Capítulo 8

1892 Words
Ponto de Vista: Pietra ​O ruído abafado de tiros à distância transformou-se, em questão de segundos, em um estrondo ensurdecedor que fez as paredes de concreto do prédio da administração tremerem. ​Eu estava inclinada sobre o monitor principal da sala de controle, com dezenas de pastas abertas na tela. Os dados não mentiam. O esquema de notas frias e desvio de suprimentos não era um erro administrativo superficial: vinha ocorrendo há pelo menos seis meses. Assinaturas falsificadas, carimbos clonados da associação comunitária e rotas alteradas no sistema interno indicavam que a estrutura de Greco vinha sendo minada por dentro, aos poucos, com precisão cirúrgica. ​— Pietra, precisamos sair daqui agora! — gritou Breno, surgindo na porta da sala com a arma em rastejo e o rosto banhado em suor. — O comboio deles furou a barreira da curva do S e dois carros conseguiram cortar pelo beco dos fundos. Eles estão no pátio inferior! ​— Breno, olhe isso antes! — pedi, apontando desesperadamente para o monitor antes que ele me puxasse. — O responsável pelas assinaturas do setor de suprimentos usava a senha de acesso do Silveira, o gestor da associação. Ele não é apenas um cúmplice da Vanessa, ele é o intermediário direto! ​Breno travou por meio segundo, os olhos arregalados ao ver o nome impresso na tela. ​— O Silveira? Aquele velho trabalha no morro há vinte anos... — Breno rosnou, indignado. — Filhos da p**a. Estão vendendo a casa pelo miolo. Mas não dá tempo de resolver isso agora, garota. Eles estão subindo a escada! ​Antes que eu pudesse fechar o sistema ou salvar os arquivos em um pendrive, o som de vidros estourando no andar de baixo ecoou pelo poço do elevador desativado. Rajadas de metralhadora perfuraram o gesso do teto do corredor externo, fazendo uma chuva de poeira branca cair sobre nós. ​Breno me puxou pelo braço com força, empurrando-me para trás de uma mesa reforçada de aço e madeira maciça. ​— Fique abaixada! Não levante a cabeça por nada! — ordenou ele, posicionando-se ao lado do batente da porta e apontando a pistola para o corredor escuro. ​A respiração trancou na minha garganta. O cheiro de pólvora queimada e poeira invadiu a sala. Eu já tinha visto o perigo de longe, mas estar no centro do tiroteio, encurralada em uma sala fechada enquanto passos pesados de botas táticas se aproximavam pela escada, fez meu coração martelar contra as costelas como se quisesse escapar. ​— Pega a garota viva! O Silveira disse que ela tá com os relatórios das rotas! — uma voz desconhecida gritou do corredor, seguida por uma gargalhada áspera. — O Greco vai entregar a chave do morro se a gente tiver a cadelinha dele na mão! ​Senti uma onda de raiva pura misturar-se ao pânico. Eles achavam que eu era apenas uma moeda de troca, um elo fraco para dobrar o homem que governava aquele lugar. ​Breno disparou três vezes contra o corredor. O som dentro do ambiente fechado foi ensurdecedor. Um grito de dor ecoou do lado de fora, seguido pelo baque pesado de um corpo caindo. Mas a resposta foi imediata: uma rajada violenta de fuzil atravessou a porta de madeira da sala, reduzindo-a a lascas. ​Breno foi atingido no ombro direito pelo impacto de um dos projéteis que ricocheteou na parede. Ele soltou um urro surdo, caindo de joelhos e deixando a arma escapar das mãos ensanguentadas. ​— Breno! — gritei, esquecendo o perigo e engatinhando rapidamente até ele. ​— Fica... para trás, Pietra... — ele arfou, tentando usar a mão esquerda para recuperar a pistola no chão, mas a dor o travou. ​A porta arrombada foi chutada com violência. Dois homens armados, vestindo roupas pretas e balaclavas cobrindo os rostos, invadiram a sala. O primeiro apontou o fuzil diretamente para a minha cabeça. ​— Achamos a joia do chefe — disse o homem, com os olhos queimando de um sadismo frio. — Levanta, garota. Você vem com a gente. ​Sustentei o olhar dele, sentindo os joelhos tremerem, mas me recusando a implorar. Passei a mão suavemente pelo chão, meus dedos encontrando o cabo de metal pesado de um grampeador industrial de mesa sob a poeira. ​— Eu não vou a lugar nenhum com vocês — declarei, a voz saindo mais firme do que eu imaginava. ​— Você não tem escolha... — o homem deu um passo à frente, estendendo a mão para segurar meu cabelo. ​Antes que ele me tocasse, o som de um disparo ecoou com uma potência brutal no corredor externo. A cabeça do homem que segurava o fuzil deu um tranco para trás, e ele caiu seco no chão, morto antes mesmo de atingir o piso. ​Ponto de Vista: Greco ​Ninguém toca no que é meu. ​Surgi no batente da porta como um pesadelo feito de fúria e sangue. O segundo invasor m*l teve tempo de girar o corpo na minha direção; descarreguei três tiros no peito dele sem hesitar um milésimo de segundo. Os corpos dos dois desgraçados tombaram sobre os escombros da porta. ​Minha respiração veio em arfadas descontroladas. Meus olhos varreram a sala em desespero, ignorando a fumaça espessa, até encontrar Pietra encolhida no chão, ao lado de Breno sangrando. O grampeador de metal na mão dela e a poeira no seu rosto não escondiam a chama viva de sobrevivência nos seus olhos. ​Abaixei a arma e avancei dois passos rápidos, ajoelhando-me na frente dela e puxando-a para os meus braços com uma força brutal. ​— Você tá inteira? Fale comigo, Pietra! Eles encostaram em você? — perguntei, a voz rouca, falhada, uma bagunça de adrenalina e pavor que eu nunca tinha sentido em toda a minha vida. ​Pietra agarrou o colarinho da minha jaqueta com força, enterrando o rosto no meu pescoço por dois segundos antes de olhar para mim. ​— Eu tô bem! Eu tô bem, Greco... mas o Breno foi atingido! — disse ela, a voz trêmula, mas mantendo a lucidez. ​Olhei para o lado. Breno estava encostado na parede, pálido, mas consciente, com a mão pressionando o ferimento na omoplata. ​— O tiro foi de raspão na carne, chefe... — Breno resmungou, tentando sorrir no meio da dor. — Mas os desgraçados sabiam exatamente onde ela estava. O Silveira... é o Silveira que tá passando tudo. ​O nome do homem ecoou na minha mente como uma sentença de morte. Silveira. O homem que eu alimentei, que mantive à frente da associação comunitária, que viu este morro crescer e prosperar sob a minha lei. A traição que vem de dentro é a única que dói, mas é também a que exige a resposta mais rápida e c***l. ​— Breno, consegue andar? — perguntei, ajudando meu braço direito a se levantar enquanto mantinha um braço firme ao redor da cintura de Pietra, colando o corpo dela ao meu. ​— Consigo. A contenção do Dentinho já tá subindo a escada. O tiroteio lá embaixo acabou, Greco. Nós limpamos os carros deles — respondeu Breno, segurando o ombro ferido. ​Três dos meus homens de confiança entraram na sala com os fuzis em punho, assumindo a guarda da porta. ​— Levem o Breno para o posto médico da comunidade imediatamente — ordenei aos homens. — E quero uma equipe cercado a casa do Silveira no sopé da montanha. Ninguém entra, ninguém sai. Se ele tentar fugir, quebrem as pernas dele, mas tragam o velho vivo para o meu galpão. ​— Sim, chefe! — os homens responderam em coro, amparando Breno e saindo rapidamente. ​Ficamos apenas nós dois na sala destruída. A fumaça começava a se dissipar pela janela quebrada, revelando o céu da madrugada com os primeiros tons de cinza e azul no horizonte. ​Ponto de Vista: Pietra ​Greco não me soltou por um segundo sequer. A mão dele na minha cintura continuava firme, possessiva, transmitindo um calor que aos poucos trazia meu coração de volta ao ritmo normal. Olhei para a destruição ao nosso redor — as paredes perfuradas por balas, os corpos no chão, o computador com os dados expostos. ​— Como você sabia que eles estavam aqui? — perguntei, levantando a mão e limpando uma mancha de fuligem na bochecha dele. ​Greco fechou os olhos por uma fração de segundo ao sentir o toque da minha mão na sua pele, saboreando a minha proximidade como se fosse a única coisa real naquele caos. ​— Eu senti no meu sangue que o alvo não era a entrada do morro — disse ele, abrindo os olhos escuros e encarando-me com uma intensidade devastadora. — Eles queriam o meu ponto fraco. Queriam você, Pietra. Para me obrigar a entregar o território sem dar um tiro. ​— Eu não sou seu ponto fraco, Greco — respondi, aproximando meu rosto do dele, sentindo a respiração quente do homem contra a minha boca. — Eu descobri o esquema do Silveira. Eu segurei a posição aqui com o Breno. Se você acha que eu sou uma vulnerabilidade, é melhor rever os seus conceitos. ​Um sorriso lento, perigoso e incrivelmente fascinado surgiu nos lábios dele. Greco se inclinou e segurou a minha nuca, colando as nossas testas. ​— Você não é uma vulnerabilidade, garota — sussurrou ele, a voz grave ressoando fundo no meu peito. — Você é a única razão pela qual este morro ainda está de pé hoje. Se tivessem te tirado de mim, eu teria queimado este lugar inteiro. ​A confissão crua dele me deixou sem ar. Não havia mais espaço para negar o que existia entre nós. Não era mais sobre uma dívida de trinta mil reais, não era mais sobre um irmão irresponsável que me usou como moeda de troca. Eu estava presa àquele homem e àquele morro por escolhas próprias, enredada em uma teia de paixão e perigo da qual eu não tinha o menor interesse em escapar. ​Ele selou nossos lábios em um beijo profundo, faminto, um beijo de vitória e alívio que afastou qualquer resquício de pavor que ainda me dominava. Suas mãos apertaram minha cintura, puxando-me para mais perto, como se precisasse reconfirmar que eu estava viva e segura sob o seu domínio. ​Quando nos afastamos devagar, ele olhou para o monitor destruído e depois para a janela. ​— O dia está nascendo, Pietra — disse ele, a voz voltando ao tom rígido de líder, embora os seus olhos continuassem queimando por mim. — E nós temos uma conta muito antiga para acertar com quem achou que podia trair a supremacia deste morro. ​— O Silveira? — perguntei. ​— O Silveira e quem quer que esteja acima dele no asfalto — respondeu Greco, pegando a minha mão e entrelaçando seus dedos nos meus. — Vamos para casa. Você precisa descansar. A guerra de verdade começa hoje. ​Caminhei ao lado dele pelos corredores destruídos do prédio da administração, pisando sobre os escombros do confronto, sabendo que cada passo dado ao lado de Greco me afastava mais da minha vida antiga no asfalto e me afundava ainda mais no coração de um império perigoso, denso e terrivelmente irresistível.
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