ANALISEI A FOLHA DE IVI ENQUANTO TROPEÇAVA PELO CAMINHO
até o ponto de ônibus, com apenas Itham ao meu lado. Eu odiava quando Ivi tinha faltar a escola por estar com a garganta trancada, e também odiava quando ela passava para
mim o dever de cobrir o treino dos Tigres da GL. Quero dizer, eu não era nenhuma repórter nem nada, e com certeza não tinha muito talento para escrever matérias, mas o que a gente não faz por uma melhor amiga?
Ela havia citado em tópicos todas as partes importantes que eu deveria considerar antes de escrever, como se isso fosse realmente ajudar. Eu chacoalhava a cabeça enquanto terminava de ler.
Grande d***a.
— Isso não é justo — reclamei enquanto Itham caminhava paciente ao meu
lado — quero dizer, ela n******e me pedir para cobrir o treino dos Tigres. Eu não sei escrever matérias! O que, afinal de contas, sua irmã tem na cabeça?
A
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Itham deu de ombros, enrugando a testa para o papel em minhas mãos.
— Não é tão r**m, Eve. Você é uma garota inteligente, tenho certeza que vai
escrever uma matéria brilhante.
Eu suspirei, enfiando o papel de qualquer jeito dentro da mochila. — Eu odeio a garganta de Ivi.
Itham riu, enfiando as mãos nos bolsos enquanto caminhávamos pela calçada coberta de folhas secas e longas, que caiam constantemente dos salgueiros a cima de nossas cabeças. Havia apenas um vento frio hoje. Nada de água caindo do
céu ou de qualquer outro lugar.
— Você vai ver, não vai ser difícil. Considerando que você já escreve na sua agenda todos os dias, vai ser fácil desenvolver uma matéria. Você vai ver.
Itham era uma das únicas pessoas que sabiam sobre minha agenda. Na verdade, Itham e Ivi eram as únicas pessoas que sabiam tudo a meu respeito, tirando as coisas esquisitas que vinham acontecendo ultimamente, claro. E ele não se importava em saber, até por que hoje seu moletom dizia ABSURDOS DA EXISTÊNCIA. Puxa, eu tinha que presentear a pessoa que havia pensado naquela frase, por que não havia como ser mais verdadeira.
Por que minha existência estava cheia de absurdos.
— Obrigada. De qualquer forma, eu sei que Ivi faria o mesmo por mim. Não
posso deixar que ela decepcione a Redação do jornal por causa da sua garganta i****a.
— Se você quiser, podemos ir beber um refrigerante no Café Lunna depois
do treino. — ele se referia ao único Café em especial que eu, ele e Ivi sempre visitávamos quando ficávamos de saco cheio dos sorvetes sem gosto da cantina da academia. Itham estava apenas tentando me animar, mas não deixava de ser uma boa ideia.
Assenti enquanto sentia meus pensamentos perdidos dentro de minha própria cabeça, indo e vindo sem nenhuma direção específica, atropelando uns aos outros enquanto tentavam se achar.
— Claro. Estou precisando mesmo dar um tempo. Sinto que estou ficando maluca. — eu disse massageando a fonte, sobrecarregada.
Itham sorriu satisfeito. O sorriso mais famoso da ASAGL. E eu podia entender bem por que. Seus dentes eram brancos, alinhados, perfeitos. Itham tinha
o mesmo porte que os surfistas mais bombados da região costumavam ter, com
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toda a sua pele dourada e todo seu porte havaiano, e talvez, fosse isso que deixasse as meninas malucas por ele. E eu não podia condená-las por isso.
Eu ainda pensava no sorriso de Itham enquanto remoia vários outros pensamentos sentada no banco do ônibus. Eu e Ivi costumávamos sempre nos sentar nos bancos da frente, onde geralmente ficavam os nerds e os alunos sem status da escola, por o meio era sempre utilizado pelas patricinhas e pelas animadoras de torcida de algum comitê legal, e os fundos do ônibus, estava sempre lotado com os caras mais descolados da escola, que viviam fazendo brincadeiras inadequadas com objetos proibidos, jogando cartas, falando palavrões ou
simplesmente tratando de assuntos que nos enojavam. E todas as formas, se sentar
na frente ainda era a melhor opção.
E eu ia repassando mentalmente todas as coisas que tornavam minha vida esquisita enquanto acariciava meu pulso com a ponta dos dedos.
Discretamente, eu obervei a cicatriz, lembrando-me de quantas vezes eu passara noites em claro a observando e tentando entender o quê significava. Não que alguma vez tivesse me passado pela cabeça que corria o risco de ser alguma marca. Quero dizer... eu sempre preferia pensar que talvez, eu tivesse raspado o pulso brutalmente em alguma superfície áspera o suficiente para causar um estrago
tão permanente. Talvez eu visse algo de diferente agora que mais o menos sabia que não era apenas uma cicatriz, mas ela ainda me parecia a mesma, mesmo que agora
a pele do local já não estivesse arroxeada como um hematoma f**o.
Haviam pontos, separados por espirais. E era tudo.
Girei o pulso enquanto examinava melhor. Pensando bem... meio que
parecia... um rabisco traçado em meio a constelações. Como aqueles que formam os desenhos no céu, visando mostrar de maneira clara os astros formando os desenhos do zodíaco.
Claro! — minha mente de acendeu de repente. Era isso! Agora eu percebia que os rabiscos espiralados formavam a balança, o símbolo do meu signo, o símbolo de Libra. Como eu não havia reparado antes? Céus... como eu era burra!
Mas mesmo que agora pudesse definir claramente a marca, ainda não fazia ideia do que isso podia significar, mas eu ia descobrir bem rápido.
Tanto é, que assim que o ônibus nos despachou no estacionamento da academia, caminhei direto para as escadarias frontais da academia, de maneira determinada, me prostrando ali, e esperando por ele.
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Eron deveria saber que eu não desistiria tão facilmente. Talvez ontem ele tivesse conseguido me convencer a ficar de boca fechada, considerando a maneira extremamente quente com a qual ele me tratou. Mas fazer o quê se o cara era um
mal ambulante? Provavelmente ele nem se dava conta de que era sexy demais para
o seu próprio bem.
Mas hoje seria diferente.
Ou ele me dizia tudo que eu queria saber em detalhes sórdidos, ou... bem, eu
ainda não havia planejado bem essa parte, mas esperava pensar em alguma coisa inteligente na hora.
Não que eu fosse uma excpert em termos de lidar com garotos como ele, mas ele havia me deixado razoavelmente cheia de perguntas, e a única pessoa que poderia responde-las no momento era ele próprio. E não importava o medo que eu tinha de ficar muito próxima a ele, ou o fato de meu cérebro virar gelatina em sua presença, eu simplesmente teria que abordá-lo antes que mais alguma coisa desconcertante acontecesse.
Era nisso tudo que eu pensava enquanto o esperava com os braços cruzados e um olhar apreensivo no rosto.
Mas é claro que ele não apareceu.
De certa forma, talvez eu já devesse ter esperado por isso.
Se Eron realmente não queria que eu descobrisse o que ele era, obviamente ele não facilitaria as coisas para o meu lado. Ainda mais agora que tudo parecia estar por apenas um fio. Eu sentia como se minha vida estivesse meio que como um elástico esticado demais. A tensão estava aumentando, as coisas estavam suspensas e vulneráveis... e a qualquer hora ele romperia.
Particularmente, eu tinha medo do que aconteceria quando isso acontecesse. Andar sem Ivi pelos corredores da ASAGL não me parecia ser a mesma coisa.
Talvez eu já tivesse me adaptado a sua tagarelice. Tudo bem. Não era apenas isso.
Era como se Ivi fizesse parte de minhas substâncias. Tudo parecia estranho e diferente sem ela. Como hoje, quando tudo parecia vazio enquanto eu me dirigia a sala, e percebia que Sr. Encharpe já esperava em sua mesa, ao lado do quadro n***o, algo que nunca havia acontecido na história antes.
Mas que ótimo. Talvez ele estivesse pronto para aplicar outra prova surpresa. E eu não estava com humor para responder as suas perguntas hoje. Havia muitas
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outras coisas nas quais eu tinha que pensar agora. Coisas que tinham muito mais importância que apenas minhas notas no fim do trimestre. Coisas que provavelmente complicariam minha vida ainda mais.
Mas eu era muito teimosa para desistir agora.
Me deixei cair pesadamente na carteira número doze, enquanto a carteira
número treze e a vinte permaneciam vazias até o início da aula.
Eu estava debruçada sobre meu caderno de anotações, fingindo rabiscar algo
enquanto esperava o sinal soar, quando um bilhete caiu a frente de meus olhos, sendo lançado em cima de meu caderno por alguém que passara no meio de um bolinho de pessoas em minha fileira. O pedaço de papel estava amassado, e a caligrafia era horrivelmente deplorável.
Ele é “meu”!
Virei a cabeça por cima do ombro, me deparando com o olhar inquisitivo de Hanna e sua sobrancelha loira levantada, enrugando a testa e percebendo que aquela letra h******l só podia mesmo pertencer a Srta. Cabeça de Fuinha.
Voltei para o pedaço de papel novamente, escrevendo furiosamente uma resposta rápida. Depois, com toda a classe possível, levantei-me de minha carteira, me dirigi até a sua e lhe ofereci o bilhete com um enorme sorriso gentil, voltando ao meu lugar logo depois disso.
Faça um bom proveito!
Hanna só devia ser mesmo muito perturbada se achava que eu realmente ia tentar arruinar sua vez com Eron. Se ela queria tanto enfiar a língua na boca dele,
com certeza não seria eu a pessoa que iria impedi-la. A única coisa em Eron que me interessava, era a verdade. E isso era algo que ele iria me dar, custasse o que custasse. Talvez eu realmente não devesse saber, considerando que minha vida já
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estava suficientemente complicada, mas eu me sentia como se já estivesse nisso, e não dava simplesmente pra pular fora.