O sol da manhã se infiltrava pelas cortinas rasgadas da casa de Elena, trazendo um novo dia que parecia pesado desde o despertar. O rosto dela ainda ardia onde o t**a do pai deixara marcas sutis, mas visíveis para quem olhasse de perto. Elena tentava escondê-las com o cabelo solto, enquanto arrumava-se rapidamente para ir trabalhar na lanchonete. O uniforme simples, o avental gasto e os sapatos desconfortáveis eram parte de uma rotina que sustentava não apenas a si mesma, mas também a irmã mais nova.
Sofia, sentada na cama, observava cada gesto da irmã.
— Elena… você não precisa ir hoje. Pode descansar — murmurou com a voz infantil, ainda carregada de preocupação.
Elena sorriu, mesmo que cansada. — Preciso, Sofi. Se eu não for, não recebo. E você sabe como o pai fica…
As palavras ficaram suspensas no ar, cheias de um peso que nenhuma das duas queria nomear. Elena beijou a testa da irmã e saiu pela porta antes que o pai acordasse novamente.
Na lanchonete, o movimento era constante. Mesas cheias, pedidos apressados, clientes impacientes. Elena trabalhava sem parar, equilibrando bandejas, limpando mesas e recebendo pedidos. Era um ritmo exaustivo, mas ao menos ali havia algum tipo de paz, distante da atmosfera sufocante de casa. Ainda assim, não escapava dos olhares curiosos de algumas colegas que notaram o hematoma discreto em seu rosto.
— Está tudo bem, Elena? — uma delas arriscou perguntar.
— Sim, tropecei ontem à noite — mentiu com um sorriso rápido, desviando o olhar. Era mais fácil assim. Ninguém precisava saber da verdade.
Enquanto atendia um novo cliente, Elena sentiu um arrepio estranho. Virou-se discretamente e o viu: Domenico. Não com a batina, não como padre. Ele usava roupas comuns, um casaco escuro e o olhar intenso fixo nela. Estava sentado em um canto afastado, observando. O coração dela disparou. O que ele estava fazendo ali?
Elena tentou se concentrar no trabalho, mas cada passo parecia vigiado. Domenico não pedia nada além de um café, que permaneceu intocado na mesa. Sua atenção estava completamente nela.
Do outro lado, Domenico mantinha-se imóvel, mas por dentro fervia. Ver Elena naquele ambiente humilde, marcada pela violência, aumentava ainda mais a fúria que carregava em silêncio. O mafioso dentro dele queria levantar-se, encontrá-la, exigir explicações, oferecer ajuda — qualquer coisa que a tirasse daquele sofrimento. O padre, no entanto, sabia que precisava manter distância. Mas havia limites que já estavam sendo ultrapassados.
Quando ela finalmente trouxe a conta até a mesa, Domenico ergueu os olhos. — Está tudo bem com você, Elena? — perguntou baixo, mas firme.
Ela congelou por um instante. O coração pareceu pular dentro do peito. — Estou… sim, padre — respondeu quase sussurrando, mesmo ele não estando com a batina. Havia uma confusão em chamá-lo daquela forma fora da igreja. — Só estou cansada, como sempre.
Ele franziu o cenho, claramente não convencido, mas não insistiu. Apenas deixou o dinheiro sobre a mesa, muito mais do que o valor do café. Elena tentou recusar, mas ele já havia se levantado e saído sem olhar para trás.
A noite chegou pesada. Elena voltou para casa com passos arrastados, levando um pequeno saco com pão e leite, comprado com o pouco que lhe restava do salário do dia. Ao entrar, encontrou o pai novamente com uma garrafa nas mãos. Os olhos vermelhos, o hálito alcoólico e a expressão agressiva eram sinais claros de que a noite seria longa.
— Onde está o resto do dinheiro, Elena? — a voz dele ecoou, grave e impaciente.
— Já usei para comprar comida. — Ela ergueu a sacola, mostrando o que trazia. — Precisamos disso, pai. Não dá para gastar tudo em apostas.
Ele se levantou de repente, derrubando a cadeira. — Você ousa me enfrentar? — gritou, avançando em direção a ela. Sofia, assustada, apareceu na porta do quarto.
Elena recuou, protegendo a irmã com o corpo. — Não toque nela! — disse firme, mesmo com o medo latejando nas veias.
O pai agarrou o braço dela com força, apertando até quase deixar marcas roxas. — Você me pertence, Elena! Enquanto viver debaixo do meu teto, fará o que eu mandar!
Ela tentou se soltar, mas o aperto era c***l. Sofia chorava baixinho, e isso doía mais que qualquer dor física. O desespero tomou conta, até que um som de passos fortes ecoou na entrada.
— Solte-a. — A voz grave cortou o ambiente como uma lâmina.
O pai virou-se, surpreso. Domenico estava parado na porta, a sombra de sua presença preenchendo a sala. Não usava batina. Não era o padre que todos conheciam. Era o homem perigoso por trás da máscara, com um olhar tão intenso que gelou o ar.
— Quem diabos é você? — o pai rosnou, ainda segurando Elena.
— O último homem que você vai querer enfrentar. — Domenico deu um passo à frente, a postura ereta, dominadora. — Solte-a agora.
Por um instante, o pai hesitou. O instinto dizia que aquele não era um simples estranho. Havia algo no olhar de Domenico que carregava ameaça real, fria, mortal. Ele largou o braço de Elena com um empurrão, recuando alguns passos.
Elena ofegava, o coração disparado. Domenico aproximou-se dela, mas não a tocou. Apenas lançou um olhar rápido para Sofia, garantindo que a menina estava bem.
— Leve sua irmã para o quarto — disse com firmeza, sem desviar os olhos do pai.
Elena obedeceu, mesmo sem entender como Domenico havia aparecido ali. O medo misturado à estranha sensação de segurança deixava tudo confuso.
Quando voltou para a sala, encontrou Domenico em pé diante do pai, como um juiz silencioso. O homem ainda segurava a garrafa, mas não ousava erguer a mão.
— Ouça bem — Domenico falou baixo, mas cada palavra era um aviso mortal. — Se tocar nela de novo, se colocar as mãos em Elena ou em Sofia, não terá tempo nem de se arrepender. Entendeu?
O pai, mesmo embriagado, percebeu a seriedade. Apenas acenou com a cabeça, sem coragem de encarar.
Domenico então virou-se para Elena, que observava em silêncio, dividida entre o medo e a gratidão. Os olhos dele suavizaram por um instante, mas a intensidade continuava.
— Você não está sozinha, Elena. — As palavras saíram como um juramento.
Ela sentiu o peito apertar. Não sabia o que pensar. Um padre não deveria estar ali. Um homem da igreja não deveria agir como ele agiu. Mas algo dentro dela dizia que Domenico não era apenas o que aparentava ser.
A noite avançava, e Elena, mesmo sem compreender completamente, sabia que aquele momento mudaria tudo. Porque Domenico havia cruzado a linha que separava o padre distante do homem que agora se envolvia diretamente em sua vida.