Capítulo 3 - Ana

836 Words
Ana Passei praticamente todo o expediente com os olhos ardendo, segurando o choro. Não podia ir embora antes do horário. Conversei com uma colega de trabalho durante um momento de folga, e ela ficou revoltada com a situação, mas não havia como me ajudar. Recebia o mesmo salário que eu, e o valor da cirurgia era impensável para qualquer uma de nós. Eu não queria aceitar a proposta de Roman. A simples ideia me causava repulsa. Nunca pensei que teria de me colocar naquela posição. Ainda assim, por mais nojento que fosse, talvez fosse a única maneira de salvar minha mãe. O pensamento me corroía por dentro. Quando deu minha hora, assinei a folha de ponto e caminhei em direção à saída. Já estava quase do lado de fora quando ele apareceu, apoiado no balcão, com aquele sorriso malicioso que me causava náusea. — Estarei aguardando sua resposta — disse, em tom baixo. — Não precisa ficar tímida. — Me deixe em paz — respondi, sem encará-lo. Segui em direção ao ponto de ônibus. Levei a mão ao rosto, tentando manter o controle. Não chorei. As lágrimas já tinham se esgotado. Foi então que percebi uma mulher se aproximando. Elegante, bonita, postura confiante. Eu a reconheci. Ela estava na cafeteria mais cedo. Caminhou ao meu lado e me observou por alguns segundos antes de falar. — É um prazer conhecê-la — disse com naturalidade. — Meu nome é Tatiana. Estive na cafeteria e acabei ouvindo parte da sua conversa com sua colega. Sei da situação da sua mãe. Sinto muito. Não tenho uma solução para todo esse dinheiro, mas posso oferecer uma alternativa para uma parte significativa dele. Arqueei levemente as sobrancelhas, sentindo um frio percorrer minha espinha. A palavra “alternativa” nunca vinha sem consequências. — E como exatamente eu conseguiria esse dinheiro? — perguntei, cautelosa. — Trabalho com acompanhantes de luxo — respondeu sem rodeios. — E você é uma mulher muito bonita. Estou organizando um evento para homens ligados à máfia russa. Acontecerá amanhã à noite. Preciso de mulheres jovens, elegantes, que saibam se portar. Os homens presentes estão presos por questões políticas. Alguns serão libertados em breve, outros não. Eles pagam muito bem. Engoli em seco. — Não sei se você conseguiria todo o valor de uma vez — continuou —, mas se repetir algumas visitas, em cerca de quatro semanas você teria o dinheiro necessário para salvar sua mãe. — E como posso confiar em você? — perguntei, com sinceridade. Tatiana sorriu de leve. — Você não deve confiar em ninguém. O mundo é c***l. Pelo que entendi, são apenas você e sua mãe. Não quero sua confiança. Estou oferecendo um trabalho. Um extra. Vou deixar meu cartão. Se decidir aceitar, me mande uma mensagem. — Eu não sou garota de programa — respondi imediatamente. — Eu sei — disse ela, com calma. — E isso aumenta o seu valor. Poucos homens podem pagar por uma mulher como você. Sei que ainda acredita em princípios, mas princípios não salvam vidas. Deitar-se com seu chefe não a tornará melhor do que deitar-se com um homem que está preso. Ela fez uma pausa antes de continuar. — Se você se envolver com seu chefe, ficará presa a ele. Ele usará isso contra você. Homens como ele exploram a dor alheia. Os homens da prisão não se importam com sua história. Não querem ouvir sua dor. Pagam, usam, e você vai embora com o dinheiro. Se quiser voltar, volta. Se não, encerra ali. Não haverá cobranças. Fiquei em silêncio. — Você não é uma prostituta — insistiu. — É uma mulher sem escolhas. E mulheres sem escolhas fazem o que é necessário. O necessário, neste momento, é salvar sua mãe. Tudo tem um preço. Cabe a você decidir como pagá-lo. Ela chamou um táxi. — Vou levá-la ao hospital. Não discuti. Entrei no carro em silêncio. Quando chegamos, ela parou em frente ao hospital. — Pense com calma — disse antes de ir embora. Entrei no quarto onde minha mãe estava e, pela primeira vez naquele dia, desabei. Chorei em silêncio, sentada ao lado da cama. Não sabia o que fazer. Mas entre Roman e um homem desconhecido, Tatiana tinha razão. Era melhor alguém que não pudesse me prender depois. Peguei o celular com as mãos trêmulas. Mensagem Ana: Olá. Aqui é a Ana, da cafeteria. Pensei sobre a proposta e decidi aceitar. A resposta veio rápido. Tatiana: Perfeito. Vou te enviar o endereço onde devemos nos encontrar amanhã. Não desista, porque colocarei seu nome na lista. Não sei quanto o homem pagará, mas minha comissão será justa. Não são cento e oitenta mil rublos, mas é um começo. Envie também o número de suas roupas e calçados. Vou providenciar tudo. Você é bonita, mas precisa estar adequada para homens poderosos. Enviei as informações. Ela respondeu apenas com um “OK”. Fiquei sentada, tremendo. Mas entre o errado e o errado, eu escolhia aquele que não destruiria minha vida depois.
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