Ponto de Vista: Greco
O cheiro de diesel e pólvora impregnava o ar da varanda principal. A revelação sobre a traição de Vanessa deixou um rastro de tensão que podia ser cortado com uma faca no meio da sala de reuniões. Breno continuava de pé ao lado da porta, segurando o rádio comunicador com a mão firme, enquanto o som dos motores das motos na rua de baixo indicava que a comunidade estava em alerta máximo.
Pietra estava parada a poucos passos de mim. Ela não recuou, não chorou e nem demonstrou o pavor que a maioria das pessoas do asfalto demonstraria ao saber que um cerco armado se aproximava. O olhar dela queimava com uma mistura de indignação e uma coragem silenciosa que me pegava pelo pescoço todas as vezes.
— Se a Vanessa passou a rota da zona leste, ela não agiu sozinha — declarei, a voz grave cortando o silêncio pesado da sala. — Vanessa é gananciosa, mas é fútil demais para montar uma logística de interceptação com a facção do morro vizinho. Alguém grande financiou essa informação.
— O que você quer dizer com isso? — Pietra deu um passo à frente, cruzando os braços sobre o peito. A postura ereta e a expressão analítica mostravam que a mente dela já estava trabalhando na mesma velocidade que a minha. — Você acha que tem alguém mais alto na hierarquia vendendo o seu morro?
— No nosso mundo, Pietra, a lealdade dura até o momento em que a oferta da concorrência aumenta — respondi, caminhando até a mesa de madeira e abrindo a gaveta blindada para retirar um segundo pente de munição. — Breno, onde está a Vanessa agora?
— Os moleques do portão três seguraram o táxi em que ela tentava descer — disse Breno, o rosto rígido. — Ela está trancada no depósito do galpão velho, sob a guarda do Dentinho. Mas o rádio da contenção acabou de avisar: dois carros pretos sem placa acabaram de estacionar na subida do acesso oeste. Estão esperando sinal.
Olhei para Pietra. A presença dela ali, no centro do meu quartel-general, era o meu maior trunfo e, ao mesmo tempo, a minha maior vulnerabilidade. Se os meus inimigos descobrissem o peso que ela passou a ter na minha rotina em poucas semanas, usariam isso para tentar me desestabilizar.
— Breno, leve a Pietra para o andar superior da casa principal — ordenei, mantendo o tom frio e definitivo. — Tranque as portas de acesso e coloque dois homens na subida das escadas. Ninguém entra e ninguém sai até eu dar a ordem.
— Espera aí! — Pietra interveio imediatamente, a voz subindo de tom enquanto ela caminhava na minha direção, parando bem à minha frente. — Você acabou de admitir que me acusou injustamente! E agora quer me trancar em um quarto de novo enquanto o morro pega fogo lá fora?
— Não é uma punição, Pietra, é segurança — respondi, segurando seu braço com firmeza, mas sem machucar. — Você é a pessoa que reorganizou as contas deste morro na última semana. Você sabe onde estão as brechas financeiras da nossa operação. Se alguém lá fora descobre o quanto você sabe, você vira um alvo primário.
— Eu posso ajudar aqui! — ela peitou, sustentando o meu olhar a poucos centímetros do meu rosto. — Eu vi os relatórios de entrada do portão oeste, Greco. As assinaturas de liberação de carga da semana passada não eram da Vanessa. Tinham o carimbo da associação de moradores e o visto do setor de suprimentos. Tem gente da sua confiança assinando nota fria!
Fiquei em silêncio por um segundo, processando a informação. A garota não era apenas rápida com os números; ela tinha uma capacidade de observação que até mesmo os meus homens mais velhos de casa deixaram passar.
— Você tem certeza do que está dizendo? — perguntei, a voz descendo para um tom perigosamente baixo.
— Tenho — afirmou ela, sem piscar. — Se você me trancar em um quarto agora, vai ficar cego para o que está acontecendo debaixo do seu próprio nariz.
Ponto de Vista: Pietra
Senti o peito de Greco subir e descer rapidamente enquanto ele me encarava. Eu podia ver as engrenagens da mente dele trabalhando. Aquele homem vivia em uma paranoia constante, sustentando o peso de uma comunidade inteira nas costas, onde qualquer passo em falso poderia significar a perda da sua supremacia.
Por um segundo, quando ele olhou nos meus olhos, a barreira de liderança implacável pareceu ceder ligeiramente, dando lugar a uma consideração genuína pelo que eu acabara de dizer.
— Breno — chamou Greco, sem desviar os olhos dos meus.
— Fala, chefe.
— Mudança de planos. Leve a Pietra para a sala de monitoramento interno. Deixe ela com o terminal das planilhas aberto. Se tem fraude na documentação do portão oeste, eu quero os nomes de todo mundo que assinou aquelas notas nos últimos dois meses.
— Greco, com todo o respeito, colocar uma civil dentro da sala de monitoramento no meio de um alerta de invasão... — Breno tentou argumentar, o rosto franzido em choque.
— A Pietra não é mais uma civil qualquer nesta casa, Breno — cortou Greco, a voz ressoando com uma autoridade que não admitia réplica. — Faça o que eu mandei. Agora.
Breno engoliu em seco, assentiu com a cabeça e fez um sinal para que eu o acompanhasse. Antes de me virar, olhei para Greco uma última vez. Ele ajustou a jaqueta e checou a trava da pistola na sua cintura.
— Não saia daquela sala por nada — ele disse, com a voz baixinha, num tom que só eu pude ouvir. — Eu vou resolver o problema da entrada. Quando eu voltar, quero esse morro limpo.
— Tome cuidado — as palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse contê-las.
Um leve esboço de sorriso surgiu no canto dos lábios dele — um gesto rápido, quase imperceptível, mas carregado de uma cumplicidade que fez meu coração acelerar.
— Cuidado é para quem tem medo de perder a cabeça, garota. No meu morro, eu sou o perigo.
Ele se virou e caminhou em direção à saída principal a passos largos, seguido por dois homens armados. Respirei fundo, tentando afastar a sensação sufocante de aperto no peito, e segui Breno pelo corredor lateral em direção ao miolo do quartel-general.
Ponto de Vista: Greco
A brisa fria da noite atingiu meu rosto assim que pisei no pátio externo. O som distante dos graves do baile funk da noite anterior já tinha sido completamente substituído pelo silêncio tenso das ruas vazias. As luzes dos postes do acesso principal piscavam, e a molecada da contenção estava posicionada atrás dos muros de concreto, com os fuzis apontados para a curva da pista.
Desci as escadarias de pedra a passos rápidos, sentindo a adrenalina pura correr pelas minhas veias. A ideia de que havia uma traição enraizada na minha própria administração financeira queimava mais do que a ameaça dos rivais na pista lá embaixo. Pietra tinha razão: Vanessa era apenas a ponta do iceberg.
Quando cheguei ao portão do galpão velho, Dentinho estava de pé na entrada, segurando um rádio e parecendo visivelmente nervoso.
— Chefe — disse ele, dando um passo para trás e abrindo a porta de ferro rangente. — Ela tá lá dentro. Não falou nada dqesde que os moleques trouxeram ela.
Entrei no galpão escuro. O cheiro de mofo e óleo de motor impregnava o ambiente. Vanessa estava sentada em uma cadeira de madeira no centro da sala, com os pulsos amarrados e o vestido vermelho manchado de poeira. Quando ela me viu se aproximar, o pânico tomou conta do seu rosto.
— Greco... por favor! — implorou ela, a voz chorosa e descontrolada. — Eles me obrigaram! Eles disseram que iam matar a minha família se eu não passasse a rota!
Caminhei devagar até parar a poucos passos dela, encarando-a com o olhar mais frio que consegui reunir.
— Não minta para mim, Vanessa — disse, a voz baixa, cortejando o perigo. — Você recebeu vinte mil reais em uma conta bancária do asfalto ontem à tarde. Eu já mandei checar os extratos. Você vendeu a minha rota por ganância. E o pior: tentou colocar a culpa na Pietra.
A cor escorreu completamente do rosto de Vanessa. Ela percebeu, naquele segundo, que não havia desculpas ou sedução que pudessem salvá-la da minha sentença.
— Quem te deu os formulários de liberação do portão oeste? — perguntei, dando um passo à frente e me inclinando sobre ela. — Quem de dentro da administração assinou as notas frias para os caminhões passarem sem vistoria?
— Eu não sei o nome! Eu juro que não sei! — ela gritava, desesperada. — Era um homem do setor de suprimentos... ele falava direto com o pessoal da associação! Ele disse que o seu domínio no morro estava com os dias contados, que uma nova facção ia assumir o controle e que era melhor eu garantir o meu lado!
Antes que eu pudesse fazer a próxima pergunta, o rádio no meu colete estalou de forma violenta.
"Chefe! Chefe! Eles furaram o bloqueio da curva do S! Estão subindo em três carros armados e foram direto para o prédio da administração!"
Senti o sangue congelar. O prédio da administração era exatamente onde ficava a sala de monitoramento. Onde Pietra estava.
— Dentinho, tranque essa mulher e desça com a equipe de apoio! — ordenei, virando-me de volta para a saída a toda velocidade. — Breno, me responde no rádio! Breno!
Silêncio absoluto do outro lado da linha. Apenas o som truncado de interferência.
Corri pelas vielas do morro como se a minha própria vida estivesse sendo ceifada a cada segundo de atraso. Os tiros começaram a ecoar na parte alta da comunidade. Rajadas pesadas de fuzil cortavam a noite, e o pânico se espalhava entre os moradores.
Se alguém encostasse um único dedo em Pietra, se aquela garota sofresse um arranhão sequer por ter confiado na minha promessa de proteção, eu juro por Deus que queimaria este morro de ponta a ponta até não restar pedra sobre pedra.
A verdadeira guerra pela supremacia não estava apenas nas portas de entrada do morro. Ela tinha acabado de invadir o coração da minha casa — e a mulher que eu jurava manter como prisioneira tinha se tornado o centro de todo o meu império.