--- Vicent?
--- Ah, oi...
Audrey e Freya encararam o pai como se fosse de outro mundo desconhecido.
Vicent simplesmente nunca foi naquela casa que não foi pela madrugada, ou às escondidas.
Porém ele estava ali, plena luz do dia, chegou como um furacão, e desesperado.
Como notou que ele queria falar algo com Maya, Audrey levou sua irmã para o sofá.
Ainda sem entender, Maya continuou encarando ele, estava extremamente curiosa.
Aquela visita repentina estava deixando seus pensamentos ainda mais bagunçados.
--- Deseja falar algo Vicent?
--- Sim.
--- Não quer respirar primeiro?
--- Seria uma boa ideia.
--- Precisa de água, vamos para a cozinha.
Vicent a seguiu até a cozinha, Maya ofereceu um copo com água, tomou em um só gole.
Mesmo que não tivesse chegado até ali correndo, estava cansado, ou talvez fosse só o nervosismo.
Pacientemente Maya esperou, não tinha pressa, e não era como se ele fosse conseguir falar algo com pressa.
--- Melhor?
--- Sim.
--- Sobre o que queria falar?
--- Eu vou tentar com você.
--- Tentar o que?
--- Tentar fazer esse casamento dar certo Maya, e serei um pai melhor para as minhas filhas.
--- Isso é tão repentino, não esperava por isso.
--- Não é repentino Maya, a anos não sou um bom pai Maya, e está quase fazendo três meses que estamos casados.
--- O que te fez mudar de ideia?
--- Tudo.
--- Não dá pra acreditar, como posso saber se é verdade? Já me disse tantas coisas horríveis.
--- Eu sei que sim, mas eu quero mudar essa situação, toda essa situação.
--- Por que não tenta começar ficando sempre em casa e acompanhando a rotina das suas filhas?
--- Mas e o nosso casamento?
--- Podemos pensar nisso quando eu tiver plena certeza de que não está sendo bipolar.
--- Bipolar?
--- Você é bipolar Vicent, todas as vezes que me disse algo r**m, tentou me deixar melhor, o que só piorou.
--- Eu fiz isso.
Vicente respirou fundo, sua situação estava bem pior do que havia imaginado.
Pensou, pensou muito, mas não havia uma solução imediata e grandiosa de imediato que pudesse mudar a situação em que se encontrava.
Como sempre ouviu muitas pessoas falarem a seu respeito, precisava de um recomeço.
Não seria somente algumas mudanças simples que poderiam alterar toda a sua vida.
Deveria recomeçar totalmente, e era exatamente isso que iria fazer, estava precisando disso a muito tempo.
--- Não posso mudar, esse não seria o termo certo para algo que seria um recomeço Maya.
--- Recomeçar?
--- Sim, um recomeço, minha vida precisa ser recomeçada do zero, mas reconheço que para isso eu preciso da sua ajuda.
--- Por que precisa da minha ajuda para recomeçar?
--- Quer ouvir os meu motivos?
--- Sim Vicent, o primeiro passo para recomeçar é dizendo a verdade a mim e a si mesmo.
Pensar em um motivo não era difícil, poderia pensar em milhões de motivos para receber a ajuda dela.
Mas se sua primeira tarefa seria ser sincero com alguém e consigo mesmo, faria de bom grado.
Já deixou de ser sincero com seu próprio eu por muito tempo, era hora de mudar aquele cenário.
--- Porque você, é uma parte das pessoas que estão me levando a recomeçar a minha vida Maya, não sei o que há em você, mas de alguma forma sinto como se fosse atraído para você, como um ímã.
Palavras tão belas não era o forte de Vicent, por isso o coração de Maya deu uma bela parada, colocou a mão sobre seu coração.
Simplesmente eram as palavras mais lindas que já ouviu alguém falar, que fosse direcionadas a ela.
Virou de costa para Vicent, abanou o seu rosto com as mãos, e respirou bem fundo.
Estava feliz, mas também envergonhada, parecia ironia para alguém que esperou tanto ouvir aquilo.
Deu um tempo para que seu coração ficasse um pouco mais calmo, não iria enlouquecer de amor ainda.
Vicent sorriu baixinho, era fofo ver Maya envergonhada, se deu conta que aquela seria uma das coisas que mais adoraria daquele dia em diante.
Quando se virou novamente olhou para ele com os olhos estreitos, Vicent estava rindo dela.
--- Está rindo de mim Vicent?
--- Não, estou rindo de como fica tão fofa quando esta envergonhada.
--- Eu sou fofa?
--- Muito.
Isso so deixou Maya ainda mais envergonhada, suas bochechas ficaram vermelhas no mesmo instante.
Mais uma vez sorriu, e ela ficou indignada com a facilidade de se envergonhar quando Vicent falava algo.
Audrey e Freya apareceram na cozinha, pisando em ovos, como se estivessem com medo de serem repreendidas.
--- Mãe?
--- Sim Audrey?
--- Freya esta com fome, eu tentei faze-la esperar mais um pouco, mas não consegui.
--- Tudo bem querida, sentem-se.
Cada uma sentou em uma cadeira do balcão, Vicent ficou no meio das duas, perdido.
Estava apreensivo, não tinha ideia do que poderia fazer ao lado delas, tinha medo do que falar.
Maya olhou para ele, tentando dizer pelo olhar que ele precisava falar algo com as duas.
Pediu socorro pelo olhar, precisava da ajuda dela, a única coisa que ela fez foi voltar sua atenção para o que fazia.
Era a primeira vez em tanto tempo que diria algo a suas filhas, precisava pensar muito bem.
--- Como esta sendo a experiência na escola?
--- Não é r**m, a mãe me mostrou que estudar em uma escola não é o fim do mundo.
--- E você Freya?
--- Eu tenho muitos amiguinhos papai.
--- Que legal, pode me apresentar a eles quando eu for levar vocês na escola amanhã?
--- Vai levar a gente na escola? Ou melhor, vai ficar em casa?
--- Sim Audrey, será incomodo?
--- Não, só é novo, faz anos que não fica em casa.
--- Eu ainda tenho a chance de mudar isso?
--- Claro que sim, não esta vivo? Isso já é uma grande oportunidade de mudar algo.
Ouvir aquilo de Audrey deixou Vicent orgulhoso, sua filha tinha uma mente mais madura que a sua própria.
No fim não precisou pensar muito no que poderia falar, não era tão difícil quanto julgava.
Tudo que precisou foi apenas de uma atitude corajosa, e isso fez uma diferença tremenda em sua vida.
A atitude de recomeçar do zero, foi a melhor atitude que já havia tomado em toda a sua vida.