Anna
Drácula é um desgraçado egoísta, isso não era novidade alguma, mas algo em mim ainda quer ele mesmo assim.
Eu tenho plena consciência de que nada no mundo mudará isso nele, nem mesmo o amor que ele diz sentir por mim. Não tenho ilusão de que algum dia ele vá mudar, e nem sequer possuo tal desejo.
Ele despertou há alguns meses, eu senti isso logo na primeira noite apesar de tentar ao máximo ignorar os sinais. Uma enxurrada de sonhos com ele voltaram a me atormentar após mais de 150 anos de paz. Decidi procura-lo, eu queria ter de volta minha tranquilidade, eu merecia ter depois de tudo que aconteceu entre a gente.
300 anos atrás decidi abandona-lo, mas não como as outras mini fugas que eu havia tentado antes, eu estava disposta a fazer com que daquela vez fosse eficaz. A minha força de vontade em, deixá-lo me fez cruzar a Transilvânia, Sérvia e Bósnia no menor tempo que consegui sem pausa para descanso. Até que nos encontramos na Croácia, ele estava furioso e disse que me levaria de volta de qualquer maneira, eu não tive outra opção se não pular no mar Andriático, um tanto dramático, porém eficiente naquele momento. Não sabia se até aquele ponto ele iria atrás de mim, mas eu nadei desesperadamente até a Itália, não que isso tenha sido uma tarefa difícil, foi mil vezes mais fácil do que por terra. Devo isso a herança genética de minha mãe, uma sereia oceânide que viveu a triste história clichê de se apaixonar por um pescador medíocre de caráter questionável. Eu não possuía cauda nem nada que a mitologia tenha nos empurrado goela abaixo, mas respirar em baixo d'água realmente era de grande ajuda.
☽〄☾
Assim que cheguei as terras da Itália eu desmaiei, não sei se fora por causa do pânico ou pelo esforço que eu não estava acostumada, eu deveria ter feito algumas pausas ao invés de nadar freneticamente. Mas já estava feito e eu estava exausta demais para me culpar.
Não me lembro ao certo por quanto tempo eu fiquei desacordada, mas despertei assim que senti um homem tocar meu pescoço para sentir minha respiração.
A luz do sol incomodava meus olhos e me deixava desorientada, ouvi ele gritar algo e mais três pessoas se aproximaram de mim, fizeram-me algumas perguntas como: "Qual seu nome?" "Como veio parar aqui?" "Você fala a nossa língua?" As pessoas eram como sombras escuras e quase disformes contra o sol, mas consegui distinguir, eram dois homens e uma mulher.
Então eu apaguei mais uma vez.
☽〄☾
Eu m*l consegui dormir a noite inteira já que as lembranças me rodeavam e se revezavam para a tortura.
Mesmo assim, me forcei a continuar na cama. Eu tinha um compromisso com um certo Conde na noite seguinte, e assim aconteceu. Nos encontramos no mesmo lugar que nos vimos ontem. Na boate, não queria que nossa conversa durasse mais que dez minutos, mas algo em mim sabia que não seria assim.
Eu usava um vestido tubindo preto médio, ombro a ombro, possuía uma f***a lateral que deixava amostra parte da minha coxa. Estava vestida para m***r, literalmente, caso fosse necessário. Fiz questão de me preparar para tudo, imaginei as mais diversas situações e como iria reagir a cada uma delas.
Assim que entrei na boate, meu olhar passeou por todo o ambiente, m*l, ou pouco iluminado, até encontrar Drácula sentado em uma mesa de canto próxima ao bar com duas mulheres, uma de cada lado. Uma era loira, de cabelos levemente ondulados, usava um vestido justo de cor azul marinho. A moça parecia inquieta beijava os lábios de Drácula de forma ensandecida e lasciva.
Já a outra possuía um tom de pele dourada, cabelos igualmente ondulados porém negros, vestia um vestido prateado inteiro em paetê brilhoso, seus lábios eram carnudos e possuíam uma coloração ligeiramente rosada. Ela dividia os carinhos dele com a outra, a diferença é que essa parecia um pouco mais racional e mais calma enquanto fumava seu cigarro elegantemente.
Desfilei em direção a mesa calmamente, parei em frente a ele. Sorri com desdém quando ele finalmente conseguiu desgrudar a boca da moça de seu rosto.
— Posso pegar um cigarro!? — Digo já pegando a carteira de cigarros que estava em cima da mesa.
— Não devia fumar, é prejudicial e deixa um gosto amargo no sangue, devia saber disso. — Disse ele, ainda tentando manter a boca da moça afastada de seu rosto.
— Prejudicial é ficar perto de você. — respondo antes de acender o cigarro.
— Sabe... Eu não acreditei quando você disse que a sua busca por mulheres que se parecem comigo era inconsciente. — Olhei para as mulheres mais uma vez, seus cabelos ondulados e lábios carnudos, e reconheci as semelhanças. — Mas vendo agora... Dá até um pouco de medo. — Eu mordisquei o lábio inferior enquanto olhava a moça de vestido prateado.
Ele não respondeu, tampouco voltou a fazer contato visual comigo, apenas intensificou as carícias a moça. Não vou mentir, me irritou um pouco, mas eu estava disposta a não me deixar abalar. Apaguei meu cigarro na mesa e me sentei ao lado da moça de cabelos negros. Assim como Drácula eu tenho meus truques de persuasão, eu acariciava os cabelos dela e após alguns instantes os toques delicados passaram a beijos lascivos e quentes. Algum tempo depois eu pedi para que ela deixasse eu e ele a sós, assim foi feito, e Drácula fez o mesmo com a outra moça. Ele me olhou com uma expressão levemente boquiaberta enquanto eu limpava o batom borrado de meu rosto.
— Sabe Drácula... Quando você armar outro "plano" para me deixar com ciúmes, por favor, concentre-se em não escancarar sua mente quando me ver. Isso me chateia porque eu gosto de um pouco de mistério.
— Você leu a minha mente? — Perguntou com indignação.
— Sempre. — Eu ri, mas não estava sendo perversa, não exatamente. — Vamos mudar esse assunto. Você sabe o que eu vim fazer aqui, e nós dois sabemos que você não vai me dar o que eu quero, porque o que eu quero vai intrinsecamente contra aquilo que você quer. Então... sugira algo para que eu não precise m***r você, porque eu não quero ter que fazer isso.
— Ótimo, eu darei o que você quer. — Disse ele e um sorriso de satisfação se formou em seu rosto. — Mas... porém, todavia, entretanto. Para que isso ocorra você deverá aceitar minha proposta.
— Prossiga. — Digo desconfiada.
— Quero três meses para te provar que está sendo estúpida ao romper nossos laços de sangue.
— E como pretende me provar isso? — Pergunto curiosa. — Fazendo eu me apaixonar por você ou alguma idiotice do gênero?
— Exatamente! Fazendo você se apaixonar por mim. Mais uma vez. É tão bom que você leia minha mente, me poupa de diálogo desnecessários.
Eu ri sem conseguir acreditar no que acabara de ouvir.
— Três meses? Jura? — Eu ri sardônica — Tenho más notícias, eu não sou nenhuma adolescente para me apaixonar tão rápido. Acha mesmo que vai conseguir isso?
— Já consegui antes, não é mesmo?! Confio no meu potencial. — Disse dando um gole em sua bebida vermelha, que eu possuía uma leve suspeita de ser sangue.
Fiquei pensativa por alguns instantes.
— Não sei... Me parece muito suspeito. Por acaso vai me acorrentar e me amordaçar a sua cama assim que eu baixar a guarda?
— Não farei nada disso, a não ser que você implore, docinho.
Eu lutei contra a vontade de revirar os olhos.
— E se eu não me apaixonar, você garante que irá romper nossos laços? — Digo ainda possuindo um leve tom de desconfiança na voz.
— Tens a minha palavra.
— Tua palavra de nada me vale.
— Ótimo, faremos um contrato então.
— Um contrato?
— Sim! Nos encontramos amanhã, discutiremos e negociamos as possíveis cláusulas. Vai ser divertido.
— Não sei...
— O que foi? Está com medo de sucumbir aos desejos sombrios de seu coração?
— Meu único desejo é me livrar de você.
— Ótimo! Então não há porque temer um contrato.
Ele beijou minha mão cordialmente e disse:
— Mas, sou obrigado a informa-la que eu sempre consigo o que me proponho.
— É o que veremos meu querido Conde. — Digo desafiadora.