O sol ainda m*l havia surgido quando Elena empurrou a pesada porta de madeira da igreja. O rangido ecoou pelo espaço vazio, misturando-se ao cheiro de incenso queimado na noite anterior. Aquele templo era um refúgio para ela, um abrigo silencioso onde podia, ao menos por alguns instantes, acreditar que havia paz no mundo.
Do lado de fora, a cidade já começava a despertar com o barulho de carroças, passos apressados e conversas em tom elevado. Mas lá dentro, tudo parecia suspenso, como se o tempo se curvasse diante da solenidade do altar. As colunas de pedra, erguidas séculos atrás, sustentavam não apenas o teto, mas também a fé de todos que entravam por aquelas portas.
Elena caminhou pelo corredor central com passos suaves, quase hesitantes. Usava um vestido simples de algodão claro, e os cabelos castanhos escuros caíam em ondas sobre os ombros. Carregava no bolso um terço gasto, herdado de sua mãe, e os dedos se enroscavam instintivamente nas contas frias enquanto ela se aproximava dos primeiros bancos.
Havia poucas pessoas ali naquela manhã: uma senhora ajoelhada próxima ao altar, murmurando orações em silêncio, e dois homens que pareciam trabalhadores, de cabeças baixas e semblante cansado. O silêncio predominava, quebrado apenas pelo crepitar das velas e pelo leve farfalhar das páginas de um livro que alguém manuseava.
Esse alguém era o padre.
Elena o viu de relance antes de se ajoelhar. Estava perto do altar, organizando as velas acesas, com a batina n***a caindo em linhas retas até o chão de pedra. Era alto, de ombros largos, e mesmo naquele gesto simples havia uma solenidade contida, quase ensaiada.
Fechou os olhos e inclinou a cabeça, tentando afastar os pensamentos que a distraíam. Seus lábios se moveram em preces silenciosas:
— Senhor, dai-me força para suportar meus dias… guiai-me para não me perder.
A cada palavra, lembrava-se da ausência que ainda pesava em seu peito. Desde a morte de sua mãe, a casa parecia grande demais, vazia demais. O pai, sempre ausente com negócios e dívidas, não oferecia conforto. Restava-lhe a igreja, onde acreditava que ao menos poderia derramar suas dores em silêncio.
Mas naquela manhã, algo estava diferente.
Enquanto mantinha os olhos fechados, Elena sentiu um peso, como se alguém a observasse. A sensação era intensa, quase palpável. Abriu os olhos devagar e ergueu o rosto.
O padre a encarava.
Do altar, ele permanecia imóvel, segurando um castiçal com uma das mãos, mas os olhos estavam fixos nela. Eram olhos castanhos escuros, penetrantes, que a atravessavam sem pedir permissão. Elena estremeceu, incapaz de sustentar aquele olhar por muito tempo, e baixou os olhos de imediato, sentindo o coração acelerar.
Sabia quem ele era. Todos sabiam.
Padre Domenico Moretti.
A comunidade inteira o respeitava. Sua voz grave e firme, suas homilias carregadas de intensidade, a forma como conduzia missas e funerais, sempre com uma presença que dominava o espaço. Para muitos, era um guia, um exemplo de fé inabalável.
Mas para Elena, havia algo além.
Não sabia explicar, mas desde a primeira vez que o viu, sentiu uma inquietação estranha. Era como se houvesse nele algo que não combinava com a santidade do altar. Sua postura era de um líder, não apenas de um padre. Sua presença parecia maior do que deveria, mais sombria, quase perigosa.
Tentou afastar esse pensamento, retomando a oração, mas não conseguia ignorar a lembrança daquele olhar. Era como se o peso da fé que buscava ali tivesse se transformado em outra coisa — uma tensão que percorria sua pele e a deixava inquieta.
Minutos depois, a pequena missa matinal começou. O padre conduziu cada palavra com firmeza, a voz ecoando pelas paredes de pedra. Elena ouvia, mas sua mente estava distante, presa na intensidade que aquele homem transmitia.
Quando a celebração terminou, alguns fiéis se dispersaram rapidamente. Elena permaneceu sentada, recolhida, respirando fundo, tentando encontrar coragem para se levantar.
Foi então que ouviu passos se aproximando.
Levantou os olhos e o viu caminhando pelo corredor. Seus movimentos eram lentos, firmes, e quando passou por ela, diminuiu o ritmo. Elena engoliu em seco, sentindo o coração bater contra as costelas.
— A fé é uma força poderosa — disse ele em voz baixa, inclinando-se levemente para ela. — Mas também exige coragem para sustentá-la.
Aquela voz grave, tão próxima, a envolveu como um sussurro proibido.
Elena piscou, surpresa pela abordagem. Demorou alguns segundos para responder:
— Eu… tento ter coragem — murmurou, quase em defesa. — Mas às vezes parece que tudo o que faço é me perder no meio das minhas próprias dúvidas.
Os olhos dele permaneceram fixos nos dela. Um leve sorriso surgiu em seus lábios, mas não era doce. Era enigmático, contido, como se escondesse muito mais do que mostrava.
— Então continue vindo — disse. — Talvez encontre aqui o que procura.
E, sem esperar resposta, retomou o passo firme, afastando-se pelo corredor até desaparecer pela lateral da sacristia.
Elena ficou imóvel por alguns instantes, a respiração descompassada. Não sabia explicar por que aquelas palavras mexiam tanto com ela. Não era apenas fé que a trazia àquela igreja — havia algo mais, algo que não ousava admitir nem para si mesma.
E m*l imaginava que o homem que acabara de abalar seu coração escondia segredos sombrios o suficiente para destruir sua fé.