Na casa de Felicia as duas se divertiam como nunca, resolveram tirar a tarde para se cuidarem.
Felicia achava que Maya se deixava muito em segundo plano, o que não era certo.
Claro, ela tinha outras prioridades, mas também precisava se cuidar, e assim aumentar o amor próprio.
Sabia que às vezes ela tinha problemas com a alta estima, e para Felicia, Maya era incrivelmente maravilhosa.
Sempre achou que sua amiga era a mulher mais linda que já havia conhecido na vida.
--- Maya, já contei pra você que antes de começar nossa amizade eu tinha medo de me aproximar de você porque parecia muito chata?
--- Felicia, me achava chata?
--- Calma, não era chata, era por que você é tão linda desde sempre que eu julgava você muito patricinha entende?
--- Nossa amiga, nunca imaginei que um dia havia pensado nisso, obrigada por ter tirado a prova.
--- Imagina, hoje eu posso ver que você é linda e chata, mas não uma patricinha.
--- As vezes eu ainda tenho dúvidas do motivo que me fez ser sua amiga.
--- Com certeza é por que eu sou incrível demais.
Felicia jogou seu cabelo para o lado dando ênfase na sua fala, Maya sorriu, sua amiga era convencida.
Adorava o espírito livre que sua amiga tinha, ela fazia a vida parecer mais leve e tranquila, com toda aquela alegria dela.
--- Está mais tranquila depois de desabafar com Vicent?
--- Sim Felicia, conversar sobre isso aliviou, apesar de não ter feito a minha dor sumir ou o meu medo desaparecer.
--- Não vai ser fácil assim amiga, só perderá o medo quando ele não estiver mais a solta e nisso eu não julgo você, eu também temeria se tivesse vivido tudo o que você viveu.
--- Sinto como se ele fosse aparecer a qualquer momento e isso me assusta Felicia, o medo constante me deixa frágil e com o coração pequenino.
Ouvir Maya dizer aquilo foi como se a ouvisse chorar, Felicia a abraçou fortemente e Maya realmente chorou.
Fazia um bom tempo que não chorava como estava chorando naquele momento.
Ou melhor, havia chorado na mesma intensidade quando compartilhou o seu passado com Vicent.
Mas naquele momento seu coração parecia estar doendo muito mais.
Confessar que estava com medo e temerosa pelo futuro deixou seu coração inundado por aquele pensamento.
Seus olhos queriam transbordar de tanta tristeza.
Sua amiga não gostou nem um pouco de ver Maya chorando como um bebê que havia acabado de ser abandonado.
Alisou os cabelos da amiga, naquele momento ela estava precisando de um colo para chorar, e Felicia não se importava de ser a pessoa a oferecer isso.
Ter um colo para chorar era difícil e raro, mas Maya tinha isso e muito mais na amizade de Felicia.
Quando Maya já estava mais calma, Felicia foi até a cozinha e pegou um copo com água para ela.
Entregou na mão dela, aos poucos ela foi retomando o ar e respirando com mais calma.
--- Melhor?
--- Sim, muito melhor.
--- Por que chorou tanto?
--- Meu coração ficou pesado, pensar no medo que sinto me deixa sufocada com toda essa situação.
--- Sabe que não vai conseguir passar por isso sozinha né?
--- Qual a sua sugestão?
--- Um profissional Maya, alguém que possa cuidar da sua saúde mental, você sabe que isso já está se tornando um grande problema, certo?
--- Problema? Como assim amiga?
--- Isso está atrapalhando sua vida Maya, e poderá afetar ainda mais se não cuidar disso o mais rápido possível.
Aceitar que estava com um problema mental nunca passou pela cabeça de Maya.
Sequer imaginou que algum dia o seu passado traria problemas ainda maiores para sua vida.
Sentir tristeza e dor pelo passado era normal, mas o que Maya sentia ia muito além disso.
Felicia estava sendo a primeira pessoa a perceber, isso porque conhecia sua amiga muito bem a ponto de saber distinguir quando algo era grave ou não.
Após tantos anos ao lado de Maya, sabia muito bem de cada pensamento que passava pela mente dela.
Ao que parecia, Felicia conhecia Maya bem melhor que ela mesma, isso era um fato.
Maya se achava sortuda, agraciada por ter uma amizade como a de Felicia.
Duvidava do que a amiga disse, ainda não queria admitir que toda aquela dor e sofrimento estava se tornando um problema maior.
Não demorou para que Felicia percebesse isso, conseguiu sentir isso só pelo olhar dela.
Sua intenção ali não era discutir com sua amiga, mas conversar com ela, só estava tentando deixá-la bem.
E se a própria Maya não queria se ajudar, seria difícil oferecer ajuda.
Estava tentando ajudar a amiga, mas a atitude de aceitar a ajuda viria dela.
--- Não vou pressionar você amiga, sei que não quer aceitar o que disse, e que está achando isso uma loucura, mas preciso dizer que você tem que aceitar o que está acontecendo para ficar bem, então, a decisão de se curar desse passado é apenas sua.
Mais uma vez Maya estava com uma decisão importante em suas mãos.
Respirou fundo porque não tinha muito o que fazer, decidiria sobre aquela questão depois.
--- Pela sua cara tenho certeza que nem quer nada com isso.
--- Felicia, não haja como se estivesse na minha mente.
--- Diga a si mesmo para não ser tão previsível, é tão fácil saber o que você está sentindo.
--- Nossa, como tem espírito de vidente.
--- Nem preciso disso, querida.
--- É bom usar esses dons para enxergar o sentimento que há entre você e Maverick.
--- Bem aleatório a sua mudança de assunto, mas só para deixar bem claro, não há nenhum sentimento entre mim e Maverick que não seja de puro prazer.
--- Eu não acredito em você, não sei ler mentes como você sabe, mas sei que você está mentindo.
--- Agora sim posso dizer que você está se fazendo de vidente, não toque mais nesse assunto, é super chato
--- Ok amiga, ok.
Maya sorriu, nem a própria Felicia sabia o que sentia mesmo sendo muito boa em distinguir os sentimentos da amiga.
Para ela, Felicia era hipócrita, sem nenhuma dúvida, e nem precisava ler mentes para saber disso.