A noite seguinte foi de silêncio, mas não de paz.
A lua, antes n***a, agora pairava em tons avermelhados, como se tingida pelo sangue derramado entre as dimensões. O céu parecia rachado — linhas de energia espectral tremeluziam sobre o Colégio das Sombras, vestígios da colisão entre mundos ainda se reorganizando.
Na enfermaria arcana, Liora despertou sob o olhar protetor de Selene e Zephyr. O corpo tremia. O véu entre o consciente e o inconsciente ainda vibrava em sua mente, como se ela tivesse atravessado não apenas batalhas, mas memórias que não eram inteiramente suas.
— Ela dormiu por dois dias — sussurrou Selene, com o semblante tenso. — Desde o confronto com o Guardião Caído.
— Ela precisava de tempo. A fusão de fragmentos de essência entre ela e Saphira alterou... tudo. — respondeu Zephyr, enquanto traçava runas de proteção no ar ao redor da cama.
Liora abriu os olhos. Havia algo diferente neles. Como se carregassem reflexos de estrelas extintas.
— Onde ela está? — perguntou, a voz rouca. — A minha irmã.
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Saphira estava em um dos observatórios isolados no topo da Torre do Horizonte. Vestia-se com roupas simples, mas ao redor dela, as sombras ainda dançavam, obedientes, como cães adestrados. A armadura espectral desaparecera após a batalha, mas o poder permanecia, pulsando sob a pele.
Ela encarava um espelho antigo — uma relíquia encantada usada por antigos oraculistas. Mas o reflexo não mostrava seu rosto. Mostrava... Lyara. Liora. A imagem da irmã que cresceu livre, com amigos, com amor.
— Eles me apagaram. Me negaram. Me trancaram... — murmurou, com a voz embargada.
— E ainda assim, você está aqui. — disse uma voz atrás dela.
Era Thorne.
— Sabe, muitos dos nossos alunos são escolhidos por suas habilidades. Mas vocês duas... vocês foram forjadas. Desde o nascimento. — ele disse, aproximando-se. — A criação de vocês não foi um acidente, Saphira. Foi uma tentativa de controlar o desequilíbrio do universo. De dividir o poder para que ele nunca consumisse uma única alma por completo.
Saphira girou lentamente, os olhos semicerrados.
— Então me dividiram. Me selaram. Me usaram como uma trava viva.
— E agora você é uma chave. — Thorne concluiu. — Mas depende de você abrir o que precisa... ou manter o mundo de pé.
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Liora caminhava pela ala dos espelhos. Cada superfície mostrava fragmentos de memórias — suas, de Saphira, e de algo mais profundo, mais antigo. Uma linhagem que remontava aos Filhos do Véu, os primeiros seres a tocarem o ciclo espectral.
No reflexo de um espelho quebrado, viu-se com Saphira quando crianças, rindo, antes da separação.
A imagem rachou. Liora cambaleou.
— Eu não sabia... — murmurou. — Eu não sabia que éramos uma.
Selene apareceu ao seu lado, oferecendo uma bebida de runas curativas.
— E ela ainda é parte de você, Lio. Mas... algo dentro dela está diferente. Ela absorveu algo do Guardião. Eu vi. Algo que... não pertence a este mundo.
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Enquanto isso, nas profundezas do colégio, Zephyr, Stark e representantes da Irmandade Mutante e da SHIELD reuniam-se novamente no Salão da Lua.
— Detectamos uma nova ruptura no Véu. Não criada por Liora... nem por Saphira. — disse Zephyr, com expressão sombria.
— Outro Guardião Caído? — sugeriu um dos agentes da SHIELD.
— Não. — respondeu Stark. — Algo mais antigo. Uma sombra que nem os Guardiões ousaram nomear. A Origem. O Ciclo Primordial.
O Conselho se calou.
— Se isso for verdade, a guerra que enfrentamos... foi apenas o prólogo.
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Saphira, agora sozinha na biblioteca oculta, encontrou um pergaminho antigo — selado por sangue ancestral. Nele, um nome apagado surgia lentamente, escrito em energia viva:
"O Coração do Véu."
E abaixo dele, em letras que pareciam vivas:
"Aquela que carregar a Semente poderá desfazer ou refazer toda a Criação."
O pergaminho queimou em suas mãos, deixando apenas uma runa em brasa na palma.
Saphira caiu de joelhos. E pela primeira vez... chorou.
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Naquela noite, Liora e Saphira se encontraram diante do Portal dos Ecos — um espaço entre as camadas do colégio onde apenas os verdadeiros herdeiros do Véu podiam entrar.
— Você sente, não sente? — perguntou Saphira, sem encarar a irmã.
— Sim. — Liora respondeu, olhando o portal pulsar. — Algo dentro de nós está crescendo. Algo que não nos pertence... mas nos escolheu.
Saphira olhou enfim para a irmã. Seus olhos estavam diferentes. Carregavam tristeza, força... e uma ameaça silenciosa.
— O que acontece se uma de nós não suportar?
Liora respirou fundo.
— Então a outra... terá que decidir.
O Véu tremeu.
E o portal se abriu.