Capítulo 44: A Proposta Suja

1086 Words
Kido O morro não perdoa fraqueza. Ele sente. Ele testa. E quando percebe que você está escorregando… ele te empurra. Zeca já estava na beira. E ele sabia. Eu vi isso antes mesmo de entrar. A porta estava aberta dessa vez. Sem cerimônia. Sem teatro. Isso já dizia muita coisa. Entrei devagar. O cheiro de cigarro velho e tensão acumulada preenchia o ambiente. Papéis espalhados pela mesa. Dois celulares. Um copo com bebida pela metade. Desorganizado. Diferente. Zeca sempre foi controle. Agora… estava tentando manter o que sobrava. — Tá confortável demais pra quem devia estar preocupado — ele disse, sem me olhar. Fechei a porta atrás de mim. — Eu não me preocupo quando sei onde estou pisando. Ele riu. Seco. — Então você é o único aqui. Caminhei até a mesa. Observei os papéis. Relatórios. Anotações. Nomes. — Você já está sentindo, né? Ele levantou o olhar. Lento. — Sentindo o quê? Inclinei a cabeça. — O dinheiro está sumindo. Silêncio. Pesado. — Cuidado com o que você fala. — Não é fala. — É fato. Encostei na cadeira, sem pedir permissão. — Ele começou. Zeca travou o maxilar. — Eu sei. Claro que sabia. Mas ouvir… Sempre pesa mais. — Então fala logo o que você quer — ele disse. Sem paciência. Sem jogo. Direto. Perfeito. — Controle. Ele soltou uma risada baixa. — Todo mundo quer. — Eu não sou todo mundo. Ele me encarou. — E o que você oferece em troca? Agora… A parte que muda tudo. — Proteção. Silêncio. Mas dessa vez… Interessado. — Proteção de quem? — De quem está vindo atrás de você. — E de quem já está dentro. Ele estreitou os olhos. — Você está se colocando como solução. — Porque eu sou. — E o preço? Sustentei o olhar. — Os eventos. — Todos. — Produção. — Contratos. — Distribuição. — Artistas. A palavra pairou no ar. Artistas. E dentro dela… Um nome. Ariane. Zeca percebeu. Claro que percebeu. — Você quer ela. Não desviei. — Eu quero o que ela representa. Mentira parcial. Mas suficiente. — E o que ela representa? — Influência. — Voz. — Controle de narrativa. Ele ficou em silêncio. Processando. — E você acha que ela vai aceitar isso? — Não precisa aceitar. — Precisa acontecer. A resposta saiu fria. Sem espaço pra romantizar. Porque aquilo não era romance. Era estratégia. — Você está entrando em território delicado — disse ele. — Eu já estou dentro. — E se ela virar contra você? — Ela não vira contra o morro. — E eu sou o morro agora. A frase ficou pesada no ar. Porque era verdade. Gostassem ou não. — Você fala como dono. — Porque alguém precisa ser. — E você acha que merece isso? Dei um leve sorriso. — Não é sobre merecer. — É sobre sustentar. Silêncio. Mais uma vez. Mas agora… Mais próximo de decisão. — E o Erick? — ele perguntou. O nome veio com peso. Com raiva. Com ameaça. — Ele está atacando sua base. — Está cortando seu dinheiro. — Está te expondo. — E você ainda acha que consegue segurar isso sozinho? Zeca não respondeu. Mas o silêncio dele… Foi resposta suficiente. — Comigo… você ganha tempo. — Estrutura. — Cobertura. — E alguém que conhece esse território melhor que ele jamais vai conhecer. Ele respirou fundo. Passou a mão no rosto. — E o que você ganha além dos eventos? Agora… Sem filtro. — Espaço. — Influência direta. — E liberdade pra agir. — Inclusive com ela. O olhar dele ficou mais duro. — Eu não vou vender minha sobrinha. A frase saiu rápida. Instintiva. Mas fraca. Porque já não era mais sobre isso. — Você já vendeu coisa pior. Silêncio. Cortante. — Cuidado. — Não. Inclinei o corpo pra frente. — Vamos parar de fingir. — Você usou ela. — Usa até hoje. — Só não gosta de ouvir isso. Ele ficou em silêncio. E dessa vez… Não teve resposta. — Eu não estou tirando ela de você — continuei. — Estou impedindo que ele leve. — Porque se você cair… — Ele leva tudo. — Inclusive ela. Aquilo bateu. Forte. Eu vi. — E você acha que com você é diferente? — Comigo… ela continua aqui. — Continua sendo quem é. — Continua sendo do morro. — Não vitrine de bilionário. A tensão subiu. Pesada. — Você fala como se estivesse salvando ela. — Eu estou. — De você. — E dele. Silêncio. Longo. Denso. Perigoso. Mas é necessário. — E se eu recusar? — ele perguntou. — Você não vai. — E se eu for burro o suficiente? Dei de ombros. — Então ele termina o que começou. — E você sabe disso. Zeca fechou os olhos por um segundo. Só um. Mas foi o suficiente. Quando abriu… A decisão já estava lá. — Você é um filho da p**a inteligente. Sorri de leve. — Eu sei. — E eu odeio o fato de precisar de você. — Mas precisa. Ele respirou fundo. Pesado. — Tá. A palavra veio baixa. Mas definitiva. — Eu aceito. Não houve aperto de mão. Não houve acordo formal. Porque ali… Nada disso importava. O que importava… Era o que vinha depois. — A partir de agora — eu disse, levantando — você segura a imagem. — Eu seguro a estrutura. — E juntos… — A gente quebra ele. Zeca assentiu. Devagar. — E ela? Parei. Olhei pra ele. — Ela não pode saber. — Ainda. — E quando souber? A resposta saiu simples. — Já vai ser tarde. *** Saí do lugar com a sensação de que o ar estava mais pesado. Mais carregado. Mas também… Mais definido. O jogo tinha mudado. De verdade. Agora não era mais disputa de território. Era controle de narrativa. De dinheiro. De influência. E, no meio disso tudo… Ela. Ariane. Caminhei pela viela sem pressa. Sentindo os olhares. Escutando os murmúrios. Mas agora… Nada disso importava. Porque eu sabia exatamente o que estava fazendo. E até onde estava disposto a ir. O problema nunca foi guerra. Guerra eu sei jogar. O problema… Era ela. Sempre foi. Porque diferente de tudo ali… Ela não era peça. Não era moeda. Não era estrutura. Ela era escolha. E isso… Era a única coisa que eu nunca consegui controlar. Mas agora… Talvez eu não precisasse controlar. Talvez bastasse… Tirar as opções ao redor. E deixar só uma. Eu. E, pela primeira vez… Essa ideia não pareceu errada. Pareceu inevitável.
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