A noite caía sobre a pequena cidade como um manto pesado, abafando os sons do cotidiano. As ruas, antes agitadas com crianças correndo e vizinhos conversando nas portas, agora estavam silenciosas, iluminadas apenas por lâmpadas amareladas que lançavam sombras alongadas contra os muros antigos. Era nesse cenário que Domenico Moretti caminhava, o passo firme de um homem que carregava mais do que a batina permitia revelar.
Dentro da sacristia, o ar ainda estava impregnado pelo cheiro de incenso da missa da tarde. O padre guardava cuidadosamente alguns documentos, mas sua mente não estava ali. Alfonso Greco, o velho aliado que surgira como um presságio, havia deixado mais perguntas do que respostas. Havia inimigos se movendo, sombras prontas para desabar sobre ele. E, no meio de tudo isso, Elena — a jovem de olhos azuis que começava a ser o elo mais frágil e, ao mesmo tempo, mais perigoso de sua vida.
Ele respirou fundo, apoiando-se no altar. O dilema era evidente: proteger Elena significava expô-la ainda mais ao mundo obscuro que ele escondia. Mas afastá-la… era uma ideia que o corroía por dentro.
Enquanto se perdia nesses pensamentos, o som leve de passos ecoou pela nave da igreja. Domenico ergueu o olhar. Elena estava ali. Vestia um casaco simples, os cabelos parcialmente soltos, e parecia hesitar a cada passo. A presença dela em um horário tão tardio era, no mínimo, incomum.
— Elena? — sua voz soou baixa, mas carregada de surpresa. — O que faz aqui tão tarde?
Ela parou diante do altar, os dedos entrelaçados, tentando disfarçar o nervosismo.
— Eu… precisava de paz. — sua voz saiu quase em sussurro. — Em casa… tudo se tornou insuportável. Sofia chorou a noite inteira, padre. Eu não podia ficar lá.
O coração de Domenico apertou. Ele a observou em silêncio por um instante, lutando contra o impulso de se aproximar demais.
— O Senhor sempre abre as portas de Sua casa para os que sofrem — respondeu, mantendo o tom clerical, ainda que por dentro estivesse em guerra. — Sente-se, descanse um pouco.
Elena obedeceu, sentando-se no primeiro banco. A penumbra das velas refletia em seus olhos marejados, e Domenico se viu cativo naquele olhar, incapaz de desviar.
O silêncio que se instalou entre eles foi interrompido por um estalo distante. Domenico, instintivamente, ficou em alerta. Não era um som comum. Ele conhecia bem os sinais de perigo. O velho Greco havia avisado: homens estavam rondando, e não demoraria para que tentassem algo ousado.
Ele caminhou até a porta lateral e observou pelas frestas. Dois vultos se movimentavam próximo ao muro da igreja. Movimentos calculados demais para serem casuais. Domenico sentiu o corpo inteiro se enrijecer.
Voltou rapidamente até Elena.
— Precisa me ouvir com atenção — disse em voz firme, porém baixa. — Fique aqui. Não saia por nada.
Ela arregalou os olhos. — Padre? O que está acontecendo?
Domenico segurou o crucifixo que carregava no pescoço, mas, por baixo da batina, sua mão já buscava a arma que mantinha escondida.
— Apenas faça o que digo — respondeu, e seus olhos encontraram os dela com intensidade. — Confie em mim.
Elena engoliu em seco, o coração acelerado, mas assentiu.
Domenico saiu pela lateral, os passos silenciosos de quem já conhecia o jogo da caça e do caçador. Os vultos estavam mais próximos agora. Ele distinguiu vozes abafadas em italiano carregado, certamente de homens que não pertenciam à cidade.
— O padre deve estar aqui — um deles murmurou. — Alfonso não mentiria.
Domenico cerrou os punhos. Greco havia falado demais, ou talvez alguém tivesse ouvido.
Em poucos segundos, ele se lançou contra o primeiro homem, prendendo-o contra a parede com a força de quem carregava não apenas músculos, mas a fúria contida. A arma deslizou da mão do inimigo, e Domenico a chutou para longe. O segundo avançou rapidamente, mas Domenico sacou sua pistola de dentro da batina e apontou sem hesitar.
— Dei un passo e muori — (dê um passo e morre) — rosnou em italiano, a voz grave e ameaçadora.
O homem congelou, os olhos arregalados.
Domenico sabia que não podia m***r ali, não em frente à igreja. Mas também não podia mostrar fraqueza. Com um movimento ágil, desarmou o segundo, empurrando-o contra o portão.
— Voltem para onde vieram e digam a quem os enviou que Domenico Moretti não se curva. — A frieza em sua voz era gélida, cortante.
Os homens recuaram, a ameaça clara no ar. Um deles ainda tentou falar algo, mas o olhar sombrio de Domenico os fez desistir. Em poucos segundos, desapareceram nas sombras.
Ele respirou fundo, guardando a arma de volta sob a batina. Mas ao voltar para dentro da igreja, encontrou Elena de pé, os olhos arregalados, fixos nele.
— Padre… — sua voz era apenas um sopro. — O que foi isso?
Ele parou diante dela, o olhar intenso, a respiração pesada. Por um momento, o silêncio pareceu gritar entre eles.
— Às vezes, a escuridão não respeita nem mesmo as portas da casa de Deus — respondeu, escolhendo as palavras com cuidado. — Mas você está segura agora.
Elena deu um passo à frente, como se algo a puxasse irresistivelmente para mais perto dele.
— Não é a primeira vez que sinto… que o senhor não é apenas um padre.
A frase caiu como uma confissão proibida. Domenico a encarou, os olhos penetrando os dela. Não havia como negar.
— Elena… — sua voz saiu baixa, carregada de um peso que ele não podia mais esconder. — Há coisas que não posso explicar. Coisas que não cabem dentro desta batina. Mas se algum dia duvidar de mim, lembre-se disso: eu nunca permitirei que lhe façam m*l.
Os olhos dela marejaram novamente, mas não era apenas dor — havia algo mais, algo que os unia em silêncio. Um vínculo invisível, feito de perigo e de uma atração que ambos tentavam negar.
— Obrigada, padre. — A formalidade em sua voz contrastava com a emoção que transbordava.
Domenico ergueu a mão, quase tocando o rosto dela, mas recuou no último instante. Ainda assim, Elena percebeu o gesto, e o ar entre eles se tornou denso, carregado.
Um trovão distante rompeu o silêncio da noite, como um aviso. Domenico sabia que aquela não seria a última vez que homens viriam atrás dele. E, pior, sabia que agora Elena estava mais exposta do que nunca.
— Volte para casa, Elena — pediu, a voz grave, mas suave. — Sua irmã precisa de você. Eu… cuidarei para que estejam seguras.
Ela assentiu lentamente, ainda sem desviar os olhos dos dele. Um olhar que dizia mais do que palavras, que selava um segredo entre os dois.
Quando Elena finalmente saiu, Domenico permaneceu diante do altar, o coração dividido. A batina pesava sobre os ombros, mas não tanto quanto o olhar daquela jovem. Ele sabia: a partir dali, cada escolha seria uma queda mais profunda entre o pecado e a redenção.
E o tempo para decidir estava se esgotando.