casa trocar de roupa, mas você acha que ele se importou com o fato de eu estar parecendo uma sem teto dentro da empresa? Claro que não! — reclamei irritada. — Era pra isso ser mais fácil.  — O Christopher não é um homem fácil quando se trata do trabalho, querida. — sorriu fraco. — Ele não é assim fora da empresa. A verdade é que eu tenho ótimas conversas com ele quando nos vemos, é um rapaz adorável quando não está sendo profissional.  — Acredito nisso. — fui sincera. Eu o vi ser adorável sozinho em sua casa, então por mais que estivesse com raiva do modo como ele me tratou, ainda estava esperançosa. — Apesar de tudo, acho que eu consigo lidar com ele.  — E como você faria isso?  — Bom, eu o obriguei a comer cupcakes hoje.  — Doces? Ele não gosta de doces. — falou com estranheza.  — Parece que ele mente para as pessoas sobre isso. — ri.  — Está de parabéns, isso é incrível. — riu também.  — Valeu. — tomei impulso para ficar de pé. — Agora eu só quero tomar um banho e dormir.  — Por que não vem meditar um pouco? Vai se sentir melhor. — sugeriu.  — Obrigada, Branca de neve, mas eu estou atordoada de tanto sono. — bocejei, passando por ela.  — Me chamou de quê? — perguntou num tom sério.  — Uh? — virei para ela novamente, sem entender a pergunta.  — Do que você me chamou?  — De Blanca. — falei como se fosse óbvio.  — Não. — ela ficou de pé e continuou com o rosto sério. — Você me chamou de Branca de neve.  Eu tomei fôlego e depois soltei o ar lentamente. Eu havia cometido um deslize só por estar um pouco cansada.  — Você ouviu errado. — foi a única coisa que eu pensei em dizer.  — Não ouvi não. — deu alguns passos na minha direção como se estivesse prestes a me atacar. Eu me afastei e olhei para ela com estranheza, tentando fazer ela achar que a situação era muito mais estranha para mim do que para ela.  — Por que eu te chamaria assim? — perguntei.  — Me diz você. — cruzou os braços. — A minha irmã me chamava assim. Só a minha irmã.  — Tem certeza que você ouviu bem? — insisti com a ideia de que ela não ouviu direito.  Blanca respirou fundo e descruzou os braços, saindo da sua pose defensiva.  — Tem razão. Eu devo ter ouvido m*l. — deu de ombros.  — Ok, então. — sorri sem jeito. — Eu vou subir agora. Boa noite, Blanca.  — Boa noite, Dulce. — sorriu também.  Soltei o ar quando cheguei ao andar de cima. Eu tinha que parar de ser tão desastrada ou acabaria me metendo em situações desconfortáveis a todo instante. Ao menos agora eu poderia entrar em meu quarto e respirar com mais calma depois de um dia cheio. Assim que abri a porta, a figura de alguém sentado em minha cama me assustou. Eu pulei para trás e gritei, tampando minha boca em seguida ao notar que o invasor era nada mais nada menos do que o Klaus.  — Dulce? — ouvi Anahi me chamar do outro lado da porta. — Você está bem?  — Sim! — gritei de volta. — Eu só vi uma aranha, mas já matei.  — Ah, ok. — afastou-se.  — Uma aranha? — Klaus franziu a testa. — Que comparação horrível.  — O que preferia que eu dissesse? "Tem um anjo no meu quarto"? — fui irônica.  — Arcanjo. — me corrigiu. — Faz quarenta e cinco anos, Dulce, você deveria ter aprendido que eu sou um arcanjo!  — O que você está fazendo aqui? — ignorei sua reclamação e o questionei.  — Você retirou o radar. — seu tom era de repreensão. — Dulce, me diga que não vai fazer o que estou pensando que vai.  — O que vai acontecer se eu contar? Você vai me levar?  — Não, eu não posso te levar porque você tirou o radar.  — Ótimo, então eu conto. — dei de ombros. — Eu quero ter um final feliz. Sempre quis viver uma história de amor com alguém e eu nunca tive a chance de algo parecido com isso. Eu sempre estou a um passo atrás de todo mundo.  — Olha, meu anjo, Dulce Saviñon é só mais uma vida. Vão haver outras, você vai ter dezenas de finais felizes e dezenas de decepções. — ele disse com impaciência.  — Já ouvi isso antes e não vou me deixar levar por isso. Eu quero ser feliz agora, Klaus. Sou péssima como um cupido e vou ser péssima em qualquer função que você me colocar. Eu quero poder amar de verdade e ser amada pelo menos uma vez antes de ir para o limbo.  — Você não vai para lá. — Klaus não disse isso como uma afirmação, mas sim como algo em que ele próprio queria acreditar.  — Eu vou, todo mundo sabe. — sorri com tristeza. — Me tornar o amor da vida do Christopher é mais do que uma justiça pra mim, é uma forma de salvar a minha alma. Eu quero ter uma segunda chance na Terra e esse é o único jeito de me redimir.  — E você acha que vai ser uma pessoa melhor do que foi no passado?  — Eu sei que eu teria sido bem melhor se alguém me amasse como eu amava o Nathan.  — E você ama o Christopher?  — Bom, ainda não, mas...  — Dulce, você fez uma pá de reclamações sobre ele e hoje é só o primeiro dia em que estão convivendo. Por que diabos acha que você vai amá-lo? Ele se parece com o avô, mas ele não é o Nathan!  Suspirei e sentei sobre a cama. — O Christopher é bem diferente do Nathan, mas ele não é aquela casca grossa que quer que todo mundo pense que ele é. Eu vi o quanto ele pode ser doce e sensível. — olhei para Klaus de relance. — Eu senti algo pela parte dele que ele tanto tenta esconder. E eu posso fazer ele mostrar isso para o mundo. Eu sei que posso amá-lo, Klaus.  — E ele pode amar você? — a pergunta fria me fez sentir m*l.  Fiquei em silêncio, sem conseguir pensar em uma resposta para aquilo. Ao meu lado, Klaus se aproximou mais e tocou a minha cabeça, fazendo um cafuné carinhoso.  — Quando você tirou o seu radar, colocou um limite na sua tarefa.  — Como assim? — franzi a testa.  — Você tem cem dias para encontrar o amor da vida do Christopher, sendo você ou outra mulher, não importa. Você tem que fazer ele amar e ser correspondido, ou... — engoliu em seco. — Já sabe.  — Você não me contou isso! — me desesperei.  — Está nas entrelinhas do seu contrato como cupido. Não achei necessário relembrar porque nenhum anjo foi capaz de tirar o radar como você fez. Me deixou de mãos atadas, Dulce. — Cem dias é muito pouco! — meus olhos se encheram de lágrimas.  — Eu sinto muito. Não sou eu quem faz as regras. — ficou de pé. — Espero que consiga.  — Mas... — antes que eu implorasse, ele já havia sumido. — Não... — meus olhos arderam e lágrimas pesadas desceram pelo meu rosto. — O que eu vou fazer!?  Fiquei de pé e comecei a andar de um lado para o outro. Tive um excesso de fúria e soquei a escrivaninha, esquecendo totalmente da força sobre-humana que o colar de Klaus estava me dando. Agora eu tinha uma mesa com um buraco e um problema maior do que todos os outros problemas que eu já criei antes.  [•••] CHRISTOPHER A minha assistente nova era no mínimo... estranha. Foi a primeira mulher que não se conteve em olhar feio para mim ou usar um tom sarcástico toda vez que eu estava sendo grosso. Dulce era irritante, isso eu não podia negar, mas uma parte de mim achou interessante essa novidade de ter alguém com audácia o suficiente para me desafiar. O que ela não sabia era que eu gostava de desafios. Era como um jogo e Dulce era a fase principal, uma mulher que ainda não havia sido domada, mas que iria em breve.  Chegando em casa, fui recebido por Thor que pulou em mim para um abraço, como fazia todos os dias. — Ei, garoto! — beijei sua cabeça. — O que você aprontou hoje?  Subi até o meu quarto e peguei o meu notebook para dar uma olhada nas câmeras de segurança. Dulce havia sido perseguida e derrubada pelo meu cachorro no jardim e eu estava doido para ver aquilo. Como se também quisesse apreciar seu pequeno feito, Thor sentou ao meu lado na cama e apoiou a cabeça na minha perna livre.  Comecei a ver a filmagem do jardim mais cedo e não parei de rir vendo Thor pular sobre ela na grama, latindo e sujando ela inteira de baba. Ele só estava tentando brincar, jamais machucou alguém antes, sendo uma pessoa desconhecida ou não. Com toda certeza o medo fez Dulce enxergar o meu cachorro como uma fera selvagem e cheia de raiva.  Parei de rir quando vi que ela conseguiu imobilizar o Thor embaixo dela com muita facilidade, o que era estranho já que Dulce não tinha o porte físico de alguém forte e um rottweiler como o meu com toda certeza tinha mais resistência que ela. Ainda assim, pareceu fácil prender o cão entre suas pernas.  — Como ela fez isso? — estranhei. — Eu deveria perguntar? — olhei para Thor, que ergueu a cabeça para mim como se me entendesse. — Você quer que eu dê um sermão nela por não ter entendido que você só queria brincar? — segurei a cabeça dele e ele lambeu minhas mãos. — Isso é um sim? — ri.  Alguém me ligou por vídeo chamada no notebook e eu suspirei de tédio ao ver o nome do meu pai. Fazia um tempo que ele e a minha mãe estavam ligando e eu não sinto vergonha de admitir que os evitei propositalmente. Não é que eu tivesse uma má relação com eles, meus pais eram amorosos até demais, mas eram totalmente diferentes de mim e suas personalidades eram sufocantes. No mais, isso nunca foi um problema, até o dia em que meu querido pai resolveu que queria fazer jus ao seu papel como sócio majoritário da empresa e eu sentia que ele estava a um passo de me tirar do meu cargo.  — Oi, pai. — falei ao atender.  — Oi, filho! — abriu um sorriso enorme. — Eu e sua mãe vamos voltar da Grécia semana que vem. Estou tentando ligar para você há dias, mas sempre está ocupado.  — Você podia ter mandando uma mensagem, um e-mail, sei lá. — dei de ombros.  — Não, eu prefiro ouvir a voz do meu filho.  — E onde está a mamãe? — cortei o papo sentimental.  — Ela foi jantar fora, mas eu fiquei aqui trabalhando. Sabe que eu estou analisando muitas coisas sobre a empresa. — Está? — fiquei preocupado.  — Você contratou uma assistente pessoal?  — Eu vou pagar ela com o meu dinheiro. — deixei claro. — Mas ela também vai ser sua secretária.  — E vai receber da empresa por essa parte da função dela.  — Não pode contratar uma pessoa para realizar duas funções. — me olhou com repreensão.  — Ela aceitou, você não pode me proibir. Além disso, eu estou pagando bem mais do que a empresa vai pagar. São dois empregos diferentes, não há nada de errado nisso.  — Talvez você só precise de uma assistente porque trabalha demais. Não tem tempo para cuidar da sua vida como qualquer outra pessoa cuida. Quando eu voltar vamos conversar melhor sobre suas funções.  — Você não vai me tirar do meu cargo. — eu disse irritado, com o mesmo tom de quando eu era só um adolescente birrento.  — Eu não disse que vou te tirar do seu cargo. — meu pai e sua enorme paciência comigo. — Vamos fazer o que for melhor para você.  — O melhor para mim é deixar as coisas como estão. Você não quis a presidência porque queria aproveitar a riqueza com a mamãe, eu quis porque gosto de trabalhar, gosto de estar no controle e de ser um líder. Estamos todos felizes assim.  — Você está feliz? — riu. — Filho, você sempre fala com arrogância e impaciência. Você nunca parece feliz.  — Não me conhece, Victor? Esse sou eu sendo feliz, já deveria saber.  — Quando eu voltar, vamos marcar uma reunião com os acionistas e...  O interrompi.  — Pai, eu tenho que ir agora. Preciso sair daqui a alguns minutos. — e de quebra terminaria com o assunto chato.  — Fugindo da conversa como sempre, não é, Christopher?  — Eu tenho mesmo que sair.  Era verdade. Megan Morgan estaria indo me encontrar no hotel em pouco tempo e eu não era um homem que se atrasava. — Tudo bem. E, filho, eu falei com a mamãe essa semana. Ela quer que você vá visitá-la.  — Se eu tiver tempo.  — Sabe que ela se sente sozinha e está com saudades do neto que parece dar mais importância ao trabalho do que à família.  — Pai, pelo amor de Deus... — revirei os olhos. — Ok, eu vou fazer uma visita essa semana.  — Obrigado. Até depois. Te amo.  — Também te amo.  [•••] Depois de tomar um banho, me vestir e usar meu melhor perfume, eu saí de casa e fui direto para o hotel. Fui informado de que Megan já estava me esperando e assim que abri a porta do quarto ela veio até mim com aquele olhar fatal, já erguendo suas mãos ligeiras para o meu peito.  — Eu estava ansiosa pra te ver. — falou de forma manhosa, erguendo os pés para chegar mais perto do meu rosto.  Antes que seus lábios pudessem tocar os meus eu segurei seu rosto com firmeza, a parando.  — Eu não beijo ninguém, p***a. — relembrei.  — Tudo bem. — mostrando não se abalar com nada, Megan manteve a postura sexy. — Posso beija-lo em outro lugar. — abaixou, ajoelhando na minha frente.  E como em todas as noites que tive com ela, Megan não decepcionou e fez tudo o que eu gostava, me satisfazendo o suficiente. E por me conhecer tão bem e ser tão boa, Megan tinha o privilégio de ser uma das únicas com quem eu repetia os encontros casuais.
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