Capítulo 39: A Tempestade

1006 Words
Ariane O morro sente antes de acontecer. Não é notícia. Não é confirmação. É sensação. E naquela manhã… o ar estava pesado. Diferente. Como se cada viela estivesse segurando a respiração. Eu acordei com barulho. Não alto. Mas constante. Gente falando. Muita gente falando. Sentei na cama devagar, o corpo ainda cansado, mas a mente já alerta. Peguei o celular. Notificações demais. Grupos. Mensagens. Áudios. Vídeos. E uma frase repetida em quase todos eles: “O cara do asfalto quer comprar o morro.” Meu estômago afundou. — Não… Abri um dos áudios. A voz de um homem, distorcida, nervosa: — “Tão dizendo que aquele empresário… o tal do Erick… tá comprando tudo, mano. Casa, terreno, evento… tudo! Vai tomar conta disso aqui!” Outro: — “É igual sempre, pô! Vêm com dinheiro, compram geral e depois a gente que se vira!” Outro: — “O Zeca caiu, mas esse aí é pior!” Fechei os olhos. Respirei fundo. Mas não adiantou. Porque eu sabia. Isso não era coincidência. Era reação. Alguém estava espalhando isso. E eu tinha duas opções claras na cabeça: Zeca… tentando se salvar. Ou Kido… tentando se proteger. Ou os dois. Levantei rápido. Troquei de roupa sem pensar muito. E saí. Porque ficar parada… não era opção. A viela já estava diferente. Grupos parados. Conversas cortadas quando eu passava. Olhares mais duros. Mais desconfiados. E isso… doía. Porque aquele era o meu lugar. Mas, pela primeira vez… Eu estava sendo vista como parte do problema. — Ariane! — chamou uma senhora da janela. Olhei pra cima. — Isso é verdade? A pergunta veio direta. Sem filtro. Sem cuidado. Engoli seco. — Não. — Tem certeza? — Tenho. Ela me olhou por mais um segundo. Como se estivesse decidindo se acreditava. E então entrou. Sem responder. Meu peito apertou. Continuei andando. Mais rápido agora. Porque aquilo estava crescendo. E rápido. Cheguei perto da quadra. E o cenário confirmou. Mais gente. Mais tensão. Mais discussão. E no centro… Zeca. De novo. Mas dessa vez… diferente. Sem sorriso. Sem controle total. Mas ainda falando. Ainda tentando. — Isso é mentira! — ele dizia, a voz alta. — Isso é ataque de fora! Querem tomar o morro de vocês! Meu sangue ferveu. Claro. Ele estava usando isso. Transformando o ataque contra ele… Em ameaça coletiva. — E quem trouxe ele pra cá, hein?! — gritou alguém. — Quem abriu espaço?! — Quem deixou esse cara entrar?! O burburinho cresceu. Perigoso. Descontrolado. E então… Eu entendi. Isso não era só sobre Erick. Era sobre medo. O medo de sempre. De perder o pouco que têm. De ser empurrado. De ser esquecido. E esse tipo de medo… É fácil de manipular. — Ariane chegou! — alguém gritou. Todos os olhares vieram. De uma vez. Pesados. Cobrança. Dúvida. Raiva. Meu coração acelerou. Mas eu não podia recuar. Não ali. Caminhei até o centro. Até ele. Até Zeca. — Você está jogando sujo — falei, baixo, mas firme. Ele sorriu. Mas não com alegria. — Eu estou sobrevivendo. — Mentindo. — Protegendo. — Você nunca protegeu ninguém. O silêncio caiu por um segundo. Mas logo quebrou. — Fala pra gente, Ariane! — gritou alguém. — Esse cara tá comprando o morro ou não?! Respirei fundo. Olhei ao redor. Cada rosto. Cada olhar. Cada história. — Não. Minha voz saiu mais alta agora. — Isso não é verdade. — Ele não está comprando nada. — Ele está ajudando! A última frase saiu antes que eu pudesse medir. E o efeito foi imediato. O clima mudou. — Ajudando? — alguém repetiu. — Ajudando quem? — A gente ou ele? As perguntas vieram rápidas. Cortantes. E eu senti. Eu tinha pisado errado. Zeca percebeu também. Claro que percebeu. — Tá vendo? — ele levantou a voz. — Já está defendendo! — Já está do lado dele! — Isso não é verdade! — Então por que você está com ele?! A pergunta veio como um soco. E eu não tive resposta imediata. Porque a verdade… Era complicada demais pra caber ali. E o silêncio… Falou por mim. O burburinho cresceu. Mais alto. Mais agressivo. Mais perigoso. E foi nesse momento… Que ele apareceu. Kido. Entrando pela lateral da quadra. Sem pressa. Mas com presença. E o efeito foi imediato. O barulho diminuiu. As pessoas se afastaram um pouco. Abriram espaço. Respeito. Ou medo. Ou os dois. Ele caminhou até o centro. Parou ao meu lado. E só então falou: — Já chega. A voz não foi alta. Mas foi suficiente. O silêncio caiu. Completo. Ele olhou ao redor. Devagar. Medindo. Controlando. — Ninguém vai comprar o morro. Simples. Direto. — E ninguém de fora manda aqui. Mais firme agora. Os olhares começaram a mudar. Menos confusão. Mais foco. — Quem manda aqui… é quem vive aqui. A frase foi recebida como verdade. Como sempre foi. E sempre seria. — E quem tentar passar por cima disso… Ele fez uma pausa. Pequena. Mas pesada. — Vai se arrepender. O recado estava dado. Claro. Direto. E não era só pra multidão. Era pra Erick. Eu senti. Todo mundo sentiu. Mas então… Ele virou o rosto. Pra mim. E ali… No meio de todo mundo… Havia algo mais. Algo pessoal. Algo que só eu percebi. — E você — disse ele, mais baixo — precisa parar de ficar no meio do fogo. Engoli seco. — Eu não escolhi isso. — Escolheu sim. — Quando ficou perto dele. A frase veio sem suavizar. Sem cuidado. Meu peito apertou. — Não é tão simples. — Nunca é. O silêncio entre nós foi curto. Mas intenso. — Mas você precisa decidir — completou ele. Olhei pra ele. Depois pra multidão. Depois pra Zeca. E, em algum lugar no meio disso tudo… Erick. Sempre Erick. — Eu sei. Mas a verdade… É que eu não sabia. Ainda não. Porque agora… Não era só sobre sentimento. Era sobre sobrevivência. E no morro… Tempestade não avisa quando vai destruir tudo. Ela só chega. E leva o que encontra pela frente.
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