O silêncio da igreja àquela hora da noite tinha um peso quase palpável. A lua atravessava os vitrais, projetando tons azulados e vermelhos sobre o chão de pedra, como se até mesmo a luz tivesse medo de atravessar por completo aquelas paredes. Elena entrou devagar, os passos leves ecoando na imensidão vazia. O coração dela batia rápido, como se tivesse consciência de que não deveria estar ali, como se aquele espaço fosse sagrado demais para o que trazia consigo: dúvidas, medos, e um sentimento que não ousava nomear.
Ela parou no meio do corredor central e respirou fundo. O cheiro de cera derretida e madeira encerada misturava-se ao de flores secas nos altares laterais. Ali, o mundo parecia suspenso. Ela não tinha planejado procurar por ele, mas o impulso foi mais forte. Depois dos últimos acontecimentos, das sombras que rondavam sua vida e da presença sufocante de seu pai em casa, Domenico era a única figura capaz de oferecer um fio de estabilidade — mesmo que essa estabilidade viesse envolta em mistérios e contradições.
— Elena? — A voz grave ecoou, e ela se virou rápido.
Domenico estava ali, parado na penumbra, ainda usando a batina. Os olhos escuros se fixaram nela com intensidade, como se cada detalhe de sua presença fosse absorvido, decifrado e guardado. Havia algo naquela expressão que oscilava entre o padre solene e o homem perigoso que ela pressentia por trás da fachada.
— Perdoe-me… — ela começou, a voz vacilante. — Eu não deveria estar aqui a esta hora.
Ele caminhou até ela, o som das botas ecoando pelo chão de pedra. Parou a poucos passos, perto o suficiente para que ela sentisse a força da presença dele. Elena abaixou o olhar, como se aquilo fosse necessário para manter o controle.
— A casa de Deus não tem hora para acolher os que buscam paz — disse ele, a voz baixa, mas carregada de algo que ia além da compaixão sacerdotal. — O que pesa sobre você, filha?
A palavra “filha” a fez estremecer. Não era a primeira vez que ele a usava, mas cada vez soava como uma barreira que a impedia de atravessar a linha que a mente dela insistia em desenhar. Ainda assim, havia uma chama em seus olhos que contradizia as palavras formais.
— É o meu pai — confessou, com um suspiro trêmulo. — Ele… ele bebeu de novo. Perdeu o pouco dinheiro que tínhamos em apostas. E… eu não sei até quando vou conseguir sustentar minha irmã. Estou… cansada.
Domenico a observava em silêncio, os olhos escuros analisando não apenas as palavras, mas os sentimentos por trás delas. Por um instante, parecia que ele também carregava o peso daquela confissão nos ombros.
— Você tem sido forte — disse enfim. — Mais forte do que muitos que já vi. Mas ninguém deveria carregar tanto sozinha.
Elena ergueu os olhos, e naquele instante os olhares se encontraram. A intensidade do dele a prendeu, e o ar pareceu rarefeito. Não havia nada de meramente paternal na forma como Domenico a encarava. Era uma mistura perigosa de compaixão, desejo e algo sombrio, como se lutasse contra si mesmo.
— Padre Domenico… — ela começou, mas a voz falhou. — Às vezes eu… sinto que não deveria procurá-lo tanto. Como se fosse errado.
Ele respirou fundo, desviando o olhar por um breve instante, como se precisasse recompor a máscara. Mas logo voltou a fixá-la com a mesma intensidade.
— Errado? — repetiu, quase em um sussurro. — Diga-me, Elena, o que exatamente lhe parece errado?
As palavras ecoaram na cabeça dela como uma tentação. Não havia como responder sem expor o que queimava em seu peito. Então, em vez disso, ela desviou os olhos para o altar, buscando refúgio.
— Eu não sei — murmurou. — Talvez seja apenas a minha mente me pregando peças.
Domenico deu mais um passo em direção a ela. Agora a distância entre os dois era mínima, e Elena sentiu o calor dele mesmo através da batina escura. O coração dela disparou, e o instinto dizia para recuar, mas os pés permaneceram imóveis.
— Elena — ele disse, e o nome soou grave, cheio de significado. — O peso que você sente não precisa ser carregado sozinha. Se precisar me procurar, não hesite. Não há pecado em buscar alguém que a escute.
Ela ergueu o olhar outra vez, e dessa vez não desviou. As pupilas dele estavam dilatadas, os músculos do maxilar contraídos, como se travasse uma batalha silenciosa dentro de si. O silêncio que se seguiu foi tão denso que parecia preencher cada canto da igreja.
Do lado de fora, o vento soprou mais forte, fazendo as portas rangerem. Elena se assustou levemente, mas Domenico não moveu um músculo. Pelo contrário, inclinou-se um pouco, como se quisesse reduzir ainda mais a distância entre eles. A respiração dele roçou de leve na dela, e o mundo pareceu se estreitar naquele instante, restando apenas os dois.
Elena fechou os olhos por um segundo, tentando controlar o turbilhão que sentia. Quando os abriu novamente, encontrou o olhar dele ainda mais próximo, intenso e inescapável. Um simples toque, um movimento em falso, e a linha entre o sagrado e o proibido seria atravessada.
Mas Domenico recuou. Não de forma abrupta, e sim controlada, como quem sabe que ultrapassar aquele limite significaria ruína. Ele endireitou os ombros e respirou fundo.
— Já é tarde — disse, retomando o tom solene. — Permita-me acompanhá-la até em casa. As ruas não são seguras à noite.
Ela assentiu em silêncio, tentando disfarçar o rubor que tomava conta do rosto. Sabia que não havia nada de normal naquele momento. Sabia que havia algo em Domenico que escapava ao papel de padre, e isso a atraía tanto quanto a assustava.
O caminho até a casa dela foi feito em passos lentos. Domenico caminhava ao lado, os olhos atentos a cada movimento das sombras ao redor. Havia uma tensão no ar, não apenas pela proximidade dos dois, mas pela sensação de que estavam sendo observados.
— Às vezes penso que não vou aguentar — Elena quebrou o silêncio, apertando os dedos nervosamente. — É como se cada dia fosse um teste. E se eu falhar, minha irmã sofre.
Domenico parou, virando-se para encará-la. A rua estava quase deserta, iluminada apenas por um poste distante.
— Você não vai falhar — disse, com firmeza. — Porque não está sozinha. Mesmo que pense o contrário.
Elena o olhou, e novamente aquela troca silenciosa os envolveu. O vento soprou, levantando alguns fios de cabelo dela, que caíram sobre o rosto. Antes que pudesse afastá-los, Domenico ergueu a mão. O gesto foi lento, quase hesitante, mas decidido. Ele afastou uma mecha loira do rosto dela com a ponta dos dedos, e o contato, por mais breve que fosse, enviou um arrepio por toda a espinha de Elena.
O tempo pareceu parar. O toque foi mínimo, mas carregado de uma intensidade que palavras não poderiam traduzir. Quando ele recuou a mão, o espaço entre eles estava carregado de algo quase palpável.
— Obrigada — ela murmurou, a voz trêmula.
Ele apenas assentiu, desviando o olhar por um instante, como se lutasse contra os próprios impulsos. Mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, um som distante os alertou: passos apressados, ecos que não pertenciam apenas a eles.
Domenico imediatamente ficou em alerta, o corpo rígido, os olhos atentos às sombras. Elena percebeu a mudança e sentiu o coração acelerar ainda mais.
— Entre em casa — ele ordenou em tom baixo, firme. — Agora.
Ela obedeceu, mas antes de fechar a porta, seus olhos se encontraram mais uma vez. Havia preocupação no olhar dele, mas também algo que Elena reconheceu: um sentimento escondido, proibido, mas real.
Quando a porta se fechou, Domenico permaneceu na rua, os olhos fixos na escuridão. Sabia que a ameaça estava cada vez mais próxima, e que Elena se tornara parte de algo que ele jamais havia planejado. O problema é que já era tarde demais para voltar atrás.