Capítulo 38: A Caçada

1088 Words
Erick Caçar não é sobre força. É sobre paciência. Sobre observar o alvo até ele esquecer que está sendo observado. E então… quando ele baixa a guarda… Você ataca. Eu já estava caçando há dias. Sem pressa. Sem anúncio. Sem erro. A mesa à minha frente estava coberta de relatórios, fotos, mapas de fluxo financeiro, nomes, datas. Tudo o que Zeca achava que estava escondido… não estava mais. Ele era bom. Mas eu era melhor. — Confirma de novo — pedi, sem tirar os olhos da tela. — Confirmado — respondeu Marcelo, ajustando o notebook. — As transferências batem com os eventos. — E os artistas? — Alguns nem sabem. — Outros suspeitam. — E uns poucos… participam. Assenti devagar. Exatamente como eu imaginava. Zeca não era só um intermediário. Ele era o maestro. Usava o palco como cortina. A música como distração. E as pessoas… como canal. Meu maxilar travou. Ariane. Ela podia ter sido uma peça nisso. Sem saber. Sem escolher. E isso… eu não ia permitir. — E a imprensa? — perguntei. — Já temos dois veículos prontos pra publicar. — Mas querem segurança jurídica. — Claro que querem. Peguei um dos documentos. Passei os olhos mais uma vez. Detalhes. Sempre os detalhes. Porque era ali que tudo podia dar errado. — Isso aqui… — apontei — tem que estar irrefutável. — Está. — Não pode ser só suspeita. — Não é. Marcelo me encarou. — Erick… quando isso sair… — Eu sei. — Vai estourar no morro. — Vai. — E a Ariane? O nome dela ficou no ar. Como sempre. O ponto mais sensível de tudo. Respirei fundo. — Eu estou fazendo isso por ela. — Eu sei. — Mas ela pode não ver assim. Fechei os olhos por um segundo. Porque essa era a parte que eu não conseguia controlar. — Eu não posso proteger ela… deixando ele continuar. O silêncio respondeu por mim. Marcelo assentiu. — Então vamos até o fim. Assenti. — Até o fim. *** O primeiro vazamento saiu às dez da manhã. Controlado. Calculado. Uma matéria pequena. Quase discreta. Mas suficiente pra plantar dúvida. “EVENTOS CULTURAIS NA ROCINHA SÃO INVESTIGADOS POR POSSÍVEL LAVAGEM DE DINHEIRO.” Sem nomes. Sem acusações diretas. Mas com dados. Com números. Com perguntas. E perguntas… são perigosas. O segundo veio duas horas depois. Mais direto. Mais agressivo. “ORGANIZADOR LOCAL PODE ESTAR LIGADO A ESQUEMA MILIONÁRIO.” Agora havia um rosto. Não explícito. Mas reconhecível pra quem sabia. E no morro… Todo mundo sabia. Eu estava no escritório quando o celular começou a vibrar sem parar. Mensagens. Chamadas. Alertas. Ares Corp. Imprensa. Investidores. E… contatos do morro. O efeito foi imediato. — Está funcionando — disse Marcelo, olhando os dados em tempo real. — O nome dele já está circulando. Caminhei até a janela. O céu estava claro. Limpo. Como se nada estivesse acontecendo. Mas eu sabia. Lá embaixo… O caos já tinha começado. — E o terceiro? — perguntei. Marcelo hesitou. — Esse… não tem volta. Olhei pra ele. — Nenhum deles tem. — Esse é o golpe final. — Então solta. Ele respirou fundo. E clicou. A terceira matéria não foi uma matéria. Foi uma exposição. Completa. Detalhada. Sem espaço pra dúvida. “ESQUEMA DE LAVAGEM ENVOLVE EVENTOS, ARTISTAS E MILHÕES EM DINHEIRO ILÍCITO.” Nomes. Datas. Provas. Fluxos. Tudo. E no centro… Zeca. Encostei na mesa. Sentindo o impacto. Mesmo à distância. Mesmo preparado. Ainda assim… pesado. — Agora já era — murmurou Marcelo. Assenti. — Agora começa. Porque derrubar alguém assim… Nunca é o fim. É o início da reação. E reação… no morro… Vem rápido. O celular vibrou. Número desconhecido. Atendi. — Você cruzou uma linha. A voz era familiar. Fria. Controlada. Kido. — Eu fiz o que precisava ser feito. — Você fez o que quis. — Ele estava usando todo mundo. — E você não está? A pergunta veio direta. Sem espaço pra defesa. — Eu estou expondo a verdade. — Você está criando guerra. Olhei pela janela. Pensando. Calculando. — A guerra já existia. — Agora ela tem dono. O silêncio ficou pesado. — Você acha que isso acaba com ele? — Não. — Mas enfraquece. — E enfraquecido… ele erra. Kido soltou um pequeno riso. — Você joga bem. — Eu jogo pra ganhar. — Aqui não é jogo. — Pra mim sempre foi. O silêncio voltou. Mas dessa vez… Mais perigoso. — Você colocou ela no meio disso. Meu peito apertou. — Ela já estava. — Agora mais ainda. — Eu vou proteger ela. A resposta veio automática. Instintiva. Errada. — Você não entende. — Então me explica. — Aqui… quando alguém cai… Ele fez uma pausa. — Leva outros junto. A frase ficou no ar. Pesada. Real. — Eu não vou deixar isso acontecer. — Você não controla isso. Desviei o olhar. Porque ele estava certo. De novo. — Eu controlo o suficiente. — Vamos ver. A ligação caiu. Sem despedida. Sem aviso. Fiquei olhando o celular por alguns segundos. Sentindo o peso do que eu tinha feito. Mas não havia arrependimento. Só consequência. *** No final da tarde… O retorno veio. Explosivo. Vídeos circulando. Gente discutindo. Acusações abertas. A quadra cheia de tensão. O nome de Zeca sendo gritado. Cobrado. Questionado. O sistema dele… Rachando. — Ele está tentando se defender — disse Marcelo. — Como? — Dizendo que é mentira. — Que é ataque externo. — Que você está manipulando tudo. Soltei um riso sem humor. — Clássico. — Está funcionando? — Parcialmente. — Mas a dúvida já está lá. Assenti. E dúvida… Era tudo o que eu precisava. Porque dúvida quebra lealdade. E sem lealdade… Não existe poder no morro. Peguei o celular. Abri a conversa com Ariane. Fiquei olhando a tela por alguns segundos. Sem saber exatamente o que dizer. Porque dessa vez… Não era só estratégia. Era pessoal. Muito pessoal. Digitei. Apaguei. Digitei de novo. “Você precisa sair daí hoje.” Enviei. A resposta não veio. Mas eu já esperava. Encostei na cadeira. Passei a mão pelo rosto. E deixei o silêncio tomar conta por um momento. A caçada tinha funcionado. O alvo estava ferido. Exposto. Pressionado. Mas agora… Ele ia reagir. E quando um homem como Zeca reage… Ele não pensa. Ele ataca. E isso… Era o que mais me preocupava. Não por mim. Mas por ela. Porque no meio daquela guerra… Ariane não era só o motivo. Ela estava virando o campo de batalha. E eu… Eu tinha acabado de acender o fogo.
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