Capítulo 36: O Plano

1049 Words
Erick Derrubar um homem como Zeca não era difícil. Eu já tinha feito coisas piores com gente mais poderosa. O problema… nunca foi o alvo. O problema era o terreno. E, dessa vez, o terreno não era meu. Eu estava sentado no escritório, no alto do prédio no Leblon, olhando a cidade se estender como se ainda estivesse sob meu controle. Vidro, concreto, silêncio. Tudo limpo. Tudo organizado. Tudo é previsível. Mas a minha cabeça… estava no morro. Na quadra. Na expressão da Ariane quando saiu de lá. Raiva. Traição. E algo mais fundo que eu não conseguia ignorar. Decepção. Ela não estava só ferida. Ela estava quebrando vínculos. E isso… era perigoso. Porque quando alguém como ela quebra… Ou se perde… Ou se transforma em algo impossível de controlar. E eu já sabia qual das duas opções ela escolheria. Encostei na cadeira. Respirei fundo. E deixei as peças se organizarem. Zeca. Kido. Ariane. Três pontos. Três forças. Mas agora… havia uma fissura. E fissuras são oportunidades. — Você está com cara de quem não dorme há dias — disse Marcelo, entrando sem bater. — Estou ocupado. — Eu vi. Ele jogou uma pasta sobre a mesa. — Comecei a puxar algumas coisas. Abri. Relatórios. Fluxos financeiros. Eventos. Pagamentos fragmentados. Transferências cruzadas. — Ele é mais organizado do que parece — comentei. — Todo mundo que lava dinheiro é. Passei as páginas devagar. Cada linha confirmava o que Ariane já tinha sentido. Zeca não estava só envolvido. Ele era o eixo. Eventos culturais como fachada. Artistas como canal. Dinheiro entrando limpo… e saindo transformado. — E o Kido? — perguntei. Marcelo cruzou os braços. — Mais difícil. — Por quê? — Ele não aparece. — Não se movimenta diretamente. — Usa intermediários. — Controle territorial puro. Assenti. Fazia sentido. Kido não precisava tocar no dinheiro. Ele controlava o ambiente onde o dinheiro circulava. — Então a gente tem um operador… e um dono de território — murmurei. — Exato. — E os dois estão alinhados. Marcelo me olhou. — Por enquanto. Levantei os olhos. — O que você quer dizer? — Aliança no morro não é casamento. — É conveniência. Aquilo acendeu algo. — E conveniência muda. — Rápido. Levantei. Caminhei até a janela. A cidade parecia pequena dali de cima. Mas eu sabia. Era ilusão. — Se eu derrubo o Zeca… — comecei. — Você enfraquece o sistema financeiro deles — completou Marcelo. — E o Kido? — Perde estrutura. — Mas não poder. Virei de volta. — Então eu preciso fazer mais. — Muito mais. Silêncio. Pesado. Estratégico. — Eu não posso atacar o Kido direto — falei. — Não aqui. — Não assim. Marcelo assentiu. — Ele ganha nesse tipo de jogo. — Então eu mudo o jogo. Ele franziu a testa. — Como? Voltei para a mesa. Olhei novamente os relatórios. E então vi. O ponto. A brecha. — Exposição. — Já tentaram com você — lembrou Marcelo. — E funcionou? Ele ficou em silêncio. — Não. — Então por que funcionaria com eles? Sorri de leve. — Porque eles não estão acostumados. Peguei uma folha específica. — Isso aqui… — O quê? — Esses eventos. — São públicos. — Cheios. — Visíveis. Marcelo começou a entender. — Você quer usar isso contra ele. — Eu quero transformar o que ele usa em arma… em prova. — Isso é perigoso. — Eu sei. — Pode estourar no morro. — Vai estourar de qualquer jeito. O silêncio voltou. Mas agora… carregado de decisão. — E a Ariane? — perguntou ele. A pergunta veio como um corte. Porque ela era o ponto fora da equação. A variável que eu não conseguia controlar. E talvez… Nem quisesse mais controlar. Respirei fundo. — Ela precisa ficar fora disso. Marcelo soltou um riso curto. — Boa sorte. Fechei os olhos por um segundo. Ele estava certo. Ela não ficaria. — Então eu preciso ser rápido. — E preciso ser limpo. — Limpo? — ele repetiu. — Dentro do possível. — Porque se isso respingar nela… Não terminei a frase. Não precisava. Marcelo entendeu. — Você está fazendo isso por ela. Abri os olhos. — Eu estou fazendo isso porque é o certo. Ele me encarou. — E desde quando isso guia você? Sustentei o olhar. — Desde que começou a importar. O silêncio foi diferente dessa vez. Menos estratégico. Mais… humano. — Então vamos fazer direito — disse ele. Assenti. — Primeiro passo? — Mapear todos os eventos. — Quem participa. — Quem paga. — Quem recebe. — Segundo? — Criar pressão externa. — Imprensa. — Órgãos. — Investigação. — E o terceiro? — perguntou Marcelo. Parei. Porque o terceiro passo… Era o mais perigoso. — Separar o Zeca do Kido. Ele ficou em silêncio por um segundo. — Como? — Fazendo um parecer risco. — Para quem? — Para os dois. — Se um cair… o outro precisa acreditar que foi traído. Marcelo soltou o ar devagar. — Isso pode dar muito errado. — Pode. — E mesmo assim você vai fazer. — Sim. O silêncio confirmou. Não havia mais volta. Eu já estava dentro. Até o fim. Peguei o celular. Olhei a tela por alguns segundos. E então mandei uma mensagem. Curta. Direta. “A gente precisa conversar. Sem plateia.” Não demorou. A resposta veio. “Agora você quer conversar?” Ariane. Fechei os olhos por um segundo. — Isso não vai ser fácil — murmurou Marcelo. — Nunca foi. Guardei o celular no bolso. E caminhei até a porta. — Onde você vai? — Pro morro. Ele soltou uma risada incrédula. — Claro que vai. Parei antes de sair. E olhei para trás. — Se isso der errado… — Vai dar — ele interrompeu. Ignorei. — Se der errado… — Eu perco tudo. Marcelo cruzou os braços. — E se der certo? Pensei por um segundo. Mas a resposta veio clara. — Eu ainda posso perder ela. O silêncio foi pesado. Real. Porque aquela era a única parte que eu não conseguia garantir. E talvez… A única que realmente importava. Saí. Sem olhar para trás. Porque o plano já estava em movimento. E dessa vez… Não era só sobre vencer. Era sobre sobreviver a uma guerra onde dinheiro não comprava lealdade… E sentimento não aceitava controle.
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