A manhã nascia cinzenta, com nuvens carregadas cobrindo o céu e abafando a claridade do sol. O sino da igreja soava lento, melancólico, como se acompanhasse o humor de Domenico. Ele já estava acordado havia horas, caminhando de um lado a outro dentro do pequeno quarto reservado ao padre. A batina pendia cuidadosamente no cabide, mas o que ele vestia naquele momento não tinha nada de sagrado: calça escura, camisa simples e uma arma fria presa à cintura.
Na noite anterior, recebera notícias que confirmavam o que ele temia: a presença de inimigos cada vez mais próxima. O ataque a Elena não fora um acaso; era um aviso. Domenico Moretti podia vestir a máscara de homem de Deus diante da cidade, mas o submundo nunca esquecia seus passos. A máfia tinha memórias longas, e os inimigos, ainda mais.
Ele passou a mão pelos cabelos, respirando fundo. Havia aprendido a lidar com o perigo desde cedo, mas, agora, havia algo diferente. Elena. O simples nome fazia sua mente pesar. Não podia ignorar a ameaça que rondava a jovem, e, no entanto, não tinha forças para afastá-la de si.
No mesmo horário, Elena caminhava pelas ruas em direção à igreja. O coração batia acelerado sem motivo claro. Talvez fosse apenas a lembrança das palavras trocadas com Domenico nos últimos dias, ou talvez fosse a estranha sensação de que algo maior estava prestes a acontecer. Ela apertou o casaco contra o corpo, tentando se proteger do vento frio, e acelerou o passo.
Ao entrar no templo, encontrou-o vazio. Apenas algumas velas tremeluziam diante do altar. O silêncio, como sempre, era profundo, mas não a confortava como antes. Elena tinha a sensação de que o ar estava mais pesado, carregado de algo invisível.
— Padre Domenico? — chamou, a voz suave ecoando pelo espaço.
Ele surgiu logo depois, vindo de uma das laterais, com a batina já vestida. Havia em seu olhar um cansaço difícil de esconder.
— Elena — respondeu, a voz grave preenchendo a igreja. — Não esperava vê-la tão cedo.
Ela sorriu, mesmo notando a rigidez dele.
— Eu precisava estar aqui. — Olhou ao redor, como se buscasse coragem. — Às vezes sinto que a igreja é o único lugar que ainda me dá paz.
Ele a observou em silêncio por alguns segundos. Queria acreditar que ela estava segura ali dentro, mas sabia que não era verdade.
— A paz, Elena, muitas vezes é apenas uma ilusão — disse, quase sem perceber que deixava escapar sua própria visão amarga do mundo.
Ela franziu o cenho, intrigada.
— O senhor fala como se carregasse algo que não posso imaginar.
Ele desviou o olhar. Aproximou-se do altar, acendendo mais uma vela, como se aquele gesto pudesse distraí-lo da intensidade da conversa.
— Todos carregamos segredos — respondeu, mantendo o tom baixo. — Uns mais pesados que outros.
Elena se aproximou lentamente, parando ao lado dele. O calor das velas iluminava o rosto de Domenico, ressaltando os traços fortes e a sombra de algo que ela não conseguia decifrar.
— O senhor já pensou em… compartilhar esse peso? — perguntou com cautela.
Ele virou-se para ela, o olhar penetrante como sempre.
— E se, ao compartilhar, eu apenas colocasse você em risco? — devolveu a pergunta, a voz firme, mas carregada de emoção contida.
Elena sentiu um arrepio percorrer o corpo. Sabia que Domenico escondia algo muito maior do que simples segredos de padre. Mas, em vez de medo, sentiu algo diferente: um desejo inexplicável de se aproximar ainda mais.
— Então eu prefiro correr o risco — murmurou, surpreendendo até a si mesma. — Porque eu já sinto que faço parte desse peso, mesmo sem entender tudo.
Ele a fitou longamente, o silêncio entre eles mais eloquente do que qualquer palavra. Havia ali uma entrega, um reconhecimento de que nenhum dos dois podia mais negar o que crescia.
Antes que Domenico pudesse responder, o som de passos ecoou pela entrada da igreja. Ele reagiu instintivamente, voltando a assumir a postura calma de padre. Dois homens entraram, vestindo roupas simples demais para a ocasião. Olhavam ao redor com atenção suspeita.
— Bom dia, padre — disse um deles, com um sorriso que não chegava aos olhos. — Viemos apenas… rezar.
Domenico conhecia aquele tipo de olhar. Eram enviados. Espiões.
— A casa de Deus está sempre aberta — respondeu, mantendo a serenidade. — Sintam-se à vontade.
Os homens se afastaram, mas Domenico percebeu que não tiravam os olhos dele. Elena notou a tensão, mas não entendeu. Aproximou-se mais e sussurrou:
— Quem são eles?
— Apenas fiéis — mentiu, rápido. — Não se preocupe.
Mas ele sabia que a presença daqueles homens mudava tudo. A igreja não era mais um refúgio. O perigo estava ali, entrando pelas portas, respirando o mesmo ar.
Quando os estranhos se retiraram minutos depois, Domenico permaneceu em silêncio, observando-os até que desapareceram da vista. Só então voltou-se para Elena, e o olhar que lançou sobre ela era carregado de decisão.
— Preciso que confie em mim — disse, com firmeza. — Se em algum momento eu disser para você sair daqui, para não voltar… você deve obedecer.
Ela arregalou os olhos.
— Está me assustando.
— Não é essa a minha intenção. — Sua voz suavizou um pouco. — Mas a vida nem sempre é como acreditamos. E eu não posso permitir que nada a atinja.
O coração de Elena batia descompassado. A forma como ele falava, como a olhava, não era apenas de um padre cuidando de uma fiel. Era de um homem que se importava profundamente.
— Eu confio em você, Domenico — disse baixinho, omitindo pela primeira vez o título religioso.
Ele fechou os olhos por um instante, lutando contra o impacto de ouvir seu nome dito daquela forma. Quando os abriu, sentiu a muralha dentro de si começar a ruir.
— Elena… — murmurou, quase em súplica. — Não sabe o que faz comigo.
Ela respirou fundo, sentindo a distância entre eles diminuir. O mundo parecia se calar, restando apenas o som de suas respirações.
E então, por um instante que pareceu eterno, Domenico deixou que o lado humano, e não o religioso, prevalecesse. Sua mão tocou de leve a dela, um gesto pequeno, mas carregado de intensidade.
Elena estremeceu. Era proibido, era perigoso, mas era real.
— Eu não deveria… — começou ele, retirando a mão. — Mas não consigo evitar.
— Então não evite — respondeu ela, com coragem inesperada. — Porque eu também não consigo.
O silêncio voltou, carregado de desejo e medo. Domenico sabia que estava ultrapassando limites perigosos, mas ao olhar para Elena, percebeu que já não havia retorno.
Lá fora, o sino voltou a soar, como se lembrasse que o tempo não parava. Domenico ergueu os olhos para o crucifixo acima do altar, buscando forças, mas a batalha dentro dele já estava perdida.
Ele era um homem dividido entre dois mundos: o da fé e o do crime, o da devoção e o do desejo. E Elena agora fazia parte de ambos.