Do outro lado da cidade, no lado sul, o clima também não era de festa… era de expectativa perigosa.
No escritório de Antônio Pedrosa, o ar estava pesado de fumaça de charuto e poder.
Ele estava sentado de forma relaxada na cadeira, mas o olhar era afiado, calculista. O tipo de homem que não precisava levantar a voz para ser obedecido.
Um dos seus homens, em pé perto da mesa, arriscou um sorriso e perguntou:
“Tá animado, chefe… pra chegada da sua esposa?”
Antônio soltou uma leve risada pelo nariz, girando o charuto entre os dedos antes de tragar lentamente.
“Animado?” ele repetiu, como se a palavra tivesse gosto estranho.
Ele soltou a fumaça devagar, olhando para o teto por um segundo, pensativo.
“Eu diria… curioso.”
O homem ficou em silêncio, esperando.
Antônio inclinou o corpo para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
“Essa garota… filha de bilionário…” ele disse com calma. “Criada em berço de ouro, cheia de luxo, de regras, de proteção.”
Um sorriso curto surgiu no canto da boca dele.
“Vai ser interessante ver como alguém assim sobrevive aqui.”
Ele apagou a ponta do charuto com tranquilidade.
“Ela é linda. Isso eu não posso negar.”
O olhar dele ficou mais frio, mais direto.
“Mas beleza não mantém ninguém viva aqui dentro.”
Ele se levantou devagar, ajustando o paletó.
“Quero ver quanto tempo ela leva pra entender onde ela foi parar.”
O homem ao lado hesitou.
“E se ela não se adaptar, chefe?”
Antônio parou por um instante.
O silêncio que veio depois foi mais pesado que qualquer resposta rápida.
Então ele virou o rosto, com uma calma quase c***l.
“Ela vai se adaptar.”
Uma pausa.
“Ou não vai sobreviver tentando.”
Ele pegou o casaco e caminhou em direção à saída do escritório.
Antes de sair, falou por cima do ombro, como se fosse apenas mais uma reunião de negócios:
“Prepare tudo. Eu quero tudo perfeito pra chegada dela.”
A porta se fechou atrás dele com um som seco.
E na cidade inteira, sem que ela soubesse ainda…
Duas mulheres estavam a caminho de dois homens que não viam casamento como amor.
Viam como posse.
E teste.
Os dias seguintes passaram como uma mistura de preparação e silêncio inquieto.
Na mansão do bilionário, tudo já estava sendo organizado como se aquilo fosse apenas um evento social importante — nada de tragédia, nada de imposição. Vestidos eram embalados, joias separadas, malas sendo feitas com cuidado excessivo.
Tifany andava pelos corredores como uma rainha em coroação.
“Brenda, você viu esse vestido?” ela dizia, girando em frente ao espelho. “Isso aqui vai fazer todo mundo me respeitar.”
Brenda sorria de leve, sempre seguindo atrás dela, como sombra fiel.
Do outro lado da casa, o clima era completamente diferente.
No porão, Lia terminava de arrumar sua mala com mãos levemente trêmulas.
Jéssica dobrava algumas roupas com calma, mas o olhar dela era atento, sempre observando a amiga.
“Tá tudo pronto,” Jéssica disse baixinho. “Amanhã a gente vai sair daqui.”
Lia parou por um segundo.
“Amanhã…” ela repetiu.
A palavra parecia pesada demais.
Como se não fosse só uma mudança de casa.
Mas de vida.
Ela sentou na beira da cama, olhando para o chão.
“Eu não sei como ele vai ser,” Lia murmurou. “O Rodolfo… dizem tantas coisas.”
Jéssica sentou ao lado dela.
“Dizem muitas coisas sobre gente poderosa,” ela respondeu. “Nem todas são verdade.”
Lia soltou uma risada fraca, sem humor.
“E quando são verdade?”
O silêncio respondeu por elas.
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Na manhã seguinte, o pátio da mansão estava tomado por carros escuros.
Seguranças organizavam tudo com precisão militar. Não era uma despedida… era uma transferência.
Tifany apareceu primeiro, impecável, elegante, como se estivesse indo para uma festa.
Ela entrou no carro com um sorriso satisfeito.
“Finalmente minha vida vai começar de verdade,” ela disse.
Brenda entrou logo atrás, silenciosa.
Depois, veio Lia.
Ela parou por um segundo antes de descer os degraus.
O vento bateu leve no rosto dela, como se tentasse segurar algo que já estava indo embora.
Jéssica tocou sua mão.
“Fica comigo,” ela sussurrou.
“Eu tô com você,” Lia respondeu.
E então elas entraram no carro.
As portas fecharam.
E a mansão ficou para trás.
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Do outro lado da cidade, no território de Antônio Pedrosa, tudo já estava preparado.
O galpão principal havia sido limpo e reorganizado. Homens armados estavam posicionados, não por festa… mas por controle.
Antônio estava de pé, olhando pela janela.
Um dos seus homens entrou.
“Elas já estão a caminho, chefe.”
Antônio não virou de imediato.
Só depois de alguns segundos ele respondeu:
“Quantas horas?”
“Poucas.”
Ele respirou fundo, como se estivesse avaliando algo invisível.
“Quero tudo sob controle,” disse ele. “Sem erros.”
O homem assentiu.
“E a esposa…?”
Antônio finalmente virou o rosto.
O olhar dele era frio, direto.
“Quero ver se ela realmente entende onde está entrando.”
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No carro, Lia olhava pela janela enquanto a cidade passava rápido.
O coração dela batia forte, mas não era só medo.
Era a sensação estranha de que, a partir daquele momento, não existia mais volta.
Jéssica apertou a mão dela com força.
“Independente do que acontecer… eu não vou sair do seu lado.”
Lia virou o rosto e assentiu devagar.
“Eu sei.”
Mas lá dentro, uma coisa já começava a pesar:
o nome Rodolfo Fagundes não era mais só um medo distante.
Era destino se aproximando.