A Rainha Arrogante - Parte 1

1843 Words
O frio do início da primavera estava diminuindo quando a tarde veio. Jennifer ainda permanecia deitada em sua nova cama, olhando para a nova porta de seu novo quarto. Ela estava abraçando os próprios joelhos em posição fetal, quase chorando e se lamentando. O som das batidas à porta a despertou de seus pensamentos, e a voz de Alfred se fez ouvir do outro lado. - Jennifer? Eu posso entrar? Ela esfregou os olhos para ter certeza que não tinha chorado e que não tinha lágrimas nos olhos e se endireitou. - Sim, pode entrar. Alfred entrou com uma enorme bandeja de sopa, uma maçã, algumas uvas, pão e uma taça de um líquido escarlate, quase roxo. No canto da bandeja, havia algo parecido com um vestido dobrado. - Trouxe algo para você comer – Disse ele, colocando a bandeja em cima da penteadeira e indo em direção à moça. – Posso me sentar com você? - Ah, pode, claro – Ela parecia sonolenta, mas seus olhos estavam apenas cansados de tanto chorar naquele dia. - Eu sei que não está sendo fácil para você, mas como nova serva real, seria bom que se acostumasse depressa. - Fácil falar. Você já deve fazer isso a o quê? Uns 20 anos? - 35. Um bom tempo, para um empregado. - Tempo até demais. Só pelo que você me disse que tenho que fazer, imagino que não vou durar um dia aqui. - Vai. Vai, sim. É difícil no começo, mas tudo fica mais fácil com a prática. Jennifer tentou sorrir, mas seu rosto fez uma expressão quase que de tristeza. A verdade era que ela não tinha medo de não se adaptar, ela estava triste por precisar estar em uma situação como aquela e a única coisa que poderia fazer era se adaptar. - A Rainha deseja que você comece a trabalhar amanhã – Disse Alfred, suspirando. – Eu insisti que lhe desse mais tempo, mas ela não ouviu meus apelos. - Obrigada mesmo assim. - Vou acompanhá-la nos primeiros dias para que tenha uma conduta satisfatória, mas receio que não possa ajudá-la sempre. - Por que está sendo tão gentil comigo? – Jennifer fixou seu olhar no de Alfred. - Bom, você é apenas uma mocinha – Ele afagou seu cabelo. – Sei que vai aprender rápido, mas não quero que tudo comece de modo r**m para você. Você vai ouvir muitas queixas da Senhorita no começo, e quero que elas terminem o quanto antes. - Então está preocupado com ela gritar comigo? - De certa forma. Uma moça tão jovem não devia ser forçada a ser um serviçal dessa forma. Eu detestaria ver você se encolher de tristeza enquanto estiver aqui. Se fizer tudo que Sua Majestade pedir, ela não vai incomodá-la, e talvez você possa até desfrutar um pouco das vantagens de viver em um castelo como este. Jennifer ainda sentia que Alfred era um enigma. Se em uma hora ele parecia preocupada com ela, em outra parecia apenas querer que a Rainha estivesse sendo bem atendida o tempo inteiro. - Eu vou tentar me esforçar – Jennifer suspirou. – Não é como se eu quisesse que ela me humilhasse de novo como hoje de manhã. Alfred fechou o rosto em uma expressão de desânimo, como se dissesse que aquilo foi o modo dela de ser compreensiva e adivinhasse que Jennifer passaria por situações ainda mais humilhantes que aquela. A jovem entendeu seu olhar e voltou seus olhos para seus pés, lamentando-se em silêncio. - Como devo agir na frente dela? – Quis saber a moça. - Deixe-me ver – Alfred pensou um pouco. – Seja pontual. A Rainha odeia atrasos. Esteja no quarto dela para acordá-la cerca de uma hora depois do nascer-do-sol. Ela adotou uma filosofia de aproveitar o dia da melhor forma possível, e por isso ela acha que dormir demais é uma perda de tempo. Ao acordá-la, seja suave, nada de balançá-la com força. A Senhorita tem sono leve, então basta tocar seu ombro e chamá-la em voz baixa. - Então eu tenho que ficar em silêncio aqui durante a noite para não a acordar, certo? – Deduziu ela. - Nem tanto. As paredes do quarto dela são bastante espessas, ela não ouvirá nada, a não ser que você grite. É por isso, aliás, que ela pediu que instalassem aquilo – Ele apontou para o objeto no alto da parede que ligava aquele quarto ao da Rainha. - Um sino? - Sim, um sino. Ele está ligado a uma corda ao lado da cama da Senhorita. Se o sino tocar, pare tudo que esteja fazendo e vá imediatamente para os aposentos dela. - Seria mais fácil assoviar. Não é assim que as pessoas chamam seus cachorros? Alfred riu, sua risada sendo acompanhada pela de Jennifer logo depois. - Não se rebaixe tanto, Jennifer – Disse ele, ainda sorrindo. – Há quem diga que trabalhar como serva real é uma grande honra. Várias criadas do castelo iriam querer o seu lugar, se a senhorita as aceitasse. - Por mim pode ficar com este emprego de... Alfred levantou o dedo indicador com a mão enluvada até os lábios de Jennifer, interrompendo-a. - Se há uma coisa que a Srta. Charlotte presa é a educação. Nunca diga qualquer palavreado impróprio na frente dela. Jamais. Jennifer fez que sim com a cabeça. Alfred riu novamente. - Mas, sim. Esse é um emprego de merda. Jennifer gargalhou. - Não se engane com as aparências e com suas impressões atuais da Senhorita. Ela costuma ser uma pessoa muito generosa, que adora recompensar um bom trabalho. Se você fizer um bom serviço, talvez ela lhe permita visitar sua família por um dia. A ideia de ver seus pais e seus irmãos animou Jennifer, que abriu um sorriso imediatamente. - Eu nem tenho como lhe agradecer a ajuda que você está me oferecendo. - Que nada, eu só estou ajudando uma colega de trabalho. O sorriso de uma jovem tão bonita como você sempre renova as forças de um velho homem como eu. Jennifer corou, desviando o olhar e se sentindo constrangida. - É muito gentil da sua parte – Disse ela. - Jennifer. Eu estou completamente à disposição para ajudá-la, mas tenho que lhe advertir sobre uma coisa – A voz de Alfred transmitiu uma tensão enorme, quebrando totalmente o clima de gentileza e tranquilidade que o homem tinha em volta de si até o momento. Ela engoliu em seco. - O quê? - A Rainha sempre foi uma jovem muito bonita, como você pode ver. Ela sempre amou flores, adornos e enfeites. Tudo para ela tem que ser belo. Talvez por isso ela tenha a escolhido para ser sua serva e dama de companhia, porque você é uma moça muito bonita. Jennifer sorriu e colocou a mão sobre a bochecha. - Não sei se devo me sentir elogiada por ela com isso. Ele não riu. Seu rosto permanecia tenso e sério. - Entretanto, ela não só gosta de coisas bonitas. Ela tem quase uma obsessão de possuir tudo o que acha belo. Ela tem... – Ele hesitou por um momento. – Vontades que devem ser atendidas à sua maneira. Sei que não será fácil, mas as vontades da Rainha devem ser sempre tratadas como leis. Se ela quiser que você pule, você deve pular. Se ela quiser que você faça algo que você não queira, aconselho fortemente que faça sem se queixar. - Bom, eu acho que já era de se esperar – Jennifer insistia em sorrir para Alfred, mas ele não sorriu de volta. - Você não é capaz de entender ainda, mas você verá – A voz do homem pareceu preocupada e severa. Jennifer engoliu em seco novamente, imaginando que coisas doentias a Rainha poderia – e iria - fazer com ela. Humilhá-la, maltratá-la, agredi-la, chicoteá-la. Nada do que passava em sua mente seria fácil de aceitar que poderia ser verdade. - Sei que estou sendo indelicado – Alfred cortou seus pensamentos. – Mas gostaria de saber se você já vestiu um vestido de gala antes. - Nunca. Alfred caminhou até a bandeja sobre a penteadeira e desdobrou o uniforme que trouxe quando entrou na sala. Ele estendeu o vestido sobre a cama, deixando um par de sapatos novos ao lado dele, junto com um par de meias e uma touca de empregada. - Gostaria que vestisse isso para que eu veja como fica em você. Se ficar desconfortável, eu mandarei para a costureira imediatamente para corrigir qualquer erro. Eu também irei examinar o modo como se vestiu, para garantir que aprenda a usar as vestes perfeitamente. A Rainha não aceita que seus empregados e servos se vistam m*l. Beleza para ela está principalmente nos detalhes, então arrume bem o cabelo e tome cuidado para que nada fique malvestido. Jennifer assentiu com a cabeça e esperou até que Alfred saísse para deixar que ela se trocasse. Por alguns momentos ela encarou o uniforme, admirando-o. Ele era de um verde-celeste belíssimo, com uma parte branca costurada do b***o até o fim do vestido, que tocaria os pés de Jennifer após ela o vestir. Por baixo do saiote do vestido havia um tecido branco que deixava babados bordados um pouco para fora, dando contraste com o verde-claro do uniforme. A touca era branca com babados bordados e um detalhe de flor do lado direito; não serviria para nada além de estética – beleza, a qual Alfred enfatizou que era um dos principais interesses da Rainha. Os sapatos eram brancos, belos como sapatilhas de festa, mas Jennifer lamentou por ser uma cor que destacaria muito qualquer sujeira que estivesse sobre ele, já que o mordomo deixou bem claro o quanto Sua Majestade odeia quando um empregado está m*l arrumado. Ela finalmente colocou o vestido, amarrando com duas tiras de tecido discretamente da cor do vestido a cintura que servia para deixar o saiote do vestido um pouco mais armado em relação a sua cintura e o b***o. Ela avisou a Alfred que já poderia entrar, e o homem correu seu olhar sem rodeios por todo o corpo da jovem, deixando-a até um pouco constrangida. Ele andou em volta dela e parou atrás da jovem. Suas mãos correram por sua cintura para desfazer algumas dobras nas tiras de tecido amarradas, deixando-as mais discretas. Ele desatou um dos nós e fez um laço no lugar. Depois se abaixou para desdobrar uma parte do babado que não estava à mostra como o restante abaixo da bainha do vestido. Quando se levantou, ele ajeitou a touca de empregada no topo da cabeça de Jennifer – estava torta – e jogou para trás as mechas de cabelo que estavam para frente de seu ombro. -Você deve amarrar as tiras do tecido com um laço atrás do corpo. Seu cabelo deve estar sempre atrás dos ombros até o último fio para que seu rosto esteja sempre bem visível. Evite deixar dobras no uniforme e tenha o maior cuidado para deixá-lo sempre limpo. Fora esses detalhes você se vestiu perfeitamente bem.
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