Ourives

1229 Words
- Cheguei primeiro! - A exclamação triunfante do garoto ecoou no ar. Entretanto, a irmã, recordando as competições injustas com o irmão gêmeo, reclamou, cruzando os braços. - Não é justo! - protestou - Sempre que competimos, vós sois quem vences, e isto não é justo! Apollo conteve o riso com as palavras da irmã que eram permeadas pelo desagrado. Elas acionaram em sua mente a imagem de si, resmungando contra as mesmas percepções de injustiça que tinha com Aysha. - Tenho uma idade superior à vossa, estimada irmã, sempre hei de superar-te - afirmou o pequeno de cabelos áureos, enaltecendo-se. A irmã retrucou, mostrando-lhe a língua. - Abstenham-se, por favor - interferiu o primogênito ao dispor-lhes pães, ovos e queijo. - Sabem bem que mamãe não aceitava brigas à mesa. Assim que o irmão mencionara a mãe, as crianças sentiram a ausência da mulher que educava-os e reclamava quando os irmãos discutiam a mesa, pois para ela era algo sagrado, pois era a hora da refeição. Então, cientes da mãe ausente, silenciam suas querelas e se entregam ao desjejum. *** Sob o céu tingido de amarelo e azul pela luz matinal das nove horas, criava-se uma paisagem de tranquilidade que contrastava com a dura realidade de sua vida. Então, sob o véu daquela manhã, o jovem garoto de onze anos adentrou no caminho mais curto e gasto que o conduzia à fábrica. À margem de sua jornada diária, erguia-se uma casa antiga, quase desvanecendo sob a sombra de seu próprio abandono. Era um enclave que se assemelhava a uma caverna, com paredes gastas e cobertas de musgo que contava a história do tempo que ali residia. Embora Apollo já tivesse notado essa morada quando passava pelo local, uma placa surrada e quase ilegível permanecia despercebida, revelando que um ourives habitava o local. Intrigado, decidiu bater à porta, motivado a questionar se o tal Ourives poderia transformar a pedra lunar que carregava consigo em um pingente de uma bela joia. O som da batida ecoou como o vazio, a resposta ao seu chamado, silenciosa, o que levou-o a adentrar sem cerimônia. A porta, rangendo, cedeu à sua pressão, desvendando um ambiente mergulhado na escuridão. Ele iniciou sua jornada com um pé hesitante, e foi surpreendido pelo miado estridente de um gato preto que, ao sair rapidamente, causou-lhe um pequeno susto, ecoando na penumbra como uma breve sinfonia inesperada. Contudo, determinado, avançou mesmo assim até o centro da vasta sala, onde a escuridão abraçava cada movimento dele, com sua respiração entrecortada que ecoava timidamente. A casa revelou um interior à meia-luz, dominado por um simples candelabro solitário, cuja única chama dançava fracamente sobre o piso de madeira envelhecida. A atmosfera silenciosa parecia perturbadora, o tique-taque implacável do relógio soava como o único som existente do local. Ele, segurando firmemente sua pedra da lua, ousou quebrar o silêncio: - Olá? Uma voz carrancuda, áspera como o atrito do tempo, cortou imediatamente o vazio, indagando qual a razão da intrusão do garoto. - O que fazes aqui? O coração do garoto pulou em sobressalto pelo susto da voz repentina, e tentou se explicar diante da figura na penumbra. - Desculpe-me o incômodo, senhor. Apenas procuro alguém que possa colocar esta pedra revestida em prata para mim - com delicadeza, ele revelou a pedra luminosa em suas mãos, oferecendo-a como um elo de comunicação com a voz na escuridão.  Um candeeiro acendeu-se ao fundo, revelando a carranca de um velho que emergiu dos confins da obscuridade. Seu rosto era uma tapeçaria de rugas e cicatrizes, a coluna corcunda e um olho cego. Uma figura f**a, mas intrigante, que claramente testemunhara dias melhores no decorrer de sua árdua vida. - Oras, garoto, acerque-se! - proclamou ele, instando-o a se dirigir à mesa no recôndito da sala. Ele acedeu, aproximando-se com prudência da figura singular. O ancião, arrebatou a pedra da mão do jovem de forma abrupta, murmurando ao tocá-la com seus dedos ásperos. Sua reação efusiva evidenciava uma i********e com a beleza da pedra preciosa. - Ora, ora, ora... - ele a analisava, demonstrando habilidade em apreciar sua excelência. - Pelo Deus do bronze! - ele exclamou. Seu olho cego abrindo-se momentaneamente, com um lampejo de entusiasmo ao reconhecer aquela opulência latente. - Isto é uma relíquia, uma relíquia, meu jovem! Por quanto a vende, hum? Questionou o ourives com um sorriso exibindo dentes amarelados, fitando o garoto com um único olho. Apollo, inabalável, declinou a oferta de venda, pois a pedra era um presente destinado para um certo alguém. - Não tenho a intenção de vendê-la, senhor - afirmou, sua resolução permanecendo evidente no ar. O homem soltou um suspiro resignado, entretanto, seus olhos ainda irradiavam uma compreensão sutil. - Uma lástima - admitiu - No entanto, meu ofício em prata para esta gema valerá cem oriens. Apollo aceitou a proposta, embora tivesse reservado um pouco de dinheiro para adquirir uma vestimenta nova, não era suficiente para custear a joia. Assim, ele estava determinado a laborar arduamente. Então, hoje, dedicar-se-ia à fábrica tanto quanto suportasse, visando angariar o montante necessário antes de dois dias. - Quando tereis finalizado esta obra, senhor? - indagou ansioso, uma vez que necessitava da joia, mais precisamente, antes do dia dezessete. - Estimo que em dois dias - respondeu o ourives. *** Num rincão sombrio da cidade, sob o domínio das chaminés que abraçavam os céus com fumaça, erguia-se a fábrica de fósforos. Um casarão antigo, envolto na penumbra de sombras, onde homens, mulheres e até crianças, dedicavam o seu tempo para garantir o tão necessitado pão de cada dia. No âmago dessa realidade árdua, uma mulher enfrentava a crueza das lâminas cortantes de um serrote impregnado de fuligem, esculpindo a madeira recém-arrancada do solo em pequenos cilindros. Ao lado dela, Apollo recebia instruções para alimentar a voracidade da máquina ralhadora, uma entidade mecânica maestrina que transformava os pedaços de madeira em palitos, como se conduzisse uma sinfonia industrial. A seguir, ele organizava os palitos numa moldura, mergulhando-os com destreza na mistura enriquecida com o corante vermelho do componente do fósforo. Cada palito, tingido por essa mistura, tornava-se uma pincelada de esperança em meio à rotina monótona e complexa daquela fábrica. Ele persistia incansavelmente no labor até que a noite, cujo manto escuro, estendesse-se sobre a fábrica, acendendo, assim, as lamparinas. *** As lamparinas da noite anterior na fábrica cederam lugar à luz faiscante que saiu do martelo ao chocar-se sobre o ferro implacável da ferraria. A tarde de sábado deixara o cubículo ainda mais abrasador. Apollo enxugava a transpiração que escorria de sua testa com frequência, enquanto novamente fazia ressoar o martelo contra o ferro para que o mesmo se amassasse na proporção desejada. Ocasionalmente, prestava serviços a Elrion Eliek. Obtinha uma remuneração generosa - por vezes superior ao que recebia na fábrica - ao colaborar meio expediente com ele. O homem de madeixas castanhas e olhos profundos como azeviche avaliava o menino, permanecendo ao seu lado enquanto observava-o moldar o ferro com o martelo até o mesmo adquirir uma forma circular. - Está progredindo magnificamente, Apollo - expressou ele, um sorriso de contentamento adornando-lhe o rosto. - Obrigado, senhor Elrion. Retornando sua atenção à tarefa, Apollo fundiu o ferro circular com uma empunhadura, aquecendo-a no caldeirão de lava para torná-la maleável antes de fixá-la naquilo que agora se transformara numa elegante jarra de ferro alumínio.
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