Ponto de Vista: Greco
A luz alaranjada do início da manhã começava a cortar a fumaça que ainda pairava sobre a rua principal do morro. O cheiro de pólvora queimada misturava-se ao aroma de café fresco que vinha das poucas casas que já abriam as janelas, com os moradores ainda sob o impacto do confronto da madrugada.
A caminhada do prédio da administração até a minha casa foi feita em silêncio. Minha mão direita permanecia firme ao redor da cintura de Pietra, sentindo cada respiração acelerada dela. Ela caminhava com o queixo erguido, a poeira do tiroteio ainda manchando o seu rosto e a camisa social de linho que usava, mas sem demonstrar um único traço de fraqueza diante dos meus homens que patrulhavam as esquinas.
Ao cruzarmos o portão de ferro da mansão, Breno já estava no sofá da sala principal, com o ombro enfaixado por curativos limpos e o rosto pálido pelo cansaço. Um dos médicos da comunidade recolhia o material cirúrgico sobre a mesa de centro.
— O Silveira sumiu, chefe — disse Breno assim que me viu entrar, a voz rouca caindo como uma pedra na sala. — A equipe chegou na casa dele no sopé da montanha, mas o lugar já estava limpo. O velho pegou os documentos principais, um carro de apoio e desceu para o asfalto antes do sol nascer.
Apertei os dentes com tanta força que senti os músculos do travamento da mandíbula estalarem. Pietra sentiu a mudança na minha postura e deu um pequeno passo na minha direção, sem soltar minha mão.
— Ele não fugiu sozinho — Pietra interveio, a voz calma e analítica atraindo o olhar de Breno. — Os arquivos de controle financeiro do setor de suprimentos foram deletados do servidor local exatamente três minutos antes da invasão começar. O Silveira não tinha capacidade técnica para fazer uma limpeza de dados de forma remota. Ele tem uma ponte direta com a diretoria do morro vizinho ou com alguém do asfalto que financia a tecnologia deles.
Breno olhou para Pietra, não mais com a desconfiança dos primeiros dias, mas com o respeito que se deve a alguém que enxerga o tabuleiro além do tiroteio.
— A garota tá certa, Greco — Breno admitiu, ajustando o tipoia no braço atingido. — O Silveira era um contador medíocre. Ele nunca operou sistema criptografado. Tem gente grande por trás desse movimento.
— O Silveira é um cadáver que ainda respira — declarei, a voz gélida. — Mande o Dentinho espalhar a foto dele em todos os pontos de passagem do asfalto. Vinte mil para quem entregar a localização do carro dele. Cinquenta mil para quem me trouxer o velho vivo.
Voltei-me para Pietra, olhando nos olhos dela. A intensidade do que vivemos naquelas últimas horas parecia ter selado algo definitivo entre nós, mas a realidade do meu mundo era implacável.
— Você precisa tomar um banho e descansar — disse a ela, tocando suavemente o seu queixo com o polegar. — O andar de cima está limpo e seguro. Dona Rosa vai subir com o café.
— E você? O que vai fazer? — perguntou ela, mantendo o olhar fixo no meu, como se quisesse ler cada pensamento oculto na minha mente.
— Eu tenho uma comunidade para organizar e um traidor para caçar — respondi, roçando meus lábios nos dela em um toque rápido, mas carregado de uma possessividade que não deixava dúvidas. — Suba, Pietra.
Ponto de Vista: Pietra
Subi as escadas de madeira maciça sentindo o peso do cansaço físico finalmente se acumular nas minhas pernas. Quando cheguei ao quarto principal — o quarto de Greco —, fechei a porta e encostei as costas na madeira, soltando o ar que parecia preso no meu peito desde o momento em que ouvi os primeiros tiros no prédio da administração.
Caminhei até o banheiro e liguei o chuveiro no quente. Enquanto a água caía, olhei para o espelho. Meu rosto estava manchado de fuligem, a roupa suja de poeira e fulas de concreto. Eu não era mais a mesma mulher que tinha subido aquela montanha há poucas semanas, desesperada para pagar a dívida do meu irmão e sair de lá ilesa.
Eu tinha me tornado parte integrante daquela engrenagem perigosa. Eu tinha segurado a posição em uma sala sob ataque, tinha descoberto a fraude financeira de um império do crime e, o mais assustador de tudo, tinha me entregado sem reservas ao homem que todos chamavam de monstro.
Tirei as roupas sujas e entrei sob o jacto de água quente. Fechei os olhos, sentindo a tensão dos músculos ceder aos poucos. O toque das mãos de Greco no meu corpo, a proteção feroz com que ele encarou os homens que tentaram me pegar e a confissão crua de que ele queimaria o morro por mim continuavam ecoando na minha mente com a força de um furacão.
Depois de me lavar, me enrolei em um roupão felpudo e voltei para o quarto. Sobre a mesa de cabeceira, o meu celular — que Greco tinha mantido retido desde a minha chegada — estava sobre uma bandeja, ao lado de uma xícara de xícara de café fumegante deixada por Dona Rosa.
Peguei o aparelho com as mãos ligeiramente trêmulas. A tela acendeu, mostrando dezenas de chamadas perdidas e mensagens. Todas do mesmo número.
Do meu irmão.
Respirei fundo e toquei no ícone para abrir as mensagens de texto.
"Pietra, onde você tá? O cara que me vendeu a dívida disse que o morro tá em guerra! Me responde!"
"Pietra, por favor! O Silveira me procurou! Ele disse que pode me tirar da cidade se eu passar as fotos dos documentos do escritório do Greco que você organizou!"
Senti o chão sumir sob os meus pés. Minhas mãos congelaram sobre o celular.
O meu irmão. O mesmo irmão por quem eu tinha concordado em virar garantia de uma dívida de trinta mil reais. Ele ainda estava em contato com os homens que tentaram destruir o lugar onde eu estava.
Ponto de Vista: Greco
O galpão de operações no fundo da propriedade estava tomado pela movimentação dos meus homens. Armas eram limpas, rádios reprogramados em novas frequências e relatórios de danos na infraestrutura da comunidade eram apresentados por Breno e Dentinho.
— O prejuízo na entrada oeste foi pequeno em termos de mercadoria, mas a imagem da nossa segurança ficou arranhada com os comerciantes do asfalto — Breno explicava, apontando para o mapa do morro sobre a mesa. — Se a gente não der uma resposta rápida ao ataque do morro vizinho, os caras do asfalto vão achar que o seu controle tá vacilando.
— O meu controle nunca vacilou, Breno — respondi, acendendo um cigarro e soltando a fumaça devagar enquanto encarava o mapa. — A resposta não vai ser um ataque cego na favela deles. Nós vamos cortar o financiamento. O Silveira tá escondido em alguma propriedade do asfalto que pertence ao grupo empresarial que lava o dinheiro da facção rival. É lá que nós vamos bater.
Nesse momento, Dentinho entrou no galpão trazendo um notebook sob o braço.
— Chefe, consegui recuperar os dados do tráfego de mensagens da torre de celular da comunidade no horário do ataque — disse Dentinho, colocando o aparelho sobre a mesa. — Houve uma troca de arquivos pesados saindo daqui vinte minutos antes da invasão.
Inclinei-me sobre a tela, acompanhando a linha do tempo do sinal.
— O sinal partiu de qual setor? — perguntei.
Dentinho hesitou por um segundo, olhando de relance para Breno antes de responder.
— Partiu da casa principal, chefe. Do quarto do senhor.
A sala mergulhou em um silêncio mortal. Tirei o cigarro da boca e esmaguei a ponta contra o Cinzeiro de metal, sentindo uma onda de frio gélido percorrer a minha espinha.
— Repita — ordenei, a voz caindo para uma frequência perigosamente baixa.
— O arquivo com a cópia dos acessos do setor de suprimentos foi enviado a partir do número cadastrado no nome do irmão da Pietra — explicou Dentinho, apontando para o endereço IP na tela. — O celular dela foi reativado no quarto principal há meia hora, logo depois que a senhora subiu para tomar banho.
Olhei para Breno. O meu braço direito manteve a boca fechada, mas a expressão no rosto dele era de uma dor silenciosa por mim.
A dúvida — aquela mesma dúvida maldita que eu tentei enterrar quando olhei nos olhos dela após o ataque — voltou com a força de um golpe no peito. A garota que segurou a posição na sala de controle, que me olhou com lágrimas de indignação e que se entregou aos meus abraços... seria possível que tudo não passasse de uma encenação brilhante para proteger o próprio irmão e me entregar de bandeja para os meus inimigos?
Subi as escadas da mansão a passos lentos, pesados, sentindo o peso do meu próprio império sufocar o meu peito. Cada degrau parecia aumentar a fúria que crescia dentro de mim.
Empurrei a porta do quarto principal sem bater.
Pietra estava sentada na ponta da cama, vestindo o roupão branco, segurando o celular nas mãos. O rosto dela estava pálido e os olhos arregalados ao me ver entrar.
Ponto de Vista: Pietra
A forma como Greco entrou no quarto fez todo o ar da sala desaparecer. Não era o homem que tinha me abraçado com desespero no prédio destruído; era o monstro frio, distante e implacável que me recebeu no primeiro dia.
Ele caminhou devagar até a ponta da cama, parando a dois passos de mim. O olhar dele sobre mim era gélido, desprovido de qualquer calor ou afeição.
— O que é isso na sua mão, Pietra? — perguntou ele, a voz tão baixa que parecia um sussurro mortal.
— Greco... eu preciso te mostrar isso — comecei, me levantando da cama e estendendo o celular na direção dele. — O meu irmão... ele me mandou mensagens. O Silveira procurou ele!
Greco não pegou o telefone. Ele apenas encarou o aparelho e depois levantou os olhos para os meus, com uma decepção tão profunda e sombria que fez meu coração congelar no peito.
— O seu irmão recebeu uma cópia dos arquivos do sistema do setor de suprimentos há vinte minutos, Pietra — disse ele, cada palavra caindo como uma lâmina afiada. — Enviada do seu telefone. Da minha cama.
Senti o chão abrir sob os meus pés. A surpresa e o horror me travaram por dois segundos.
— O quê? Não! Eu não mandei nada! — gritei, a voz falhando em desespero enquanto olhava para a tela do celular. — Eu acabei de ligar o aparelho! As mensagens estavam aqui quando eu saí do banho! Eu juro por Deus, Greco, eu não enviei nada para o meu irmão!
— Você acha que eu sou i****a, garota? — ele deu um passo à frente, a presença física dele me encurralando contra a parede ao lado da cama. — Eu coloquei a minha vida e o meu morro em risco por você hoje! Eu matei dois homens naquela sala porque achei que você era leal a mim!
— E EU SOU! — as lágrimas de fúria e choque transbordaram dos meus olhos, caindo quentes pela minha bochecha. — Eu sou leal a você, seu i****a! Eu odeio o que o meu irmão fez, odeio que ele me colocou nessa situação, mas eu NUNCA usaria a confiança que você me deu para te trair! Olhe as mensagens! Leia o que ele escreveu!
Tentei empurrar o celular contra o peito dele, mas Greco segurou meu pulso com uma firmeza que me travou no lugar. O rosto dele estava a centímetros do meu, a respiração dele pesada e descontrolada.
— No meu mundo, Pietra, a coincidência é a desculpa dos fracos — disse ele, a voz trêmula de raiva e de algo que parecia suspiciously com uma dor contida. — Você vai ficar trancada neste quarto. Sem telefone, sem acesso a nada e sem ver a luz do dia até que eu encontre o Silveira e o seu irmão.
— Greco, não faz isso! Não destrói o que a gente construiu hoje! — implorei, segurando a jaqueta dele com a mão livre enquanto ele tomava o celular da minha mão.
Ele se afastou, desfazendo o aperto no meu pulso como se o meu toque o queimasse.
— O que a gente construiu foi uma ilusão — declarou ele, dando as costas e caminhando em direção à porta. — E eu não cometo o mesmo erro duas vezes.
A porta se fechou com um baque pesado, seguido pelo som inconfundível da chave girando na fechadura do lado de fora.
Caí de joelhos no tapete ao lado da cama, cobrindo o rosto com as mãos e chorando em silêncio. A guerra do morro tinha cobrado a sua primeira grande vítima: a confiança que m*l tínhamos começado a construir no meio do caos.