Erick
Derrubar um homem como Zeca não era difícil.
Eu já tinha feito coisas piores com gente mais poderosa.
O problema… nunca foi o alvo.
O problema era o terreno.
E, dessa vez, o terreno não era meu.
Eu estava sentado no escritório, no alto do prédio no Leblon, olhando a cidade se estender como se ainda estivesse sob meu controle.
Vidro, concreto, silêncio.
Tudo limpo.
Tudo organizado.
Tudo é previsível.
Mas a minha cabeça… estava no morro.
Na quadra.
Na expressão da Ariane quando saiu de lá.
Raiva.
Traição.
E algo mais fundo que eu não conseguia ignorar.
Decepção.
Ela não estava só ferida.
Ela estava quebrando vínculos.
E isso… era perigoso.
Porque quando alguém como ela quebra…
Ou se perde…
Ou se transforma em algo impossível de controlar.
E eu já sabia qual das duas opções ela escolheria.
Encostei na cadeira.
Respirei fundo.
E deixei as peças se organizarem.
Zeca.
Kido.
Ariane.
Três pontos.
Três forças.
Mas agora… havia uma fissura.
E fissuras são oportunidades.
— Você está com cara de quem não dorme há dias — disse Marcelo, entrando sem bater.
— Estou ocupado.
— Eu vi.
Ele jogou uma pasta sobre a mesa.
— Comecei a puxar algumas coisas.
Abri.
Relatórios.
Fluxos financeiros.
Eventos.
Pagamentos fragmentados.
Transferências cruzadas.
— Ele é mais organizado do que parece — comentei.
— Todo mundo que lava dinheiro é.
Passei as páginas devagar.
Cada linha confirmava o que Ariane já tinha sentido.
Zeca não estava só envolvido.
Ele era o eixo.
Eventos culturais como fachada.
Artistas como canal.
Dinheiro entrando limpo… e saindo transformado.
— E o Kido? — perguntei.
Marcelo cruzou os braços.
— Mais difícil.
— Por quê?
— Ele não aparece.
— Não se movimenta diretamente.
— Usa intermediários.
— Controle territorial puro.
Assenti.
Fazia sentido.
Kido não precisava tocar no dinheiro.
Ele controlava o ambiente onde o dinheiro circulava.
— Então a gente tem um operador… e um dono de território — murmurei.
— Exato.
— E os dois estão alinhados.
Marcelo me olhou.
— Por enquanto.
Levantei os olhos.
— O que você quer dizer?
— Aliança no morro não é casamento.
— É conveniência.
Aquilo acendeu algo.
— E conveniência muda.
— Rápido.
Levantei.
Caminhei até a janela.
A cidade parecia pequena dali de cima.
Mas eu sabia.
Era ilusão.
— Se eu derrubo o Zeca… — comecei.
— Você enfraquece o sistema financeiro deles — completou Marcelo.
— E o Kido?
— Perde estrutura.
— Mas não poder.
Virei de volta.
— Então eu preciso fazer mais.
— Muito mais.
Silêncio.
Pesado.
Estratégico.
— Eu não posso atacar o Kido direto — falei.
— Não aqui.
— Não assim.
Marcelo assentiu.
— Ele ganha nesse tipo de jogo.
— Então eu mudo o jogo.
Ele franziu a testa.
— Como?
Voltei para a mesa.
Olhei novamente os relatórios.
E então vi.
O ponto.
A brecha.
— Exposição.
— Já tentaram com você — lembrou Marcelo.
— E funcionou?
Ele ficou em silêncio.
— Não.
— Então por que funcionaria com eles?
Sorri de leve.
— Porque eles não estão acostumados.
Peguei uma folha específica.
— Isso aqui…
— O quê?
— Esses eventos.
— São públicos.
— Cheios.
— Visíveis.
Marcelo começou a entender.
— Você quer usar isso contra ele.
— Eu quero transformar o que ele usa em arma… em prova.
— Isso é perigoso.
— Eu sei.
— Pode estourar no morro.
— Vai estourar de qualquer jeito.
O silêncio voltou.
Mas agora… carregado de decisão.
— E a Ariane? — perguntou ele.
A pergunta veio como um corte.
Porque ela era o ponto fora da equação.
A variável que eu não conseguia controlar.
E talvez…
Nem quisesse mais controlar.
Respirei fundo.
— Ela precisa ficar fora disso.
Marcelo soltou um riso curto.
— Boa sorte.
Fechei os olhos por um segundo.
Ele estava certo.
Ela não ficaria.
— Então eu preciso ser rápido.
— E preciso ser limpo.
— Limpo? — ele repetiu.
— Dentro do possível.
— Porque se isso respingar nela…
Não terminei a frase.
Não precisava.
Marcelo entendeu.
— Você está fazendo isso por ela.
Abri os olhos.
— Eu estou fazendo isso porque é o certo.
Ele me encarou.
— E desde quando isso guia você?
Sustentei o olhar.
— Desde que começou a importar.
O silêncio foi diferente dessa vez.
Menos estratégico.
Mais… humano.
— Então vamos fazer direito — disse ele.
Assenti.
— Primeiro passo?
— Mapear todos os eventos.
— Quem participa.
— Quem paga.
— Quem recebe.
— Segundo?
— Criar pressão externa.
— Imprensa.
— Órgãos.
— Investigação.
— E o terceiro? — perguntou Marcelo.
Parei.
Porque o terceiro passo…
Era o mais perigoso.
— Separar o Zeca do Kido.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
— Como?
— Fazendo um parecer risco.
— Para quem?
— Para os dois.
— Se um cair… o outro precisa acreditar que foi traído.
Marcelo soltou o ar devagar.
— Isso pode dar muito errado.
— Pode.
— E mesmo assim você vai fazer.
— Sim.
O silêncio confirmou.
Não havia mais volta.
Eu já estava dentro.
Até o fim.
Peguei o celular.
Olhei a tela por alguns segundos.
E então mandei uma mensagem.
Curta.
Direta.
“A gente precisa conversar. Sem plateia.”
Não demorou.
A resposta veio.
“Agora você quer conversar?”
Ariane.
Fechei os olhos por um segundo.
— Isso não vai ser fácil — murmurou Marcelo.
— Nunca foi.
Guardei o celular no bolso.
E caminhei até a porta.
— Onde você vai?
— Pro morro.
Ele soltou uma risada incrédula.
— Claro que vai.
Parei antes de sair.
E olhei para trás.
— Se isso der errado…
— Vai dar — ele interrompeu.
Ignorei.
— Se der errado…
— Eu perco tudo.
Marcelo cruzou os braços.
— E se der certo?
Pensei por um segundo.
Mas a resposta veio clara.
— Eu ainda posso perder ela.
O silêncio foi pesado.
Real.
Porque aquela era a única parte que eu não conseguia garantir.
E talvez…
A única que realmente importava.
Saí.
Sem olhar para trás.
Porque o plano já estava em movimento.
E dessa vez…
Não era só sobre vencer.
Era sobre sobreviver a uma guerra onde dinheiro não comprava lealdade…
E sentimento não aceitava controle.