A noite caiu sobre San Bendetto como um véu pesado, abafando o burburinho das ruas e deixando apenas o eco distante das ondas que se quebravam contra as pedras do porto. Mas, naquela noite, o silêncio parecia mais denso do que nunca. Como se toda a cidade tivesse percebido, de forma instintiva, que algo estranho estava prestes a acontecer.
Nos becos mais afastados, três carros pretos estacionaram sem chamar atenção. Os faróis apagaram-se quase ao mesmo tempo, e das portas saíram homens de terno escuro, passos firmes, olhares duros. Não falavam em voz alta; apenas gestos discretos bastavam. Todos estavam armados.
Na praça, algumas pessoas notaram a movimentação, mas ninguém ousou comentar. Em cidades pequenas, os boatos corriam rápido — e os perigos, mais rápido ainda.
Elena estava em casa, ajudando Sofia a arrumar a cama. O pai dormia, jogado no sofá, ainda com cheiro forte de álcool. A respiração dele era pesada, como um ronco misturado a resmungos incompreensíveis.
— Lena... — Sofia murmurou, puxando sua manga. — Eu ouvi barulhos na rua. Passos.
Elena franziu o cenho, indo até a janela. As cortinas rasgadas m*l escondiam a vista da rua estreita. Não viu nada além das sombras dos postes, mas a inquietação que carregava no peito só aumentou.
Lembrou-se imediatamente das palavras do padre Domenico: “Se notar algo estranho, procure refúgio na igreja.”
— Vamos dormir cedo, Sofia — disse, tentando soar firme. — Amanhã será um dia longo.
Mas a verdade era que não conseguiria fechar os olhos aquela noite.
Na sacristia, Domenico estava sentado diante de um crucifixo. O ambiente estava mergulhado em penumbra, iluminado apenas pelas velas. Seus lábios se moviam em oração silenciosa, mas o coração não acompanhava a calma das palavras.
A porta rangeu. Alfonso Greco entrou sem cerimônia, como se fosse dono do espaço.
— Eles chegaram — disse, sem rodeios.
Domenico ergueu o olhar, firme. — Quantos?
— O suficiente para virar esta cidade de cabeça para baixo. — Alfonso se apoiou em uma das colunas de madeira, encarando-o com frieza. — Você precisa se decidir, Moretti. Ou encara de frente, ou será esmagado.
— E você? — retrucou Domenico, a voz baixa, mas carregada de tensão. — O que ganha trazendo esses homens até aqui?
Alfonso sorriu de lado. — Eu não os trouxe. Mas sei que não se pode fugir do passado. Nem mesmo vestido de padre.
Um silêncio pesado caiu. Domenico se levantou lentamente, ajeitando a batina como se fosse uma armadura.
— O rebanho não será tocado — disse, firme. — Se eles vieram por mim, que venham.
Alfonso estreitou os olhos. — Discursos de mártir não salvam ninguém. Nem a si mesmo.
Horas depois, os primeiros rumores chegaram aos ouvidos de Elena. Na lanchonete, duas mulheres cochichavam perto do balcão.
— Eu vi, juro que vi. Homens estranhos, com sotaque do sul. Estavam no cais, como se esperassem alguém.
— Não diga isso em voz alta, pelo amor de Deus. Vai nos trazer desgraça.
Elena apertou a bandeja com força, a mente em turbilhão. Eles. Tinham chegado.
O coração disparou. Pensou em Sofia, pensou em Domenico. E sabia que, de algum modo, os dois estavam no mesmo fio de perigo.
Naquela noite, a igreja estava quase vazia. Apenas meia dúzia de fiéis foram rezar o terço. Elena decidiu ir, apesar do cansaço. Algo dentro dela dizia que precisava estar perto do altar, perto dele.
Entrou em silêncio, o som de seus passos ecoando pelo chão de pedra. Lá na frente, Domenico estava de pé, como sempre, ereto, com o semblante grave.
Depois da oração, quando todos já haviam saído, ela permaneceu sentada. Os vitrais refletiam tons azulados sobre seu rosto pálido.
Domenico se aproximou. — Elena... por que ainda está aqui?
Ela ergueu os olhos, a voz trêmula, mas cheia de determinação: — Porque não quero ir para casa. Porque tenho medo.
Ele se deteve por um instante, estudando-a. — Medo do quê?
— Do que está vindo. — Ela apertou as mãos sobre o colo. — O senhor sabe tão bem quanto eu que há algo errado nesta cidade. Esses homens... eles não vieram por acaso.
Domenico respirou fundo, desviando o olhar por um instante. — Filha, eu não posso lhe dizer tudo.
— Então me diga pelo menos se estamos em perigo — insistiu ela.
Um silêncio pesado se instalou. Ele a encarou, os olhos escuros brilhando sob a chama das velas.
— Sim. — A palavra saiu firme, como um golpe. — Mas eu não permitirei que o perigo alcance você ou Sofia.
Elena sentiu o coração disparar. Parte dela queria acreditar, outra parte sabia que não era tão simples.
— Promessas não detêm armas, padre. — A voz dela tremeu. — O que o senhor vai fazer?
Ele não respondeu de imediato. Apenas fechou os olhos por um instante, como se pedisse forças.
— O que for necessário.
Do lado de fora, dois homens observavam a fachada da igreja de dentro de um carro. Um deles tragava um cigarro, o outro mexia no coldre preso à cintura.
— Ele está lá dentro — disse o primeiro.
— Amanhã à noite, então. — O segundo sorriu de forma gélida. — Acabaremos com a farsa do padre santo.
Naquela madrugada, Elena não conseguiu dormir. A conversa com Domenico ecoava em sua mente. Sofia se encolheu ao lado dela, como se pressentisse a tempestade.
Elena sabia que estava cruzando uma linha invisível: cada passo em direção ao padre a colocava mais perto de segredos que poderiam destruí-la. Mas algo dentro dela dizia que já não havia volta.
No silêncio da noite, abraçando a irmã, murmurou:
— Que Deus nos guarde... porque o m*l já está à porta.
E, no coração, a imagem de Domenico, solitário diante da escuridão, parecia mais clara do que nunca.