Protegida pelas sombras

1204 Words
A chuva havia caído durante toda a madrugada, lavando as ruas de Nápoles e deixando o ar pesado, carregado de umidade. Quando Elena saiu de casa naquela manhã, sentiu o cheiro de terra molhada misturar-se ao aroma de pão fresco que vinha das padarias do bairro. Normalmente, aquela combinação de cheiros a confortava, lembrando-lhe a simplicidade da vida cotidiana. Mas, naquele dia, algo a inquietava. Seu coração parecia mais acelerado do que o normal, como se pressentisse que algo fora da rotina estava prestes a acontecer. Apertou o casaco ao redor do corpo e apressou os passos em direção à igreja. Nos últimos dias, a presença de Domenico se tornara ainda mais intensa em seus pensamentos. Cada olhar, cada palavra dita em tom sereno, parecia gravar-se dentro dela. Elena lutava contra aquilo, mas era como tentar conter o mar com as mãos. Quando entrou na igreja, encontrou o padre no altar, apagando algumas velas queimadas da noite anterior. Ele ergueu os olhos e a viu, e naquele instante Elena sentiu aquele mesmo arrepio correr-lhe a espinha. — Está cedo hoje — comentou Domenico, com um meio sorriso contido. — Acordei sem sono. Pensei que… precisava estar aqui. — A voz dela soou mais frágil do que gostaria. Ele a observou por alguns segundos antes de assentir. — Às vezes, a alma pede refúgio antes mesmo de entendermos o motivo. Elena respirou fundo, tentando se recompor. Sentou-se no primeiro banco e permaneceu em silêncio, observando a luz que atravessava os vitrais e pintava o chão com cores vivas. A presença dele era ao mesmo tempo consolo e tormento. Quando a missa terminou e as poucas pessoas que haviam comparecido saíram, Elena decidiu permanecer por alguns minutos a mais. Gostava da calma depois que o templo esvaziava. Fez o sinal da cruz e começou a se levantar, mas percebeu um homem parado próximo à entrada. Não era um rosto conhecido. Ele estava encostado na parede, com um chapéu escuro cobrindo parte do rosto. Seus olhos, no entanto, estavam fixos nela. Um arrepio desconfortável percorreu-lhe a pele. Elena recolheu a bolsa e começou a andar, mas, quando saiu, notou que o homem a seguiu. Apavorada, acelerou os passos pelas ruas úmidas. Podia ouvir o som dos sapatos dele contra o chão, firme, constante, sem intenção de disfarçar. — Signorina… — a voz dele soou áspera atrás dela. — Não precisa ter medo. Elena quase tropeçou, mas continuou correndo. Seu coração parecia martelar contra as costelas. Quando virou a esquina, deu de cara com outro homem, tão ameaçador quanto o primeiro. Ele sorriu de maneira inquietante. — Perdida? — perguntou, bloqueando-lhe a passagem. Antes que pudesse reagir, uma sombra surgiu de repente. Domenico. A batina n***a ainda cobria seu corpo, mas o olhar era diferente. Escuro, feroz. Ele avançou sem hesitar, agarrando o braço do primeiro homem que se aproximava e o empurrando contra a parede com uma força que não combinava com a imagem de um padre. — Saíam daqui. Agora. — A voz dele não tinha nada de calma. Era uma ordem fria, carregada de ameaça. Os homens trocaram olhares, surpresos. O segundo tentou argumentar: — Não temos nada com você, padre… Domenico estreitou os olhos, e o silêncio que se seguiu foi mais ameaçador do que qualquer palavra. — Vocês não querem me testar. A tensão pairou no ar por alguns segundos até que, relutantes, os dois homens recuaram e desapareceram pelas vielas. Elena ainda tremia quando Domenico se voltou para ela. Os olhos dele estavam diferentes, como se uma máscara tivesse caído por alguns instantes. — Está ferida? — perguntou, aproximando-se. — N-não… — gaguejou, tentando recuperar o fôlego. — Mas… quem eram aqueles homens? Ele respirou fundo, controlando-se. O olhar voltou a suavizar, embora não completamente. — Apenas pessoas que não deveriam estar aqui. — Tocou de leve o ombro dela, firme o suficiente para transmitir segurança. — Vá para casa, Elena. E… evite andar sozinha por essas ruas. Ela assentiu, confusa. Algo nela sabia que ele escondia mais do que revelava, mas, ao mesmo tempo, a sensação de p******o que emanava dele era inegável. Naquela noite, Elena não conseguiu dormir. A cena se repetia em sua mente: os homens, o medo, e depois Domenico surgindo como uma muralha. O modo como ele lidara com a situação não era o de um simples padre. Não havia apenas autoridade em sua postura, havia perigo. Sentou-se à escrivaninha e abriu seu caderno. Escreveu, com a mão trêmula: Quem é você de verdade, padre Domenico? E por que sinto que, mesmo sabendo que pode ser um homem perigoso, não consigo me afastar? Enquanto isso, Domenico encontrava-se em um armazém afastado do centro, reunido com dois de seus homens de confiança. A batina havia ficado no confessionário. Agora, vestia uma camisa escura, as mangas dobradas, revelando braços marcados. — Aqueles dois não apareceram por acaso — disse, a voz baixa, mas carregada de controle. — Estão sondando territórios. Um dos homens assentiu. — Quer que cuidemos disso? Domenico esfregou o queixo, pensativo. — Ainda não. Quero saber quem os mandou. Mas se se aproximarem dela outra vez… — Parou, e o silêncio falou mais alto. Nenhum de seus subordinados ousou questionar. Sabiam que, quando Don Moretti falava daquele jeito, era sentença. No dia seguinte, Elena voltou à igreja. Parte dela hesitava, mas não conseguiu resistir. Precisava vê-lo, precisava entender. Quando entrou, encontrou-o sozinho, sentado em um banco, com as mãos entrelaçadas e o olhar perdido. Parecia em oração, mas havia algo pesado em sua expressão. — Padre… — chamou, suavemente. Ele ergueu os olhos, e por um instante, aquele olhar frio da noite anterior brilhou de novo antes de desaparecer. — Elena. — A voz dele retomou o tom sereno. — Não deveria ter vindo tão cedo. — Eu… queria agradecer por ontem. — Ela engoliu em seco. — Não sei o que teria acontecido se o senhor não estivesse lá. Domenico a observou em silêncio. A gratidão no olhar dela mexia com ele de uma forma que não sabia explicar. Parte dele queria dizer a verdade, confessar que não era apenas um padre. Mas outra parte sabia que isso a destruiria. — O importante é que está bem — respondeu, enfim. — É só isso que importa. Elena hesitou antes de falar de novo: — Mas… por que aqueles homens pareceram ter medo do senhor? O silêncio se prolongou. Domenico não desviou o olhar, mas também não respondeu. Em vez disso, apenas disse: — Confie em mim, Elena. Algumas respostas não devem ser buscadas. Ela sentiu um arrepio. Parte dela queria fugir dali naquele instante, mas outra parte — a mais forte — desejava ficar, descobrir mais, mesmo que isso significasse caminhar para o abismo. Mais tarde, quando saiu, Domenico permaneceu sozinho na igreja. O crucifixo o observava do alto, lembrando-o da vida dupla que escolhera. “Entre o pecado e a redenção”, pensou. “E eu estou preso no meio. Mas agora… não estou mais sozinho nesse labirinto. Ela entrou nele comigo.” A tensão em seu peito aumentava a cada dia. Elena era luz demais para o mundo de sombras em que ele vivia. E, ainda assim, ele não conseguia deixá-la ir.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD