Eu caminhei pelo corredor do banheiro, desviando dos homens que tentavam chamar a minha atenção, continuando até ver onde terminava, enquanto cantarolava uma música, não, a que eles estavam tocando, outra que eu não sabia por que estava vindo na minha cabeça. Eu perdi o equilíbrio e tive que me segurar na parede, notei uma porta, hesitantemente agarrei a maçaneta e girei, quando a abri viu um terraço.
O frio batia cru*elmente no meu corpo e o efeito do álcool era intensificado pelo ar. Eu dei alguns passos em direção ao corrimão de vidro que combinava com a decoração do interior, as luzes da cidade se misturando com o céu. A música dos outros bares, as pessoas andando, dançando, degustando, tudo era um espetáculo para mim. Eu segurei o corrimão, inclinando o corpo ligeiramente e fechando os olhos. Tudo estava girando, mas a dor não ia embora, não desaparecia, e isso me fazia sentir nojo e raiva. Eu poderia me afogar em álcool, mas o álcool não faria a dor ir embora, o aperto no meu peito não iria embora.
— Te odeio. Eu gritei alto.
— Uma queda de três andares não garante uma morte rápida...
— Po*rra! Oh meu Deus. Eu exclamei, levando as mãos ao peito, perdendo o equilíbrio e tendo que manobrar para ficar de pé e não cair. — Po*rra... Eu exalei o ar dos pulmões. Eu virei o rosto para ver quem era o palhaço que me assustou daquele jeito, mas a minha surpresa foi maior quando reconheci aquele olhar frio. — Você?
— Cair de tal altura seria apenas uma morte aguda, enquanto a dor em cada um dos seus ossos lhe lembra que você está viva, o sangue nos seus pulmões perfurado pelas costelas se acumularia, sufocando-a pouco a pouco, enquanto você tenta desesperadamente respirar. Ele comentou sem dar importância ao susto que ele havia me dado.
— Eu não queria pular… Eu mencionei com raiva.
— Tem certeza? Uma vez pode ser coincidência, mas duas...
— Isso também não parece muito normal. Eu disse, apontando entre nos dois com a pouca estabilidade que o álcool me dava, senti o meu corpo tremer. — Estou até pensando que você está na minha cabeça... e é só uma ilusão da minha mente quebrada. O álcool estava fazendo com que eu falasse bobagens.
— Você acha que sou produto da sua imaginação? Ele perguntou num tom divertido, mas, o seu rosto não mostrava nenhuma fachada que indicasse que ele estava rindo de mim. Eu m*al conseguia olhar para o rosto dele.
— Ou você é isso, ou é meu anjo da guarda... Eu comecei a rir só de pensar nisso. — Mas deixa eu te dizer, se você é assim, você fez um péssimo trabalho. Ele acenou com as mãos de um lado para o outro.
— Péssimo?
— Você não deveria ter me deixado ficar noiva dele, ou me apaixonar, você não deveria ter me deixado conhecê-lo. Você é o pior anjo da guarda que existe. Eu disse com lágrimas se acumulando nos meus olhos, novamente aquela amargura tomou conta do meu interior. Eu abafei os soluços cobrindo a boca com as costas da mão.
— É engraçado, o amor afirma ser o sentimento que muda o mundo, mas já vi mais guerras travadas por amor do que por ódio. Ele mencionou ironicamente. Ele tocou sutilmente o meu rosto com um dos dedos, especificamente perto dos olhos.
Eu congelei, incapaz de mover um único músculo. O homem na minha frente retirou os dedos e olhou atentamente para a minha mão, a lágrima estava ali umedecendo a sua pele, ele sorriu levemente.
— Quem é você? Eu suspirei, incomodada com a proximidade e a atitude dele.
— Você já disse isso antes, seu anjo da guarda.
.....
— Eu deveria ter ido com a Ariana ao banheiro. Camila indicou.
— Não, se você fosse ela ia chorar muito, ela precisa lembrar que estamos aqui. Declarou Letícia.
— Acho que ela bebeu demais, não parecia bem. Camila insistiu, mas Shaina concordou com a loira.
— Vamos dar um tempo a ela, se ela não voltar, vamos ao banheiro. Ela mencionou enquanto continuava se movendo no ritmo da música.
— Embora tenhamos visitas em três, dois... Shaina olhou para Letícia sem entender nada.
— Olá, lindezas. A voz soou acima da música. Ela teve que se mover para conseguir enxergar e, para sua surpresa, eram aqueles três indivíduos se aproximando.
― Olá, estranhos. Cumprimentou Letícia. Camila os observava desconfiada enquanto o rapaz tatuado sorria para ela com certo charme.
— Perdoe a minha educação. Ele é Luka. Ele apontou para o garoto de cabelos pretos e olhos verdes que simplesmente levantou a mão em saudação, ela conseguia perceber o sotaque mesmo com a música muito alta, parecia que ele também não falava muito bem espanhol. — Pavel... Ele indicou o homem de cabelos longos e tatuagens, e com um sorriso encantador, cumprimentou-o com uma pequena reverência. — Adrik... Ele tocou o seu peito, ele era o loiro de olhar penetrante, parecia o mais novo dos três, Shaina olhou para ele da cabeça aos pés, tão divino quanto o vira de longe. Mas agora ele parecia jovem demais para ela.
— Camila, Shaina... e Letícia. A loira indicou sem muita atenção.
— Vou procurar a Ariana, acho que ela está demorando muito. Camila aproveitou a oportunidade para se perder e se afastar daqueles três homens que não pareciam muito bem para ela.
—*—
Eu pisquei várias vezes ao ouvi-lo dizer isso tão seriamente. Não havia sorriso no rosto dele, nem uma careta que indicasse que ele estava brincando, e isso me fez arrepiar.
Eu levantei a mão para tocá-lo, eu precisava colocar a minha cabeça em ordem se aquele homem com o seu porte imponente e olhar escuro fosse real. De repente, tornou-se urgente, eu queria saber que tipo de jogo eu estava jogando. Ele nem se moveu, manteve as mãos ao lado do corpo estudando-me com o olhar, novamente o azul dos seus olhos brilhou, não podia ser real. Tinha que ser o seu cérebro idio*ta pregando peças em mim. Encontrar o mesmo sujeito duas vezes não pode ser uma simples coincidência.
— Ariana! Aqui está... Ela virou o olhar para a porta onde o seu nome estava sendo gritado. Camila parecia bastante chateada. — O que você está fazendo aqui? Você é louca, sozinha, aqui fora. Ela se aproximou dela.
— Eu não estou sozinha... Ela apontou. Mas quando olhou para trás, encontrou apenas escuridão. — Juro que não estava sozinha. Ela olhou de um lado para o outro procurando por aquele cara.
— Você já está muito bêbada, vamos.
— Posso ajudar vocês? Uma voz masculina se juntou a nós no momento. Eu pensei que seria ele, mas encontrei o tatuado do clube atrás de Camila.
— Quem é o garoto bonito? Eu perguntei, a minha voz completamente transformada, uma risada zombeteira nos meus lábios.
— Não, obrigado, eu consigo fazer isso sozinha. Camila afirmou, pegando um dos meus braços. Se Camila não estivesse tão envolvida em tentar fazer com que eu fosse junto com ela, ela teria notado o garoto de cabelos longos olhando na direção que eu tinha apontado.
Eu fiquei muito chateada, sem entender o que estava acontecendo e onde estava o estranho de olhos frios.
— Camila, eu não estava sozinha, tinha um homem alto lá fora, ele disse que era meu anjo da guarda. Eu falei enquanto caminhavam pelo corredor.
— O que havia naquele vinho? Ele fez você se sentir muito m*al. Eu cambaleei nos meus saltos, o álcool subiu pela minha garganta muito rápido por causa do ar no terraço.
— Permita-me. Ele me tomou cavalheirescamente nos braços diante da Camila.
— Quem é você? O meu cavaleiro andante. Eu disse rindo enquanto me sentia no ar e coberta por braços fortes.
— Pavel, não. Camila disse, tentando fazê-lo parar.
— Você aprendeu o meu nome. Ele manteve um sorriso nos lábios, o seu sotaque russo era forte, pelo menos eu conseguia ouvi-lo melhor longe da pista de dança.
— Também não é tão difícil de lembrar. Ela respondeu secamente.
— Você é rude, eu gosto disso. Ele cantarolou e isso só fez Camila desviar o olhar.
— Vocês gostam um do outro! Eu deixei escapar. Camila arregalou os olhos. Claramente a minha atitude estava irritando ela, mas a risada de Pavel era pior.
— Onde vocês estavam? Shania perguntou, aproximando-se rapidamente. — Entendi. As coisas estão muito ru*ins. Ela disse quando notou que eu estava nos braços do tal Pavel. Eu brincava com o cabelo de Pavel, trançando-o, ou pelo menos tentando, mas, na verdade, eu apenas o torcia em direções diferentes.
— Vou levar você para sua mesa. Ele disse, afastando-se de todos.
— Achei que você tivesse fugido para beijar o russo. Shaina zombou.
— Ele me seguiu, não sei como, mas chegou atrás de mim. Onde está Letícia?
— Lá... Ela apontou para a pista de dança onde estava dançando com os outros dois homens que se aproximaram. — No momento em que isso virou um sanduíche, eu estava fora da equação. Ela mencionou enquanto caminhavam e observavam Pavel, que, como ele havia dito, levou Ariana até a área onde ficava a mesa delas.