O peso da coroa de ferro

1294 Words
A madrugada ainda repousava sobre a pequena cidade quando Domenico Moretti atravessou o átrio silencioso da igreja. Os vitrais coloridos refletiam apenas a luz tênue da lua, projetando sombras fantasmagóricas pelo chão de mármore. Ele caminhava em passos firmes, a batina escondendo o corpo de aço, mas não a postura de um homem que jamais se curvava. Àquela hora, os fiéis dormiam. O templo era seu refúgio e, ao mesmo tempo, a máscara perfeita para o que aconteceria nas catacumbas abaixo. Descendo por uma escada estreita atrás do altar, encontrou o subterrâneo da igreja, um espaço amplo, sustentado por pilares antigos e iluminado por lâmpadas amarelas que lançavam um brilho quase teatral. Ali, nenhum crucifixo enfeitava as paredes. Em vez disso, mapas, armas e caixas de madeira ocupavam o lugar de símbolos sagrados. Seus homens já o esperavam. Entre eles, alguns veteranos da Cosa Nostra, outros jovens que haviam jurado lealdade. Estavam todos de pé quando ele entrou, o silêncio pesado preenchendo o espaço até Domenico erguer a mão, permitindo que se sentassem. — Senhores — começou, sua voz grave ecoando no subsolo. — Não estamos aqui para rezar, mas para decidir o rumo do que controlamos. À sua direita estava Carlo Vitale, um homem corpulento, de cabelos grisalhos e olhos sempre desconfiados. À esquerda, Matteo Ricci, mais jovem, de rosto marcado por uma cicatriz que descia da sobrancelha até a boca. Atrás, dois irmãos inseparáveis, Pietro e Angelo Romano, que se completavam como lâmina e punho. — Houve movimentação da família Greco nas últimas semanas — disse Carlo, cruzando os braços. — Alfonso não está sozinho. Há rumores de que ele anda costurando alianças com homens de fora. O nome de Alfonso Greco não era novo. O velho que se aproximara de Domenico na noite anterior havia deixado claro que o jogo estava apenas começando. Domenico, no entanto, não demonstrou surpresa. — Alfonso é esperto. Viveu mais do que muitos porque sempre soube quando recuar e quando atacar. — Domenico apoiou as mãos sobre a mesa de madeira. — Mas eu não tenho intenção de ceder terreno. Matteo inclinou-se para a frente. — Precisamos agir antes que ele consiga mais apoio. Se esperarmos, arriscamos perder homens e territórios. Domenico o encarou, os olhos tão escuros quanto a noite. — A pressa é a maior aliada dos tolos, Ricci. Alfonso pensa que pode medir forças comigo porque ainda não lhe mostrei o preço da ousadia. O silêncio caiu por alguns segundos. Pietro, o mais falante dos irmãos Romano, pigarreou. — E quanto às remessas? Há rumores de que a polícia está mais atenta, e não apenas por acaso. Talvez haja um informante. Essa palavra — informante — sempre trazia uma tensão elétrica ao ar. Domenico respirou fundo, mantendo o rosto impassível, mas dentro dele a chama da desconfiança ardeu. — Se houver um traidor entre nós — disse, pausadamente — ele será encontrado. E quando for, sua punição servirá de exemplo para todos. Os olhos de cada homem na sala brilharam com uma mistura de medo e respeito. Carlo bateu com a mão fechada na mesa. — Precisamos de mais controle no porto. As cargas que vêm da Sicília são nossa força vital. Se Alfonso ou qualquer outro colocar as mãos nisso, estaremos encurralados. Domenico ergueu o queixo, refletindo. O porto era o coração do império que ele mantinha escondido sob a batina. Mas Alfonso não teria chance de tomá-lo tão facilmente. — Dobrem a vigilância. Quero homens em cada esquina, olhos em cada embarcação. — Ele fitou Pietro e Angelo. — Os Romano cuidarão disso. Ambos assentiram, cientes de que não havia espaço para falhas. Matteo ainda parecia inquieto. — E quanto à igreja? O senhor não teme que sua posição aqui seja exposta? Alfonso poderia usar isso contra nós. Por um instante, a sombra de um sorriso cruzou os lábios de Domenico. — O altar é minha fortaleza, Ricci. Ninguém ousará atacá-lo, porque ninguém ousa tocar no sagrado. É a camuflagem perfeita. O rebanho acredita que o pastor cuida apenas de almas. As palavras carregavam ironia, mas também verdade. O que poucos entendiam era que, por trás da batina, havia um homem moldado pelo sangue e pelo silêncio. Carlo então quebrou o breve silêncio. — E a garota? Os olhos de Domenico se estreitaram. — Que garota? — Aquela jovem que sempre vem à missa. — O tom de Carlo era mais curioso do que acusatório. — Os homens comentam que o senhor a observa. Um nó de silêncio se formou entre eles. Domenico manteve a postura inabalável, mas por dentro o nome dela, Elena, incendiava cada pensamento. — Minha atenção não é da conta de ninguém — respondeu friamente. — Foquem no que importa. O clima de tensão foi suficiente para que ninguém ousasse insistir. Depois de revisar os pontos principais — rotas, pagamentos e vigilância — Domenico caminhou até uma pequena prateleira no canto da sala. Retirou uma garrafa de vinho e serviu uma taça, observando o líquido vermelho refletir a luz amarelada. — O mundo acredita que os homens de Deus não sangram — disse, girando a taça lentamente. — Mas o ferro que carrego é mais pesado que qualquer cruz. Carlo, acostumado com suas palavras enigmáticas, apenas murmurou: — É o peso da coroa. — Não. — Domenico ergueu a taça e bebeu um gole. — É o peso da coroa de ferro. A mesma que protege e destrói. Todos ficaram em silêncio, absorvendo a metáfora. Matteo foi o primeiro a levantar-se. — Então está decidido. A guerra contra Alfonso será inevitável. Domenico assentiu, sua expressão impenetrável. — Inevitável. Mas lembrem-se: eu escolho quando começa. Os homens foram se retirando aos poucos, deixando apenas o eco de passos e o cheiro de fumaça de charuto no ar. Domenico permaneceu sozinho, observando o mapa sobre a mesa. Seus dedos percorreram as linhas desenhadas, cada território marcado, cada ponto vermelho significando uma dívida de sangue. No fundo, porém, havia outro mapa, invisível, que ele não ousava traçar. O mapa que começava nos olhos de Elena e terminava em um abismo onde não poderia se permitir cair. Um ruído vindo da escada o fez erguer a cabeça. Não era um dos homens. Era leve, quase hesitante. Quando a figura surgiu na penumbra, Domenico cerrou o maxilar. Elena estava ali, pálida, surpresa por encontrá-lo naquele subterrâneo proibido. O coração dele disparou, mas a máscara permaneceu. — Senhorita Elena... — a voz saiu grave, controlada. — Não deveria estar aqui. Ela deu um passo para trás, mas seus olhos azuis não desviaram dos dele. — Eu... ouvi vozes. Pensei que a igreja estivesse vazia. Domenico caminhou lentamente até ela, cada passo ecoando nas paredes de pedra. Havia algo de perigoso na proximidade, mas também uma força que o atraía contra toda lógica. — Este lugar não é para inocentes. — Ele parou diante dela, tão perto que pôde sentir o perfume suave que vinha de seus cabelos. — Se deseja preservar sua luz, não volte aqui. Por um instante, os olhos de Elena buscaram os dele, como se quisesse decifrá-lo. O mundo parecia suspenso, e Domenico sentiu a fronteira entre o padre e o mafioso estremecer. Mas antes que pudesse ceder ao impulso de permanecer naquele olhar, ergueu a mão em sinal de despedida. — Vá, Elena. — Sua voz soou mais áspera do que pretendia. — E nunca pergunte o que acontece neste lugar. Ela hesitou, depois se virou e desapareceu pela escada, deixando apenas o eco de seus passos e a certeza de que, cedo ou tarde, o sagrado e o profano colidiriam. Domenico voltou-se para o mapa. A guerra contra Alfonso estava prestes a começar, mas no fundo ele sabia: a batalha mais perigosa já havia se iniciado dentro dele.
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