— Não precisa dizer nada. Toquei em uma questão que não é da minha conta. — expliquei, pensando que assim ela não se sentiria obrigada a revelar nada a um estranho.
— Tudo bem. Não é nada demais, só a minha vida decepcionante. — a forma leve como ela falou não disfarçou bem a sua amargura.
— Se isso a machuca, é demais sim.
— Minha trajetória até aqui foi recheada de idas e vindas. Primeiro, minha mãe me abandonou. Ela sempre dizia o quanto eu atrapalhava a sua vida, e me deixar foi opção sua. Fiquei sozinha por um tempo, jurando que em alguma hora ela voltaria, só que, no fim, não voltou, e eu fui mandada para um orfanato. — Não estava esperando por isso. Achei que ela não falaria nada. Ouvi-la confessar tudo me deixou desnorteado. — Sempre fui, posso dizer, estranha. Todos diziam “especial”.
— O que tem de errado em “especial”? — indaguei confuso.
— Não é a palavra certa para me definir. — respondeu com um riso que não era de felicidade.
Acabei descobrindo que Samantha fazia muito isto: usar o humor para esconder a dor que sentia.
— Minha inteligência fora do comum me destacava das outras crianças, e isso não era uma coisa boa. Sempre que alguém despertava o interesse de me levar para casa, eu via que essa não era uma qualidade que queriam em uma menina.
— Ser inteligente não é um defeito, é uma qualidade. — Achei estranho ouvir que não era bom.
— Pode ser, mas dava trabalho. — Ainda não podia acreditar no que ela dizia; não por achar que fosse uma mentira, e sim por ser algo fora do normal. — Passei por escolhas especiais, tive dificuldade de me manter em salas de aula, e os professores tinham que trabalhar dobrado comigo. Eu sabia que não era comum e tentei mudar meu jeito para ser escolhida. No fim, não dá para esconder o que se é das pessoas.
— Samantha...
Já tinha notado o quanto ela era inteligente. Pegava-a me analisando e deduzindo coisas, sem falar da sua formação e trabalho. Era difícil conhecer alguém tão jovem e já formada em mestrado em Engenharia. No entanto, não era r**m, era bom ter uma conversa agradável com ela.
— Sua inteligência não é um defeito, e sim uma qualidade. Deve entender isso.
— Entendo. É por essa razão que deixei de lado a falsa esperança de, um dia, ser entendida, aceita, e foquei nos estudos e no trabalho. Na verdade, Hoper sempre me diz isso. Ainda não sei se tive sorte ou se foi um acaso do destino conhecê-la.
— Às vezes encontramos pessoas que nos ama da forma que somos, seja com defeitos ou sem. — Senti a necessidade de confortá-la. Não sabia como, nem por que, mas gostava dela. — Veja a mim. Eu deveria estar longe daqui, na minha casa, tomando um vinho, mesmo que sozinho, porém despertei o interesse em vir aqui só para falar com você mais uma vez.
— Você disse que foi manipulado. Quer dizer que não queria estar aqui.
— Não, eu disse que estava tentando ouvir a parte racional do meu cérebro.
— E o que isso significa?
— Que a nossa conversa ontem foi tão boa, que me despertou um instinto de fuga. Fui fraco em resistir, deixando o meu interesse à mostra para que outra pessoa me convencesse ou me desse um empurrão a vir aqui e, com esperança, falar com você mais uma vez.
— Está falando assim porque está com pena de mim? — acusou-me.
— Não preciso disso. Se eu não quisesse vir, não viria. Se não estivesse gostando de você, não precisaria dizer essas palavras. — respondi quase sendo grosseiro. — Ainda acredito que não deve achar que não merece ser amada ou que nunca conseguirá encontrar alguém que goste de você por ser quem é.
— Está difícil de acreditar, Joseph. — falou ainda em um tom acusatório. — São vinte e sete anos de portas na cara e de “nãos” escritos bem grande me mostrando que não sirvo para ser como as outras mulheres, desesperadas, que estão tentando achar um namorado nesta merda de experiência. Me surpreende você me dizer isso, quando pensa o mesmo. Ou talvez só esteja se enganando ao pensar dessa forma.
— Não é que eu não acredite no amor; só não acredito nas pessoas.
— Eu também não acredito nelas.
Eu não sabia se estávamos discutindo ou debatendo com vozes alteradas algo muito delicado para nós dois.
— Sinto, Samantha, que você é alguém inteligente e interessante. Quando não tocamos nesses assuntos, nossas conversas são engraçadas e temos muito em comum.
— Eu não sou odiável, e você também não.
Se não fosse a escuridão e a fina parede que nos separava, ela me veria sorrir.
— Então, acho que concorda que não temos interesse algum um no outro, mas que podemos ser amigos. — Eu não fazia ideia do que estava acontecendo ou propondo. As palavras saíram sem freio da minha boca.
— O que quer dizer com isso?
É. O que quer dizer com isso? Merda!
— Podemos continuar conversando. — A proposta foi um erro, mas, como já tinha falado, não dava mais para voltar atrás. — Como amigos anônimos. Você me conta sobre o seu trabalho, dos colegas babacas, e eu faço o mesmo. Não precisamos nos conhecer. Acho que concorda que é mais fácil assim.
O silêncio me fez achar que ela havia odiado a ideia.
— Amigos anônimos? — perguntou novamente, com desconfiança. — É interessante. Mas, e os assuntos difíceis? Acabei de revelar algo que foi... surpreendente. Me sinto confortável, apesar de chateada.
— Isso é porque fiz a pergunta?
— Porque me senti confiante em respondê-la.
Foi inevitável não achar um pouco de graça nisso. Essa mulher estava trazendo de volta o Joseph que achava estar morto há anos.
— Então, concorda?
— Acho que sim. Mas saiba que não vai durar para sempre.
Sim, o experimento não seria eterno. Talvez, por isso, eu me sentia mais confiante. Não precisar saber quem ela era, dava-me um alívio. Pensar em encará-la era estranho.
— Seremos amigos anônimos que têm data de validade.
— Sendo assim, acho que concordo. Porém, tudo que eu disser, deve ser mantido nesta sala escura.
— Concordo totalmente.
No fim, acabei imaginando o nosso próximo encontro. Respirei fundo, sabendo que seria acusado de estar gostando de alguém, todavia não era e nunca seria um interesse romântico..