Ponto de Vista: Pietra
A noite na casa de Greco não trouxe descanso. Fui levada por um dos seguranças até um quarto no segundo andar. O cômodo era surpreendentemente limpo e bem decorado, com uma cama grande, banheiro privativo e uma janela ampla que dava para o vale de luzes da comunidade. Mas não importava o luxo: as grades sutis na janela e o som do tranco da porta pelo lado de fora deixavam claro que aquilo era uma cela.
Passei a madrugada em claro, andado de um lado para o outro. Cada ruído do lado de fora me deixava em alerta. O eco dos motores das motos, o som distante de músicas e o bater das portas na casa me lembravam a cada segundo onde eu estava.
Quando os primeiros raios de sol começaram a iluminar o morro, ouvi o som da chave girando na fechadura. A porta se abriu e uma mulher de meia-idade, com cabelos presos e um avental simples, entrou segurando uma bandeja com café da manhã.
— Bom dia, menina — disse ela, mantendo a voz baixa e o olhar respeitoso. — Trouxe algo para você comer. O chefe mandou avisar que quer você na sala em vinte minutos.
— Quem é você? — perguntei, aproximando-me com cautela.
— Pode me chamar de Dona Rosa. Cuido da casa há anos — respondeu ela, oferecendo um sorriso contido. — Um conselho de quem já viu muito nessa vida: não enfrente o Greco hoje. Ele teve uma noite longa e o clima lá embaixo não está bom.
Ela deixou a bandeja sobre a mesa pequena e saiu, trancando a porta novamente. Encarei a comida, mas meu estômago estava amarrado de ansiedade. No entanto, sabia que precisava de forças. Comi um pedaço de pão e tomei um gole do café forte antes de me preparar.
Exatamente vinte minutos depois, a porta foi destrancada por Breno, o homem de confiança de Greco.
— Vamos — disse ele de forma seca, fazendo um sinal para que eu o seguisse pelo corredor.
Descemos a escadaria até a sala principal, a mesma onde passei pelo pesadelo na noite anterior. O lugar parecia diferente sob a luz do dia. Painéis de vidro mostravam uma vista panorâmica de toda a favela. Greco estava sentado em uma poltrona de couro, vestindo uma camisa preta simples e calça jeans, com um notebook aberto na mesa à sua frente e uma xícara de café fumegante ao alcance da mão.
Ele ergueu os olhos quando me aproximei. O olhar dele continuava denso, calculista e incrivelmente intimidador.
— Deixe-nos a sós, Breno — ordenou Greco, sem desviar os olhos de mim.
Breno assentiu e se retirou, fechando as portas duplas de madeira. O silêncio que se instalou na sala era pesado.
— Dormiu bem? — perguntou ele, o tom carregado de uma ironia sutil.
— Você me trancou em um quarto como se eu fosse um bicho. Como acha que eu dormi? — respondi, cruzando os braços e mantendo o queixo erguido.
Greco fechou o notebook devagar e se encostou no encosto da poltrona.
— Você é uma garantia de dívida, Pietra. Não uma hóspede de hotel — disse ele com a voz calma, porém firme. — Se está aqui, é porque o seu irmão vendeu a sua liberdade para não perder a cabeça. Então acostume-se.
Senti o sangue ferver nas minhas veias. A menção ao meu irmão me lembrava da raiva que eu sentia de Enzo por ter me colocado naquela situação, mas o ódio pelo homem na minha frente era ainda maior.
— Fale logo o que você quer de mim — exigi. — Você disse que eu moraria aqui sob as suas ordens. Quais são as suas ordens?
Greco se levantou. A presença dele preenchia o ambiente de forma avassaladora. Ele caminhou devagar na minha direção, parando a uma distância em que eu podia sentir o calor que emanava do seu corpo.
— As regras nesta casa são simples, mas inflexíveis — começou ele, apontando para o espaço ao redor. — Você não circula pelo morro sem a minha permissão ou sem a companhia de Breno. Você não usa telefone celular sem a minha supervisão. E, acima de tudo, você não questiona as minhas decisões na frente dos meus homens.
— E o que eu vou fazer o dia todo? Ficar trancada olhando para a parede? — provoquei.
— Não — ele respondeu, aproximando-se mais um passo. — Você vai me ajudar na organização da casa e na gestão administrativa dos negócios legais da comunidade. Vi a sua ficha, Pietra. Sei que você cursa administração e trabalhava no setor financeiro de uma empresa no asfalto.
Fiquei paralisada. Ele tinha investigado a minha vida inteira antes mesmo de eu subir o morro.
— Você vasculhou o meu passado?
— Eu preciso saber exatamente o que entra na minha casa — disse ele, com um sorriso de canto. — Você tem inteligência e capacidade. Vai usar isso para amortizar a dívida do seu irmão. A partir de hoje, você trabalha para mim.
Ponto de Vista: Greco
A reação no rosto de Pietra foi imediata: uma mistura de choque, raiva e uma ponta de orgulho ferido. Ela odiava admitir que eu tinha o controle, mas o brilho nos seus olhos escuros mostrava que ela não se entregaria facilmente.
E era exatamente isso que me fascinava nela.
A maioria das pessoas que chegavam à minha presença tremia, implorava ou tentava me agradar. Pietra não. Ela mantinha a postura, sustentava o olhar e devolvia cada provocação. Ela tinha uma força que não combinava com a fragilidade aparente do seu corpo.
— E se eu me recusar a trabalhar para você? — desafiou ela, dando um passo à frente, diminuindo ainda mais a distância entre nós.
Aproximei-me o suficiente para sentir a sua respiração descontrolada bater contra o meu peito. Levei a mão devagar ao seu rosto, tocando a linha do seu queixo com a ponta dos dedos. Ela estremeceu ao meu toque, mas não recuou.
— Se você se recusar, a dívida volta para o seu irmão — murmurei perto do seu rosto, deixando minha voz baixar de tom. — E você sabe muito bem como eu cobro quem me deve no morro. O destino dele está inteiramente nas suas mãos.
Vi o conflito nos olhos dela. A raiva disputava espaço com a proteção incondicional que ela sentia pela família. Ela fechou os olhos por um segundo, engolindo o orgulho.
— Tudo bem — ela disse, abrindo os olhos e encarando-me com uma intensidade que fez meu sangue correr mais rápido. — Eu faço o trabalho. Mas não pense por um segundo que você me domina, Greco. Eu estou aqui pelo meu irmão, não por você.
Retirei os dedos do queixo dela, deixando um sorriso contido transparecer.
— O motivo não me importa, Pietra. O resultado é o mesmo: você está aqui. Sob o meu teto. Sob a minha lei.
Caminhei até a mesa principal e peguei uma pasta grossa de documentos, estendendo-a na direção dela.
— Comece revisando os relatórios de suprimentos e entradas do comércio do morro. Quero tudo organizado e com as discrepâncias apontadas até o final da tarde. Breno vai mostrar o escritório onde você vai trabalhar.
Pietra pegou a pasta das minhas mãos de forma brusca, sem desviar os olhos dos meus.
— Considerado feito — respondeu ela com a voz gélida.
Ela se virou e caminhou em direção às portas da sala com passos firmes. Fiquei observando o movimento dos seus quadris e a postura ereta até que ela desaparecesse pelo corredor.
Esta garota achava que conseguiria manter a distância, que construiria uma muralha entre nós dois. Mas o que ela ainda não percebeu é que, no meu morro, nada fica fora do meu alcance por muito tempo.
Ponto de Vista: Pietra
O escritório que Breno me mostrou ficava no mesmo andar da sala principal, uma sala ampla com uma mesa de madeira, computador e uma janela voltada para a entrada da propriedade. Passei o restante da manhã e o início da tarde mergulhada nos papéis.
À medida que lia os documentos, percebi que a operação de Greco era muito mais complexa do que eu imaginava. Havia registros de projetos sociais, compra de mantimentos para moradores necessitados, pagamentos de médicos para a associação comunitária, além das movimentações financeiras das atividades ilícitas. Ele mantinha um controle rígido sobre cada centavo que circulava no morro.
Por volta das quatro da tarde, a porta do escritório se abriu sem que ninguém batesse. Levantei o olhar esperando ver Breno ou Dona Rosa, mas deparei-me com uma mulher alta, vestindo roupas ajustadas e com uma expressão claramente hostil.
Ela entrou no escritório sem pedir licença, cruzando os braços e avaliando-me de cima a baixo com desprezo.
— Então você é a famosa garantia do irmão caloteiro? — perguntou ela, a voz carregada de veneno.
— Quem é você? — perguntei, mantendo a calma e organizando as folhas sobre a mesa.
— Meu nome é Vanessa — respondeu ela, dando um passo à frente. — E é bom você aprender rápido qual é o seu lugar nesta casa. O Greco pode ter ficado curioso com a sua audácia, mas não pense que você é especial. Mulheres como você vêm e vão no morro todos os dias.
Percebi imediatamente a dinâmica. Vanessa era alguém do convívio íntimo de Greco que se sentia ameaçada pela minha presença na casa.
— Se você veio aqui para tentar me intimidar, perdeu seu tempo, Vanessa — respondi, apoiando as mãos na mesa e encarando-a diretamente. — Eu não pedi para estar aqui e não tenho o menor interesse nos jogos de vocês. Se tem algum problema com a minha presença, reclame com o seu chefe.
A mulher deu um passo irritado na minha direção, o rosto queimando de raiva.
— Você é muito abusada para quem é apenas uma refém...
— O que está acontecendo aqui? — a voz grave de Greco cortou o ar como um chicote.
Ele estava parado no batente da porta, a figura imponente preenchendo a entrada. Seu olhar passou de Vanessa para mim, frio e desprovido de qualquer emoção.
— Greco... eu só vim ver quem era a garota nova que você trouxe para o quartel — disse Vanessa, mudando o tom de voz instantaneamente para algo mais suave e sedutor.
— Eu não te dei permissão para subir ao escritório, Vanessa — disse ele, a voz baixa e carregada de uma autoridade perigosa. — Saia agora.
Vanessa mordeu o lábio inferior, claramente contrariada com a repreensão na minha frente, mas não ousou desacatar a ordem. Ela caminhou até a porta, lançando-me um último olhar de desdém antes de sair e bater a porta ao fechar.
Greco entrou no escritório e caminhou devagar até a minha mesa.
— Vejo que você já está causando agitação na casa — comentou ele, apoiando as mãos na borda da minha escrivaninha.
— A sua visita veio até aqui me provocar. Eu só respondi à altura — declarei, sem baixar a cabeça. — E se esse é o tipo de ambiente que você mantém aqui, sugiro que avise aos seus capangas e acompanhantes para não entrarem no meu espaço de trabalho.
Greco soltou uma risada baixa, uma gargalhada curta e sombria que arrepiou os pelos dos meus braços. Ele se inclinou sobre a mesa, ficando a poucos centímetros do meu rosto.
— Você é inacreditável, Pietra. Está presa na minha casa, cercada pelos meus homens, e ainda tenta ditar as regras.
— Eu não me curvo a você, Greco — sussurrei, encarando os olhos escuros dele que pareciam devorar a minha alma. — Você pode controlar o morro inteiro, mas a minha mente e a minha dignidade continuam sendo minhas.
O olhar dele desceu por um segundo para os meus lábios antes de voltar para os meus olhos. A tensão na sala tornou-se quase palpável, um calor sufocante que fazia meu coração bater descontrolado.
— A sua dignidade é o que torna tudo isso mais interessante — murmurou ele, a voz grave ressoando no meu peito. — Vamos ver quanto tempo esse seu orgulho resiste ao mundo em que você acabou de entrar.
Ele se afastou devagar, deixando-me novamente sem ar, com os papéis na mão e a certeza de que a guerra entre nós dois estava apenas começando.