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2527 Words
DULCE Dias atuais E não é que eu me saí bem m*l como um cupido? Quem diria! Talvez o meu erro fosse tentar justiçar os amores não correspondidos e isso acabava fazendo com que eu criasse um mar de corações quebrados. Eu deveria ser o anjo das ilusões amorosas, caso o cargo existisse.  Foram exatamente sessenta e três tarefas falhas. E mesmo que Klaus se negasse a admitir, eu tinha certeza de que ele estava pensando em como me enfiar em um daqueles cubículos com os termômetros, os anjos do clima. Eu ainda tinha mais trinta e sete chances e não podia desistir assim, apesar do desânimo.  — Vai, fala logo! — eu gritei para o monitor enquanto caminhava de um lado para o outro da sala.  Sarah Grace estava tendo o seu quinto encontro com o terceiro homem em quem eu dei uma flechada. Ele a estava deixando em casa e eles tinham acabado de dar um beijo de boa noite. Tudo o que ela precisava fazer era convida-lo para entrar e elevar a relação para um outro nível.  — Você quer...  — Isso, fala! — implorei.  — Desculpe, Sarah. Acho que devíamos ver outras pessoas.  — O que? Não! Não! Não! — bati em minha mesa com força.  E mais uma vez a cena se repetia. O flechado terminava tudo e o meu humano acabaria a noite chorando e se perguntando qual o sentido da vida.  Fervilhei de raiva quando a notificação "status atual: incompatíveis" apareceu na parte de cima da tela. Agora era a hora mais chata: cuidar do relatório detalhado e encaminhar Sarah Grace para outro cupido. Eu odiava a parte da burocracia.  Depois de relatar os meus erros e passar a minha humana para outro, eu merecia relaxar um pouco e para isso eu fui até a área de recreação do céu, um espaço criado para os anjos descarregarem as energias e espairecerem um pouco depois de trabalharem tanto. Era um lugar que mais parecia um bar, mas sem a bebida alcoólica, o que foi terrível para mim nos primeiros dias, até eu começar a me acostumar com o suco celestial que eles serviam.  Quando entrei, avistei Klaus ao balcão tomando um drink daquela coisa indescritível.  — Dia difícil? — ele perguntou quando eu sentei no banco ao seu lado.  — Falhei com a Sarah Grace também. — bufei. — E lá se vai a tarefa sessenta e quatro.  — Sabe, Dulce, eu gosto de você. Não gostei no início, mas você se mostrou bem parecida comigo. Eu também não tenho muita paciência.  — E você costumava negar esse seu lado. — ri.  — De fato. — concordou. — E por gostar de você, eu quero te oferecer um update.  — Como assim?  — Não ofereço isso para todos os anjos e a maioria não aceita, mas é algo que realmente pode dar certo. Você pode descer até a Terra e ajudar o seu próximo humano pessoalmente, como se você fosse só uma amiga aconselhadora. Mais eficaz do que só observar e dar flechadas, uh? Você pode literalmente sussurrar no ouvido do seu humano.  — Isso parece ótimo. Eu gostaria de fazer isso.  — Tem um preço.  — Claro, nada que é bom vem de graça aqui. — revirei os olhos.  — Você vai ter que abdicar de todas as suas outras trinta e tantas tarefas, além de perder o direito ao cargo de anjo do clima. Se falhar com o humano na Terra, voltará aos céus direto para o limbo. Sem trabalho, sem reencarnação.  — Sendo assim, nem pensar!  — Vou deixar a sugestão em aberto. Se mudar de ideia, fale comigo.  Arriscar tudo o que eu tinha era loucura, ainda mais sendo um cupido desprovido de talento. Me contentaria em continuar monitorando dali de cima, no conforto do meu escritório.  Depois de relaxar, eu retornei ao trabalho. Anjos não dormiam, não comiam, não sentiam nenhum incômodo corporal, portanto podiam e deveriam trabalhar sem parar, cumprindo todas as horas extras possíveis.  Uma nova notificação chegou em meu monitor.  "Você tem uma nova tarefa."  — Vamos lá... — suspirei. — Quem será a minha próxima vítima?  Toquei na tela e a imagem do meu humano número sessenta e cinco apareceu. Travei no momento em que o vi e fiquei totalmente confusa.  — Nathan? — arregalei os olhos. — Não é possível... — chequei o ano. 2021. — Bom, você não é o Nathan.  Continuei observando o homem vestido em um terno que com certeza era bem caro, andando de um lado para o outro enquanto falava sobre negócios com outras pessoas sentadas em uma enorme mesa. Era uma reunião e ele parecia comanda-la.  — Quem é você? — indaguei, indo para a ficha de detalhes.  Nome: Christopher Von Uckermann.  Idade: 28.  Formação: Bacharel em direito e doutor em ciências jurídicas. Filiação: Alexandra e Victor Uckermann.  — Você é filho do pequeno Victor!! Oh, céus, nem acredito que vou poder saber um pouco do que aconteceu depois que eu morri! — exclamei, abrindo um enorme sorriso.  Ocupação: Diretor executivo de uma empresa de advocacia.  Humor dominante: Raiva e luxúria.  — Advogado, empresário, irritado e com t***o. Isso vai ser difícil. — coloquei minha mão sobre a testa.  Sexualidade: Hétero.  Média de parceiras sexuais por semana: 3,4. Média de encontros românticos por semana: 0.  Vezes em que se apaixonou em vida: 1. — Ótimo! Um hétero mulherengo. — rolei os olhos com tédio. — Você só se parece com o Nathan fisicamente.  Relatório do cupido anterior:  "Serei curto com você, querido colega de profissão: desiste desse cara, ele só vai te causar uma perda incontável de penas das suas asas. Passe para o próximo antes que esse caso perdido te aborreça!  Ass: Anjo do amor Rick". — Uau... — voltei para a tela principal onde podia observar o Christopher. — Eu nunca vi um relatório tão desanimador. — olhei para a imagem dele na tela com atenção, ficando quieta por alguns segundos. — Eu sei que não sou o melhor cupido, mas eu não quero soltar a sua mão agora. Poxa, você é neto do Nathan e da Lia! Será que eles ainda estão vivos? E aquele bebê que ela ia ter? Será que era um menino ou uma menina?  Não fiz mais nada além de observar. Christopher não deu nenhum sorriso enquanto esteve no trabalho. Ele se manteve sério e focado mesmo quando estava sozinho em sua sala. E confesso que aquela feição rígida e bruta era hipnotizante. Eu não consegui desviar os meus olhos do rosto dele de jeito nenhum, principalmente quando ele passava a língua entre os lábios.  Eu sei que não era o Nathan, mas mesmo assim eu senti alguma coisa palpitar em meu peito. E eu vi claramente na ficha de Christopher o quanto ele era o oposto de seu avô, então eu não deveria estar me sentindo tão atraída, mas parecia inevitável.  Ele também tinha os olhos de cor confusa. Será que o sorriso era tão brilhante também? Se ao menos ele mostrasse um pouco os dentes eu poderia descobrir e me derreter mais um pouco. Christopher era um chefe autoritário, isso era evidente. Não olhava nos olhos dos seus funcionários e eu posso jurar que sua secretária estava tremendo quando ele a chamou em sua sala. Ah, não, coitada! Estava levando uma bronca daquelas. Ele a estava demitindo e agora ela chorava e implorava. — Que babaca. — franzi a testa.  A empresa colocou um anúncio no site deles para que novas pessoas entregassem seus currículos para a vaga. Eu esperava que a próxima tivesse pulso firme, porque não seria fácil lidar com aquele homem. Sei que se eu estivesse naquele cargo não deixaria ele me tratar daquela forma. Se ele era bruto, eu conseguia ser bem mais.  Por que eu estava pensando em mim como secretária dele? Será que... Não, eu não vou arriscar todas as minhas chances em alguém tão difícil.  Christopher terminou o expediente e voltou para casa. Quando ele abriu a porta, um rottweiler enorme pulou em cima dele, o fazendo rir pela primeira vez naquele dia e abraçar o cachorro enquanto dizia que também sentiu saudades.  — Own... — murmurei abrindo um sorrisinho.  Ele era m*l com as pessoas, mas despejava amor em seu cachorro. Não o julgo em não saber lidar com a humanidade, porque eu claramente também não sei. Christopher foi tomar banho e eu tive a decência de não espiar aquela parte. Por mais lindo que ele fosse, eu não iria desrespeita-lo. Se bem que dado o número de mulheres com quem ele transava por semana talvez ele não fosse se incomodar que uma a observasse do céu.  Não, não, você não vai vê-lo nu, Dulce! — me auto-repreendi.  Christopher se arrumou, deixou comida para o seu cachorro e saiu novamente. Ele iria se encontrar com alguém. Ele passou para buscar uma mulher chamada Megan. O monitor informou que eles já haviam tido dezenas de encontros e que ela era a única com quem ele mantinha uma relação além do sexo.  — Talvez eu devesse flechar a Megan.  Os observei dentro do carro dele. Ela olhava para ele com muito mais apresso. Christopher apenas se concentrava na estrada com um semblante sério, não havia interesse romântico por parte dele.  Eles jantaram e eu sinceramente não achei que Christopher tinha qualquer sentimento por Megan, então desisti da ideia de flecha-la. Não era para menos, a mulher estava quase tirando as roupas no meio do restaurante do tanto que se oferecia para ele. Até eu que era péssima em atrair caras legais sabia que isso não dava certo com o tipo do Christopher. Eu precisava esperar e observar as outras mulheres com quem ele convivia e aquelas com quem ele poderia esbarrar por aí. Talvez outra pessoa fizesse seu coração bater mais forte. Os dois terminaram a noite na casa dela e eu preferi censurar aquela parte também, só voltando a olhar o monitor quando eles terminaram. Ela estava jogada na cama como se tivesse corrido uma maratona, já ele parecia sereno e relaxado enquanto estava de pé vestindo as suas calças. Megan pediu para que ele ficasse, mas ele se recusou friamente, dizendo já ter repetido mil vezes que não dormia ao lado de ninguém.  Não posso negar a minha curiosidade sobre ele. Tinha algo em Christopher que chamava a minha atenção e ia muito além do meu trabalho como anjo ou do fato de ele ser ligado às pessoas com quem convivi em vida. O homem era magnético.  Sozinho em casa, Christopher parecia ser um homem como qualquer outro. Era como se ele retirasse a máscara de mau quando estava no seu lar, um local que com certeza era a sua zona de conforto.  Apoiei meu queixo em minha mão e sorri de canto observando ele rir enquanto seu cachorro enorme tentava se acomodar em seu colo, ignorando totalmente todo o espaço disponível naquela cama kingsize. Com um dono daquele eu também iria querer ficar agarradinha.  Pelos céus, Dulce! — dei um tapinha em minha testa.  Passei os dias seguintes observando cada passo de Christopher atentamente. Vi ele interagir com as mulheres da empresa, cumprimentar mulheres na rua... Vi ele sair e t*****r com dezenas de estranhas, mas em nenhum momento pensei em flechar alguma delas. Ele não tinha interesse em ninguém, então eu não desperdiçaria minhas flechas fazendo mulheres se apaixonarem por ele. A verdade é que boa parte delas já parecia apaixonada. Coitadas...  E quanto mais o tempo passava menos eu pensava em encontrar a cara metade de Christopher. Eu poderia ficar olhando para ele pela eternidade.  Eu observava Christopher beber uma xícara de café com um semblante concentrado enquanto analisava alguns papéis que estavam sobre a sua mesa. Ele ainda não havia achado uma nova secretária e isso o estava deixando puto. Ele detestava ter que fazer as pequenas coisas como pegar o próprio café ou atender o telefone. Algumas batidas na porta do meu escritório me fizeram despertar dos meus pensamentos.  — Pode entrar!  A porta foi aberta e Klaus adentrou. Ele estava segurando sua inseparável prancheta e sua expressão não era nada simpática.  — Temos notado um comportamento estranho de sua parte desde que recebeu sua nova tarefa.  — Comportamento estranho? — franzi a testa.  — Faz duas semanas que está com esse novo humano e ainda não gastou nenhuma flecha.  — Eu quero que isso dê certo dessa vez, então estou indo com calma.  — Dulce, eu sei que está lidando com Christopher Uckermann. Todos sabemos que esse cara vai morrer sozinho, então apenas passe ele pra frente.  — Que coisa horrível de se dizer. — estreitei os olhos. — Eu morri sozinha e não é nada legal.  — Que bom que diferente de você o Christopher está sozinho por escolha própria.  Revirei meus olhos com tédio.  — Ele não vai se apaixonar por ninguém, garota. — afirmou. — Vamos, gaste suas flechas em qualquer uma que aparecer primeiro ou apenas passe-o para outro anjo! — aquilo era quase uma ordem.  Mordi meus lábios pensativa e desviei meus olhos para o monitor outra vez. Eu não podia abandoná-lo. Não era da minha natureza dar as costas a um Uckermann. E se a pessoa certa para ele não estivesse na Terra? E se... ela estivesse em outro plano?  Parece loucura, mas quem melhor para conquista-lo do que a mulher que o observou por duas semanas sem pausas? Nenhuma outra o conhecia tão bem quanto eu. Eu poderia fazer ele encontrar o amor, o amor em mim. Mas para isso, eu precisava estar perto.  E se o céu permitiria que eu o fizesse se apaixonar por mim? Bom, havia um furo contratual – sim, eu assinei um contrato – referente à função de cupido. Uma cláusula especificava claramente que o humano deve envelhecer e morrer ao lado de sua alma gêmea, não podendo haver nenhuma interferência celestial ou divina. Nada proibia que a alma gêmea fosse um cupido. Se Christopher sentisse que me ama, eu teria que ficar com ele na Terra.  — Eu quero descer até lá. — falei para Klaus, ansiedade brilhando em meus olhos.  — O que?  — Eu quero ir até a Terra e ajudar o Christopher a encontrar a sua alma gêmea.  — Dulce, tem certeza que quer abdicar de todas as suas chances em ganhar outras tarefas?  Engoli em seco, mas assenti minha cabeça com confiança.  — Sim. — falei.  — Sabe que se falhar...  — Sei. Eu não vou falhar.  — Sei que está fazendo isso por ele ser um Uckermann. — cruzou os braços.  — E você não pode fazer nada sobre isso. Estou pedindo apenas algo que é de meu direito. — Se é isso mesmo que você quer, tudo bem. Vamos organizar toda a sua vida humana e te passar todos os detalhes antes de te mandar para lá. Por favor, me acompanhe. — deu as costas, indo até a porta.  Eu respirei fundo e antes de me afastar do monitor, olhei uma última vez para a imagem de Christopher e abri um sorrisinho.  — Estou chegando. — sussurrei como se ele pudesse me ouvir.
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