Entre Sombras e promessas

1124 Words
A madrugada caiu pesada sobre San Benedetto, tingindo as ruas estreitas de um silêncio quase sufocante. Depois do ataque da noite anterior, nada mais parecia comum. Portas se mantinham trancadas, janelas fechadas antes mesmo que o sol desaparecesse no horizonte. A sensação era de que a cidade inteira prendia a respiração, aguardando o próximo movimento da ameaça invisível. Na pequena igreja, Domenico permanecia em vigília. Não conseguia dormir, mesmo que tentasse. Sentado nos degraus do altar, a batina levemente desalinhada, ele escutava cada som da noite: o vento arrastando folhas secas, o estalo distante de madeira, e, mais inquietante, passos que às vezes julgava ouvir do lado de fora, como se sombras rondassem constantemente os muros do templo. Alfonso Greco permanecia em um banco, olhos semicerrados, mas atento. O velho parecia um vulto imóvel, mas Domenico sabia que sua mente trabalhava incansavelmente. — Está esperando por eles, não está? — murmurou Alfonso, quebrando o silêncio. — Eles já estão aqui — respondeu Domenico, firme. — Apenas não decidiram quando atacar de novo. O velho assentiu devagar. — E quando atacarem, padre, o senhor sabe que estará no centro da tempestade. Domenico não respondeu. Apenas fechou os olhos por um instante, como se buscasse forças. Quando os abriu novamente, ouviu o ranger da porta lateral. Levantou-se de imediato, os sentidos em alerta. Era Elena. Entrava apressada, o véu desalinhado, os olhos azuis marejados. — Padre Domenico… — a voz dela tremeu. — Preciso falar com o senhor. Ele correu ao encontro dela, preocupado. — Elena, o que faz aqui a esta hora? É perigoso andar sozinha pelas ruas. Ela respirava ofegante, as mãos trêmulas segurando o xale. — Eu não consegui ficar em casa. Sofia estava dormindo, e… eu senti que algo estava errado. Quando saí, percebi dois homens me seguindo. Consegui despistá-los, mas… — a voz falhou. — Eles estavam armados. O coração de Domenico disparou. — Onde? — Na rua das oliveiras. Eles me viram sair de casa. — Ela o olhou, desesperada. — Padre, eles sabem quem eu sou. Alfonso se levantou, a voz grave cortando o espaço. — Então já não se escondem mais. São ousados. Isso significa que a cidade já está cercada. Antes que Domenico pudesse responder, um estrondo ecoou do lado de fora. Um vidro estilhaçou-se, espalhando cacos pelo chão do templo. Elena gritou baixo e se encolheu instintivamente. Domenico correu, puxando-a para trás de uma coluna de pedra. O vento frio entrou, mas junto dele, o som metálico de passos pesados. — Fiquem abaixados! — ordenou Domenico. Dois homens entraram pela porta principal. Usavam casacos escuros, e as armas em suas mãos brilhavam à luz trêmula das velas. Não pareciam preocupados em se esconder. Vieram para intimidar, para deixar claro que dominavam o terreno. Alfonso manteve-se imóvel no banco, observando-os como quem assiste a uma peça de teatro já conhecida. — Onde está ele? — rosnou um dos homens, a voz carregada de sotaque. — Onde está o padre? Domenico apertou o braço de Elena, fazendo sinal para que permanecesse em silêncio. Mas um dos homens avançou mais, chutando bancos, derrubando castiçais. — Ele está aqui! — gritou o outro. — O corvo de batina não foge. Elena tremeu, sentindo o coração bater descompassado. Domenico a olhou rapidamente, e naquele instante algo aconteceu: não foram apenas palavras silenciosas de “fique calma”. Foi um encontro de almas, um instante em que ela percebeu que ele não a deixaria. Não importava o preço. O primeiro homem avançou ainda mais. Domenico sabia que precisava agir. Levantou-se de repente, saindo da sombra da coluna. — Estou aqui. — Sua voz ecoou firme, ressoando pela nave da igreja. Os homens se voltaram, as armas apontadas. — Padre Moretti — disse um deles, sorrindo com escárnio. — Finalmente. — Esta é a casa de Deus — respondeu Domenico, dando alguns passos à frente. — Não profanem este lugar com violência. A risada do outro ecoou, carregada de sarcasmo. — Deus não está aqui, padre. Só nós. Ele ergueu a arma, mirando direto no peito de Domenico. Elena deixou escapar um soluço. O padre não se moveu. Seu coração batia forte, mas seus olhos permaneceram fixos, sem vacilar. Foi nesse momento que o improvável aconteceu: um terceiro homem entrou correndo, ofegante. — A polícia! — gritou. — Estão vindo para cá! Os dois agressores se entreolharam, xingando baixinho. O líder baixou a arma, furioso. — Ainda não terminou, padre. Voltaremos. — E, sem demora, fugiram pela lateral, desaparecendo na escuridão. O silêncio voltou, mas pesado, sufocante. Elena correu até Domenico, os olhos arregalados, lágrimas escorrendo pelo rosto. — O senhor podia ter morrido! — exclamou, a voz quebrada. — Eles iam atirar! Domenico segurou o rosto dela entre as mãos, olhando-a profundamente. — Eu não temo por mim, Elena. — Sua voz era grave, mas suave. — O que me aterroriza é que toquem em você ou em Sofia. Os olhos dela se encontraram com os dele, e naquele instante, tudo ao redor desapareceu: o som do vento, o cheiro de pólvora, até mesmo a presença de Alfonso, que observava em silêncio. Havia apenas os dois, unidos por um fio invisível que transcendia palavras. Elena sentiu o coração disparar. Não era apenas gratidão. Era algo mais profundo, mais perigoso. E Domenico, embora lutasse contra isso com toda a sua disciplina, não conseguiu desviar o olhar. Foram interrompidos pela chegada da polícia local, que entrou em alvoroço, lanternas iluminando cada canto da igreja. Perguntaram o que havia acontecido, recolheram os cacos de vidro, mas a sensação de insegurança permaneceu. Mais tarde, quando a movimentação cessou e Alfonso foi levado por um dos guardas para prestar depoimento, Domenico e Elena ficaram sozinhos diante do altar. O silêncio entre eles era carregado de tudo o que não ousavam dizer. — O senhor não pode se arriscar assim — sussurrou ela, por fim. — Eu… eu não suportaria vê-lo cair. Ele respirou fundo, fechando os olhos por um instante. — Elena… — começou, mas a voz falhou. — Minha missão é proteger. Mesmo que isso custe a minha vida. Ela balançou a cabeça, segurando a mão dele com força. — Não. Sua vida também importa. Para mim… — parou, sentindo o peso das palavras que quase escaparam. Domenico a olhou, os olhos escuros queimando de intensidade. Houve um instante em que quase esqueceu quem era, quase esqueceu a batina que carregava. Mas conteve-se. Apenas apertou a mão dela em resposta, deixando que o silêncio dissesse o que não podiam. Do lado de fora, o vento soprou com violência, fazendo as portas tremerem. A cidade não estava segura. A guerra tinha apenas começado. Mas dentro daquela igreja, um pacto silencioso fora firmado: eles enfrentariam tudo, juntos.
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