Capítulo 2

2133 Words
Ponto de Vista: Pietra ​A noite na casa de Greco não trouxe descanso. Fui levada por um dos seguranças até um quarto no segundo andar. O cômodo era surpreendentemente limpo e bem decorado, com uma cama grande, banheiro privativo e uma janela ampla que dava para o vale de luzes da comunidade. Mas não importava o luxo: as grades sutis na janela e o som do tranco da porta pelo lado de fora deixavam claro que aquilo era uma cela. ​Passei a madrugada em claro, andado de um lado para o outro. Cada ruído do lado de fora me deixava em alerta. O eco dos motores das motos, o som distante de músicas e o bater das portas na casa me lembravam a cada segundo onde eu estava. ​Quando os primeiros raios de sol começaram a iluminar o morro, ouvi o som da chave girando na fechadura. A porta se abriu e uma mulher de meia-idade, com cabelos presos e um avental simples, entrou segurando uma bandeja com café da manhã. ​— Bom dia, menina — disse ela, mantendo a voz baixa e o olhar respeitoso. — Trouxe algo para você comer. O chefe mandou avisar que quer você na sala em vinte minutos. ​— Quem é você? — perguntei, aproximando-me com cautela. ​— Pode me chamar de Dona Rosa. Cuido da casa há anos — respondeu ela, oferecendo um sorriso contido. — Um conselho de quem já viu muito nessa vida: não enfrente o Greco hoje. Ele teve uma noite longa e o clima lá embaixo não está bom. ​Ela deixou a bandeja sobre a mesa pequena e saiu, trancando a porta novamente. Encarei a comida, mas meu estômago estava amarrado de ansiedade. No entanto, sabia que precisava de forças. Comi um pedaço de pão e tomei um gole do café forte antes de me preparar. ​Exatamente vinte minutos depois, a porta foi destrancada por Breno, o homem de confiança de Greco. ​— Vamos — disse ele de forma seca, fazendo um sinal para que eu o seguisse pelo corredor. ​Descemos a escadaria até a sala principal, a mesma onde passei pelo pesadelo na noite anterior. O lugar parecia diferente sob a luz do dia. Painéis de vidro mostravam uma vista panorâmica de toda a favela. Greco estava sentado em uma poltrona de couro, vestindo uma camisa preta simples e calça jeans, com um notebook aberto na mesa à sua frente e uma xícara de café fumegante ao alcance da mão. ​Ele ergueu os olhos quando me aproximei. O olhar dele continuava denso, calculista e incrivelmente intimidador. ​— Deixe-nos a sós, Breno — ordenou Greco, sem desviar os olhos de mim. ​Breno assentiu e se retirou, fechando as portas duplas de madeira. O silêncio que se instalou na sala era pesado. ​— Dormiu bem? — perguntou ele, o tom carregado de uma ironia sutil. ​— Você me trancou em um quarto como se eu fosse um bicho. Como acha que eu dormi? — respondi, cruzando os braços e mantendo o queixo erguido. ​Greco fechou o notebook devagar e se encostou no encosto da poltrona. ​— Você é uma garantia de dívida, Pietra. Não uma hóspede de hotel — disse ele com a voz calma, porém firme. — Se está aqui, é porque o seu irmão vendeu a sua liberdade para não perder a cabeça. Então acostume-se. ​Senti o sangue ferver nas minhas veias. A menção ao meu irmão me lembrava da raiva que eu sentia de Enzo por ter me colocado naquela situação, mas o ódio pelo homem na minha frente era ainda maior. ​— Fale logo o que você quer de mim — exigi. — Você disse que eu moraria aqui sob as suas ordens. Quais são as suas ordens? ​Greco se levantou. A presença dele preenchia o ambiente de forma avassaladora. Ele caminhou devagar na minha direção, parando a uma distância em que eu podia sentir o calor que emanava do seu corpo. ​— As regras nesta casa são simples, mas inflexíveis — começou ele, apontando para o espaço ao redor. — Você não circula pelo morro sem a minha permissão ou sem a companhia de Breno. Você não usa telefone celular sem a minha supervisão. E, acima de tudo, você não questiona as minhas decisões na frente dos meus homens. ​— E o que eu vou fazer o dia todo? Ficar trancada olhando para a parede? — provoquei. ​— Não — ele respondeu, aproximando-se mais um passo. — Você vai me ajudar na organização da casa e na gestão administrativa dos negócios legais da comunidade. Vi a sua ficha, Pietra. Sei que você cursa administração e trabalhava no setor financeiro de uma empresa no asfalto. ​Fiquei paralisada. Ele tinha investigado a minha vida inteira antes mesmo de eu subir o morro. ​— Você vasculhou o meu passado? ​— Eu preciso saber exatamente o que entra na minha casa — disse ele, com um sorriso de canto. — Você tem inteligência e capacidade. Vai usar isso para amortizar a dívida do seu irmão. A partir de hoje, você trabalha para mim. ​Ponto de Vista: Greco ​A reação no rosto de Pietra foi imediata: uma mistura de choque, raiva e uma ponta de orgulho ferido. Ela odiava admitir que eu tinha o controle, mas o brilho nos seus olhos escuros mostrava que ela não se entregaria facilmente. ​E era exatamente isso que me fascinava nela. ​A maioria das pessoas que chegavam à minha presença tremia, implorava ou tentava me agradar. Pietra não. Ela mantinha a postura, sustentava o olhar e devolvia cada provocação. Ela tinha uma força que não combinava com a fragilidade aparente do seu corpo. ​— E se eu me recusar a trabalhar para você? — desafiou ela, dando um passo à frente, diminuindo ainda mais a distância entre nós. ​Aproximei-me o suficiente para sentir a sua respiração descontrolada bater contra o meu peito. Levei a mão devagar ao seu rosto, tocando a linha do seu queixo com a ponta dos dedos. Ela estremeceu ao meu toque, mas não recuou. ​— Se você se recusar, a dívida volta para o seu irmão — murmurei perto do seu rosto, deixando minha voz baixar de tom. — E você sabe muito bem como eu cobro quem me deve no morro. O destino dele está inteiramente nas suas mãos. ​Vi o conflito nos olhos dela. A raiva disputava espaço com a proteção incondicional que ela sentia pela família. Ela fechou os olhos por um segundo, engolindo o orgulho. ​— Tudo bem — ela disse, abrindo os olhos e encarando-me com uma intensidade que fez meu sangue correr mais rápido. — Eu faço o trabalho. Mas não pense por um segundo que você me domina, Greco. Eu estou aqui pelo meu irmão, não por você. ​Retirei os dedos do queixo dela, deixando um sorriso contido transparecer. ​— O motivo não me importa, Pietra. O resultado é o mesmo: você está aqui. Sob o meu teto. Sob a minha lei. ​Caminhei até a mesa principal e peguei uma pasta grossa de documentos, estendendo-a na direção dela. ​— Comece revisando os relatórios de suprimentos e entradas do comércio do morro. Quero tudo organizado e com as discrepâncias apontadas até o final da tarde. Breno vai mostrar o escritório onde você vai trabalhar. ​Pietra pegou a pasta das minhas mãos de forma brusca, sem desviar os olhos dos meus. ​— Considerado feito — respondeu ela com a voz gélida. ​Ela se virou e caminhou em direção às portas da sala com passos firmes. Fiquei observando o movimento dos seus quadris e a postura ereta até que ela desaparecesse pelo corredor. ​Esta garota achava que conseguiria manter a distância, que construiria uma muralha entre nós dois. Mas o que ela ainda não percebeu é que, no meu morro, nada fica fora do meu alcance por muito tempo. ​Ponto de Vista: Pietra ​O escritório que Breno me mostrou ficava no mesmo andar da sala principal, uma sala ampla com uma mesa de madeira, computador e uma janela voltada para a entrada da propriedade. Passei o restante da manhã e o início da tarde mergulhada nos papéis. ​À medida que lia os documentos, percebi que a operação de Greco era muito mais complexa do que eu imaginava. Havia registros de projetos sociais, compra de mantimentos para moradores necessitados, pagamentos de médicos para a associação comunitária, além das movimentações financeiras das atividades ilícitas. Ele mantinha um controle rígido sobre cada centavo que circulava no morro. ​Por volta das quatro da tarde, a porta do escritório se abriu sem que ninguém batesse. Levantei o olhar esperando ver Breno ou Dona Rosa, mas deparei-me com uma mulher alta, vestindo roupas ajustadas e com uma expressão claramente hostil. ​Ela entrou no escritório sem pedir licença, cruzando os braços e avaliando-me de cima a baixo com desprezo. ​— Então você é a famosa garantia do irmão caloteiro? — perguntou ela, a voz carregada de veneno. ​— Quem é você? — perguntei, mantendo a calma e organizando as folhas sobre a mesa. ​— Meu nome é Vanessa — respondeu ela, dando um passo à frente. — E é bom você aprender rápido qual é o seu lugar nesta casa. O Greco pode ter ficado curioso com a sua audácia, mas não pense que você é especial. Mulheres como você vêm e vão no morro todos os dias. ​Percebi imediatamente a dinâmica. Vanessa era alguém do convívio íntimo de Greco que se sentia ameaçada pela minha presença na casa. ​— Se você veio aqui para tentar me intimidar, perdeu seu tempo, Vanessa — respondi, apoiando as mãos na mesa e encarando-a diretamente. — Eu não pedi para estar aqui e não tenho o menor interesse nos jogos de vocês. Se tem algum problema com a minha presença, reclame com o seu chefe. ​A mulher deu um passo irritado na minha direção, o rosto queimando de raiva. ​— Você é muito abusada para quem é apenas uma refém... ​— O que está acontecendo aqui? — a voz grave de Greco cortou o ar como um chicote. ​Ele estava parado no batente da porta, a figura imponente preenchendo a entrada. Seu olhar passou de Vanessa para mim, frio e desprovido de qualquer emoção. ​— Greco... eu só vim ver quem era a garota nova que você trouxe para o quartel — disse Vanessa, mudando o tom de voz instantaneamente para algo mais suave e sedutor. ​— Eu não te dei permissão para subir ao escritório, Vanessa — disse ele, a voz baixa e carregada de uma autoridade perigosa. — Saia agora. ​Vanessa mordeu o lábio inferior, claramente contrariada com a repreensão na minha frente, mas não ousou desacatar a ordem. Ela caminhou até a porta, lançando-me um último olhar de desdém antes de sair e bater a porta ao fechar. ​Greco entrou no escritório e caminhou devagar até a minha mesa. ​— Vejo que você já está causando agitação na casa — comentou ele, apoiando as mãos na borda da minha escrivaninha. ​— A sua visita veio até aqui me provocar. Eu só respondi à altura — declarei, sem baixar a cabeça. — E se esse é o tipo de ambiente que você mantém aqui, sugiro que avise aos seus capangas e acompanhantes para não entrarem no meu espaço de trabalho. ​Greco soltou uma risada baixa, uma gargalhada curta e sombria que arrepiou os pelos dos meus braços. Ele se inclinou sobre a mesa, ficando a poucos centímetros do meu rosto. ​— Você é inacreditável, Pietra. Está presa na minha casa, cercada pelos meus homens, e ainda tenta ditar as regras. ​— Eu não me curvo a você, Greco — sussurrei, encarando os olhos escuros dele que pareciam devorar a minha alma. — Você pode controlar o morro inteiro, mas a minha mente e a minha dignidade continuam sendo minhas. ​O olhar dele desceu por um segundo para os meus lábios antes de voltar para os meus olhos. A tensão na sala tornou-se quase palpável, um calor sufocante que fazia meu coração bater descontrolado. ​— A sua dignidade é o que torna tudo isso mais interessante — murmurou ele, a voz grave ressoando no meu peito. — Vamos ver quanto tempo esse seu orgulho resiste ao mundo em que você acabou de entrar. ​Ele se afastou devagar, deixando-me novamente sem ar, com os papéis na mão e a certeza de que a guerra entre nós dois estava apenas começando.
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